Novela na Raia – Episódio 9

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 9).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 9

No Domingo à noite foi com os outros rapazitos tirar a Janeira. Não levavam tocador como os rapazes crescidos. Limitavam-se a parar junto a uma porta e gritar:
– Quer que cante ó que reze?

Os de lá de dentro vinham à porta e, se bem humorados, respondiam:
– Cantem q’anto quiserem!

E cantavam assim:

Ind’agora aqui cheguei,
Já começo a cantar.
Inda não pedi licença,
Não sei se ma querem dar.

Viv’ à estrelinha do Oriente,
Dá-nos luz e salvação.
Vivam os senhores desta casa,
São de boa geração.

Seguiram-se quadras em que louvavam os moradores por objectos que usavam: a bengalinha, o anel d’oiro, a camisinha, etc.

Os moradores ofereceram-lhes uma choriçê.

Foram a outra porta, escolhendo os que já haviam feito matança, e de novo:
– Quer que cante ó que reze?

E cantaram as mesmas ou outras quadras. E os moradores deram cinco tostões.

Bateram a mais umas quantas portas e receberam mais choriçês, morcelas ou moedas de cinco tostões.

Por engano, bateram a uma porta cujos moradores estavam de luto e, vindos à porta, pediram que rezassem, o que eles fizeram. Tiveram como prémio dez tostões, como esmola pela alma do defunto.

Só numa casa nada receberam, apesar de terem cantado, mesmo sem obterem permissão. Castigaram-nos com esta quadra:

Levante-se daí, senhora,
Dessa cadeirinha torta.
Venha-nos dar a Janeira,
Senão caguemos-lh’ à porta.

Os de dentro ficaram fulos e escorraçaram-nos com pragas.

Eles juraram entre si que haveriam de voltar no Entrudo a pôr-lhes um defumeço ruim.

No fim apuraram as contas e verificou-se que tocavam dez tostões, meia choriçê e meio farrenheiro ó meia morcela a cada um.

Nada mau! Já dava para uma ceia e, com os dez tostões, daria cinco a sua mãe e guardaria os outros cinco para extravagâncias.

Para extravagâncias, alto aí! E as calças de pana que precisava para substituir as que rasgara ao cair do burro?! Daria tudo à mãe com a condição de lhe devolver o dinheiro para um corte de pana p’às calças. Haveria de o comprar numa das próximas idas a Valverde e depois iria ó ti Zé Vinhas que lhe fizesse as calças. Queria estreá-las p’ à Páscoa, p’a que o vissem co’ elas a apular o cântaro.

Os seus divertimentos agora eram atentar o Fausto.
– Tarrim! Tarrim! Chicha-pão!

E lá vinha o Fausto às pedradas na direcção dele e dos demais que a ele se juntaram. Escondiam-se atrás das esquinas para de novo voltarem à carga.
– Tarrim! Tarrim! Chicha-pão!

E de novo o Fausto fazia zunir chinas e rebolos por entre eles. De vez em quando algum ficava com uma brecha.
– Toma e vai-te curar! Não te meteras com o pobre do doido!

Por que será que não se metiam com o Naco?
Era filho do senhor Nacleto, o rico…
Mas metiam-se com o irmão Ilídio:
– Rabão! Melharengo!

Percebeu que o Naco não se metia com ninguém, era bem educado e gostava de comandar a música nas festas da Sant’Ofêmia. Conhecia todos os nomes dos músicos, mesmo que já houvessem passado anos que não vinham a Quadrazais. Era ele que dava a partida de manhã à camionete do Saraiva, que lhe arranjara um apito para o efeito e que ele, ufano, trazia dependurado na lapela do casaco. Era ainda ele que, na loije do Paposeco, substituto do Sr. Zé Simão Selada, fechava a mala do correio, dando uma punhada no fecho. Mordia a mão de contente quando alguém lhe dizia que ouvira longe o berro da mala. Por isso toda a gente o respeitava.

O mesmo acontecia com o Tonho Manel Rabito que não fazia mal a ninguém e não dava troco, se o desafiavam.

Mas também não se metiam com o Balele, irmão do Fausto, que esse vinha logo com um malho a ameaçar matar tudo e todos, sempre a dizer: Mato! Mato!

O Miguel não entendia por que é que o Sr. Nacleto, tão rico tinha tantos doidos em casa. Perguntou à mãe. Esta disse-lhe o que era corrente na aldeia:
– Foi castigo de Deus por ter rasgado à Praça a batina do padre Luís, só porque este tinha dito na igreja que estava do lado dos pobres.

Já no tempo do padre Salcedas os apoiantes dos pobres contra os ricos deitaram fogo ao palheiro do Sr. Nacleto.
– Quem deitou o fogo?

Dizem que foi o seu próprio forneiro, o Chancha. Prenderam muita gente nesse tempo, até mesmo a irmã do padre Luís, pois ela continuava a viver em Códrazais. Estávamos no começo da guerra civil de Espanha, com os comunistas contra os falangistas. Os carabineiros nesse tempo estavam excomungados. No deixavam passar nada. Mataram o Poím e o Tó Chorão. Prenderam uns três ó quatro códrazenhos. Estes, querendo fugir, deitaram fogo à porta da cadeia. Acabaram por morrer sufocados pelo fumo. Nesse tempo eram os espanhóis que vinham a Portugal pedir esmola e trocar tachos e panelas por batatas e feijões ou laranjas de carimbo.
– Quieren comprar naranjas?
– A como?
– Cheio por cheio!

Queria dizer: um tacho de laranjas por um tacho de batatas ou de feijões. Mas também negociavam bache por bache, isto é, púcaro ou tacho por comida.
– Sabes por que é que as sortes à Lameirê são tão pequenas?
– Nã, senhora. Porquê?
– Aquele terreno todo era baldio. Iam para lá as vacas e cavalos do povo. Um engenheiro espanhol que se refugiou aqui repartiu o terreno em sortes e cada família tirou um númaro e ficou com a sorte que le calhou. Esse engenheiro era aqui conhecido por D. Pedro, sendo o seu verdadeiro nome Alvarez d’el Bayo, que fora ministro dos Negócios estrangeiros da República Espanhola.

O Miguel tinha razão em ter medo dos carabineiros.
Por que não iria noutro dia tirar novamente a Janeirê? Mais uns dez tostões davam-lhe jeito para comprar as calças. Tinha que saber bem quem tinha feito matança há pouco.

Notas:
Balele – Manuel.
Excomungado – enraivecido.
Le – lhe.
Malho – machado.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

2 Responses to Novela na Raia – Episódio 9

  1. Augusto simão salada diz:

    Amigo Franklim gosto imenso do que escreves . Penso que sabes que o famoso engenheiro que devidiu a Lameira e se fazia apelidar em QUADRAZAIS por Dom Pedro , Era Alvarez del Vaio ministro da Republica espanhola, que um dia foi preso em Navas Frias !!!!!!! Abraço

  2. José Antunes Fino diz:

    Imperdíveis estas crónicas assinadas pelo Franklim Braga…parabéns!

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