Inconsistência de Robles: parecer o que não é!

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Se não houvesse uma imprensa empenhada em contribuir para a decência na política, não sabíamos de muitas das coisas que se passam no país. Foi O «Jornal Económico» que trouxe, em primeira mão, a notícia sobre a incongruência entre a ação política e os interesses privados do vereador da Câmara Municipal de Lisboa, Ricardo Robles.

Fachada vandalizada do prédio da polémica - Capeia Arraiana

Fachada vandalizada do prédio da polémica

Este caso não traz nenhuma novidade; a única surpresa é o rapaz ser do Bloco de Esquerda, os arautos da moralidade na política (algo necessário, mas o pior é o que acontece ao virar da esquina). O comportamento do vereador mostra, uma vez mais, que há uma parte da natureza humana a precisar de contínua vigilância: só somos bons, sérios e incorruptos se quisermos sê-lo. Custa. Não dá mais valias, não enriquecemos…; mas não acordamos, um dia de manhã, com o mundo a cair-nos em cima.

O que levou Robles a isto: ambição pura e simples, alguma ingenuidade, constrangimentos familiares de que fala…? Há tanto tempo na política, já devia ter aprendido a má companhia de alguns negócios, como o da especulação imobiliária. Não se percebe como é que de repente as casas valorizam daquela maneira, com preços incomportáveis para o comum dos cidadãos; não se percebe como o mercado é distorcido, por grupos de interesses (bancos, seguradoras, promotores…) que não se sabe exatamente onde estão e o que planeiam fazer.

Robles não cometeu nenhum crime, não violou nenhuma lei, não manobrou na sombra (que se saiba), mas, na política, espera-se mais do que isto; espera-se uma lisura e uma coerência de comportamentos de que, pelos vistos, não foi capaz. Enquanto lutava pelo direito à habitação, denunciava leis injustas e se empenhava em defender moradores ameaçados de despejo, promovendo e participando em ações, contra o que se passa na zona histórica de Lisboa, fazia, na sua vida privada, exatamente o contrário ou muito perto disso.

Uma vez mais, falhou um suposto básico da política: o interesse comum. Uma vez mais, as aparências não passaram de ilusões.

(Não vejo Robles a voltar à política, nos tempos mais próximos.)

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

2 Responses to Inconsistência de Robles: parecer o que não é!

  1. António Emídio diz:

    Maria Rosa Afonso

    No nosso país, só falo nele, já se puseram de parte todas as regras morais, principalmente pela elite politica e económica e, também por uma série de vigaristas sempre prontos a deitar a mão aquilo que é de todos nós ( estes estão espalhados por todo o território). Prescindir de normas morais significa atropelar os direitos dos outros e não admitir mais do que os próprios. A política já foi despojada da sua dimensão ética. Claro ! Há honrosas excepções, há homens e mulheres dignos de nos representarem, pela sua coragem e pela sua honestidade, mas esses, não se fala muito deles e tentam por todos os meios desacreditá-los perante a opinião pública, e o que é presentemente a opinião pública ? É a opinião privada do poder económico político e, mediático. Atingi o ponto de saturação, já vi tudo, e de tudo, por isso o meu ser é medo como dizia Kafka…

    António Emídio

    • Maria Rosa Afonso diz:

      Também sou invadida pela descrença, mas vejo como uma exigência ética continuar a falar de valores. Há exceções, na política, claro, nem tudo é igual; há pessoas absolutamente incorruptíveis.

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