Novela na Raia – Episódio 8

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 8).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 8

Na noite da passagem de ano ouviu alguns foguetes e muitos tiros de pistolas a atirar com o Ano Velho. Eram pistolas Fienes vendidas pelo Tó Frade, algumas experimentadas nessa noite. Era preciso ter uma fuganta para enfrentar os fachos, se atacassem a tiro.

No Sábado seguinte, escolhido para não faltar à escola, voltou a Valverde. Trouxe a encomenda da ti Creusa e ainda conseguiu trazer um trigo para casa. Desta vez no viu os carabeneiros nem os fachos. Mas tamém no viu a Palmira. Perguntou por ela à Mafalda.
– Que le queres? Aquela no é p’ós tês dentes!
– Só era p’a saber se ‘stava doente. – resmungou, tentando encobrir que tinha sido descoberto nas suas intenções.

Tinha de ser mais cauteloso. O melhor era usar a irmã Lucinda para descobrir o que pretendia, sem dar alvitre.

Conseguira ganhar uns escuditos desta vez. Deu tudo à mãe, mas ficou com um tostão para comprar novo pedrisco e entregar o que lhe emprestaram.

Na Segunda-Feira foi à escola. Não podia faltar mais vezes, se queria fazer a quarta classe. Já lhe bastava ter repetido a primeira e a terceira. Por isso, em Maio faria treze anos. Isto sem contar os anos mamados no tchequeiro, como quase todos. A mãe não tivera dinheiro para pagar o registo à Dª Purificação e ficou atrasado três anos. Menos mal que não atrasou vinte anos, como aconteceu com o Albino Pepe, que só foi registado quando queria ir à inspecção!

O Miguel havia-se demorado na escola naquela tarde. A mãe vira o Liseu e perguntara-lhe por ele.
– Fecou a jogar à bola. – respondeu o Liseu.

Foi como o despoletar de uma granada de juras. Que, em chegando, lhe havia de fazer e acontecer… Se não se lembrava do burro, que era preciso ir buscar à regada… Jurava mesmo qu’ iriê buscá-lo p’uma orelha a São Sebastião.

E, como tardasse, foi mesmo. Não o viu entre os jogadores da bola que, entusiasmados, nem a viram aproximar-se, já de chinela no ar. Perguntou por ele.
– É capaz de estar ali junto da capela, onde jogam ó bicho.

Aproximou-se sorrateira. À vez, os jogadores pegavam na china e vá de fazer picanços.
Traz! Um atirou com o malhão e os pedriscos voaram cada um para seu lado.
– Tudo meu!
– Qual quê? Vamos a meças!

O palito métrico ou a palhinha métrica fariam as meças.

Nisto ouviu-se o mesmo grito ao lado, onde se jogavam lápis, e um picanço fizera a china, trazida da ribeira nos bolsos das calças, lisinha e tão polida, cair para trás, desviando o malhão e assentando sobre os lápis.

Iam estes repor novos pedriscos e lápis quando o «Tudo meu!» se ouviu mais acima. Jogava-se a dinheiro em cima da carreta, já sem linhas. Com um vintém, um tinha dado uma catrafada na carreta e cada moeda fora parar junto de cada vintém. Ninguém perdera nem ganhara desta vez.

O Miguel assistia extasiado, andando de um para outro grupo, e pensando que, se fosse ele, limparia aquilo tudo num esfregar de olhos. Esteve mesmo para arriscar um pedrisco. Mas aprendera a lição. Havia dias em que ficara sem o pedrisco. Sorte, que lhe emprestaram um para mostrar em casa. A lápis?… nem os tinha. Dinheiro?… Não sabia como o Júlio e o Amaro podiam jogar a dinheiro. Eram tão pobres como ele… Teriam eles vendido algum litro de feijão às mães que o guardavam para a sementeira seguinte?!… Talvez tivessem vendido algumas ferraduras velhas!… Ou teriam eles ficado com alguns dez tostões da última ida a Valverde?

Um pensamento de, também ele, ter o seu tostão viera-lhe à cabeça. A ideia não tivera tempo de amadurecer, quando o Próprio gritou:
– Afoge, Meguel! Olha tó mãe!

Já era tarde. Sorrateira, a sapata caiu-lhe no lombo.
– Ai!
– Afoge, ladrão!
– Ai dele que fuja, que, em casa come à rica e traja à pobre. Mostra lá o teu pedrisco, vagabundo!

O Miguel mostrou o que lhe haviam emprestado.
– Ainda há dias te dei um tostão p’a um e só já tens esse niquinho?!
– Pois! Pensa que não se escreve na escola?
– Passa já p’a casa.
– Pronto! Ê vou já por’qui buscar o burro.

Ainda era um salto até Vila Ferreira. Foi a correr. Dobrou os laços, montou no burro e aí vem ele a trote, em pêlo. Ia passar no Vale quando o Fanhinha e o Amaro puseram uma silva no rabo do burro. Quatro pinotes e eis o Miguel no chão. Foi cá um daqueles chambotes que até se ouviu a carchantada que dera com a cabeça no chão. Felizmente, apenas ficara com as mãos esfoladas e cheias de areias.

Ainda verteu umas lágrimas. Insultou os agressores. Mas teve de se calar pois eram dois e contentou-se em dizer:
– No dia que passares à nossa porta já t’as canto!

O diabo do burro parecia também escarnecer dele. Mais à frente, já liberto da silva, espojava-se em cambalhotas. Uma! Duas! Três! Quatro!
– Vai mais uma! Já ganhou a quarta.

O Miguel, fulo, é que não ia em risos e ia dar-lhe uma vardiscada.

Alto! Tinha que lhe ralhar de longe, pois estava descalço e, pisar a espojadura, era trilhadura certa.

Já nem teve vontade de montar. Uma série de vardiscadas no animal serviram para se vingar dos culpados do chambote. O burro desatara aos pinotes.
– Xó, êh, xó!

Aproximou-se dele.
– Toma! Toma!

O burro, desconfiado, virava-se. De voz meiga:
– Toma! Toma!

Conseguiu apanhar-lhe a arreata. E lá seguiram rua acima, como dois amigos.

Este ladrão precisava era de andar de olhos tapados a tirar áugua dos pôços, que já aprendia a ser obediente!
A mãe estava à porta à sua espera. Viu-lhe as calças sujas.
– Qu’ andaste a fazer?

Nem ele tinha reparado no rasgão, mas já a mãe lhe untava o lombo com as imprecações do costume:
– Não ganho p’a rôpa p’a este desgraçado! Inda onte t’as cosi!… E essas mãos! Andaste tu a raspar a rua? Trata já de as ir lavar e pôr mercúrio nelas.

Nisto começa o sino compassado: Dlão! Dlão!
– Ai, Jasus! Quem m’rrariê?

Cada vizinhê, chegada à porta, aventava o seu palpite.
– Sariê a do Belarico, que já lhe deram o Senhor?!

Fosse quem fosse. A ti Beda ia ter serviço essa noite. E os Amaros esfregavam as mãos de contentes. Iam comer mais um quilotre de carne!
E a Janjo lembrou-se da pergunta a fazer à ti Beda.

Notas:
Afoge! – foge!
Carchantada – cacetada.
Catrafada – encontrão.
Chambote – queda.
Dar alvitre – dar alertas.
Espojadurê – local onde o animal se deitou.
Fienes – marca FN.
Fuganta – pistola, espingarda(Gíria).
Ganhar a quarta – ganhar um quarto de alqueire de grão.
Mamados no tchequeiro – expressão que indica os anos retirados por não se registarem.
– meu.
Niquinho – migalha.
Picanços – habilidade de fazer a pedra bater no chão e cair para trás.
Tês – teus.
– tua.
Trilhadura – calo.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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