Os Carris e as Bitolas

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

A Ferrovia, nos últimos anos tem sido o parente pobre dos investimentos públicos feitos nesta área. As infraestruturas rodoviárias que se fizeram no país, por opção politica, relegaram o Comboio para segundo plano. Mas parece que as coisas estão a mudar.

Estação da Cerdeira

Várias vezes, somos confrontados com expressões relacionadas com comboios, para descrever situações que pouco podem ter a ver com comboios.
“Enquanto o comboio não entrar nos carris”, não vamos a lado nenhum para significar coisas descontroladas, desorganizadas. Mas um comboio que anda nos carris, cumpre necessariamente a sua função e presta naturalmente serviços às pessoas. Por isso andar nos carris significa cumprir a função para que foi criado.
Mas para o comboio andar nos carris de forma sustentada é preciso que existam carris que sejam também eles, para além do comboio, sustentáveis.
Vem isto a propósito dos investimentos que irão ser feitos nos próximos anos na rede ferroviária onde se inclui também a modernização da linha da Beira Alta. Todos certamente concordamos com a opção ferroviária, principalmente quando a nossa economia e exportações estão a crescer e nomeadamente para países da união europeia.
Mas há coisas que nos custam a perceber quando somos confrontados com decisões que os nossos políticos tomam ou tomaram neste domínio.
Na Europa nem todos os carris são iguais, ou melhor nem sempre os carris estiveram à mesma distância uns dos outros, isto é as linhas ferroviárias não tiveram todas a mesma bitola. Mas desde 1866, na convenção de Berna foi decidido o contrário, isto é todas as ferrovias teriam uma bitola igual a 1435mm havendo até quem considere esta decisão, como o inicio do mercado comum. Com aquela decisão, um vagão de mercadorias poderia circular sem qualquer alteração entre os diferentes países que adoptassem a mesma bitola.
No caso de Portugal, naturalmente ligado em termos continentais a Espanha a bitola das linhas ferroviárias é a bitola ibérica (1668 mm). Não deixa de ser curioso que a adopção da bitola ibérica por parte de Espanha, que invariavelmente obrigaria Portugal a adoptá-la por razões de continuidade das linhas, ocorreu com o argumento de defesa e combate à invasão estrangeira. Dizia-se na altura que uma linha com a mesma bitola, facilitava a tarefa dos invasores que assim podiam utilizar a infraestrutura para circular o material e tropas próprios.
Como se alguém decidisse invadir um outro país de comboio. Claro que o comboio facilitaria as deslocações de materiais e pessoas, mas, que diabo, invadir de comboio parece-me excessivo e grotesco.
Por tudo isto, Portugal neste domínio tem andado sempre a reboque de Espanha por razões que se compreendem. Difícil será entender que Espanha altere a bitola para a bitola europeia e Portugal, mesmo em linhas novas, continue com a antiga. Isso diminui drasticamente a competitividade das nossas empresas quando querem expandir-se para a europa.
E, em linhas com bitolas diferentes não podem circular livremente todos os comboios. E preciso fazer a conversão dessas bitolas para que a viagem das mercadorias possa prosseguir. Isso naturalmente que as encarece e as torna menos competitivas.
É fácil perceber que um vagão de mercadorias que possa circular sem qualquer operação intermédia entre Portugal e países a partir de França tem custos inferiores aos que terá se em Espanha tiver de ser feita a conversão para poder circular.
Por tudo isso, custa a perceber que quando se encarou a possibilidade de modernização de diversas linhas ferroviárias, utilizando fundos europeus, se tivesse equacionado qual a bitola a utilizar quando em Espanha há muito que se decidiu começar a abandonar a bitola ibérica.
Naturalmente que neste domínio Portugal tem de se encontrar em sintonia com Espanha por razões de natureza geográfica. Mas não fazer nada para retirar o maior partido das situações que em cada momento se nos colocam não é prestar um bom serviço ao país.
Espanha só terá a ganhar se alterar a sua bitola como o vem fazendo, e ao mesmo tempo ajudar a que em Portugal não seja alterada a bitola ibérica. Porquê?
Por que com a bitola existente, a conversão tem de ser feita em Espanha antes de poder circular na bitola europeia. Isso tem custos, que são pagos por quem precisa desses serviços, neste caso nós.
Ora o recente concurso aberto para a modernização da Linha da Beira Alta entre a Guarda e a Cerdeira, de que se deu conta há dias (aqui), prevê precisamente a substituição das actuais travessas existentes bi-bloco por travessas monobloco e que permitem a adopção da bitola europeia e também da bitola ibérica. Naturalmente que estamos a falar de valores que serão superiores mas certamente que vale a pena investir desta forma.
Aliás não se percebe por que razão esta medida não foi tomada mais cedo sendo certo que se sabe que este problema se iria pôr mais cedo ou mais tarde, por que razão quando foram substituídas as travessas de madeira por travessas de betão não foi feita uma substituição deste tipo?
Bem, mas mais vale tarde que nunca e se agora estamos no caminho certo não vale a pena chorar sobre o que se não fez. Vale sim a pena pensar nos custos que uma decisão anterior acabou por provocar ao país para que não volte a ser cometido erro semelhante.
Se estamos condenados a aprender com os erros que cometemos, seja, mas só esperamos que esses dias não sejam longos.
Para já devemos congratular-nos com este investimento na linha da Beira Alta que vem na senda da revitalização do interior. Mas sejamos honestos: Este investimento certamente melhorará a competitividade do país, mas o interior pouco irá benificiar a não ser “Ver passar os Comboios”
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

One Response to Os Carris e as Bitolas

  1. Teresa Castro Cirne de Castro diz:

    Boa tarde, quase patrício, José Fernandes.
    Na sequência da leitura do seu poste de 1 de Agosto 2018 tomei conhecimento, duma forma mais detalhada da obra de modernização Troço Guarda – Vilar Formoso, ou seja, que, na opinião do presidente da Câmara Municipal da Guarda, Álvaro Amaro, a obra de modernização do Troço Guarda – Vilar Formoso, Sub troço Guarda – Cerdeira, tem um investimento associado de 11 milhões de euros e «será, talvez, o maior desafio para o seu desenvolvimento nas próximas décadas». (Jcl, com agência Lusa).
    Caramba! É a expressão que me ocorre para exprimir o exagero da afirmação. Desafio, porquê? Será que, no meio de tanta fraude, alguém tem autoridade para se opor a um melhoramento essencial tão adiado?
    Só se, como a regra é a derrapagem, não houver muitas possibilidades para a excepção – a coincidência entre o valor posto a concurso e o preço real da empreitada…
    E quem irá ser beneficiado com o projecto? As povoações que atravessa? Também penso que não – essas ” irão continuar a ver passar os Comboios”, como diz…
    Quando à bitola ibérica e à defesa de invasão estrangeira, lembro-me de ter lido que ainda hoje, “uma das divisões de elite do Exército Espanhol, a célebre “Divisão Brunete”, sediada a Norte de Madrid, tem por uma das suas missões tácticas ocupar Lisboa em 24 horas! (Garcia Pereira).
    Um abraço
    Teresa Castro

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