Casteleiro – Assim se falava na minha aldeia

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Bela ocupação deste espaço hoje com expressões genuínas das pessoas do Casteleiro de há 60 anos! O tema de hoje – Gramática Popular – é dos que mais me atraem.

«Acende o Rádio!» e «Apaga o Rádio» - Capeia Arraiana

«Acende o Rádio!» e «Apaga o Rádio»

Há expressões populares que à primeira vista nem se imagina de onde vêm. Outras, vê-se logo que o Povo as foi buscar aqui ou ali. Sabido isso, é o primeiro passo para entendermos qual o caminho percorrido, na boca das pessoas, de geração em geração, até se chegar ali…
Eis alguns exemplos disso mesmo…

Acender e apagar

– Ó rapaz acende lá o rádio.
– Apaga a televisão.
Acender e apagar, estão a ver?
Como se fosse o fogo na lareira…

Para quem já não se lembra do uso destas duas palavras no contexto radiofónico da altura… aqui fica a memória da situação.
Estamos todos por exemplo na Casa do Povo do Casteleiro em 1967 ou 68. Quem manda naquilo tudo à noite é o t’ João Catana.
E ele nunca tem pressa de ligar o televisor – ora é para verem televisão que as pessoas lá vão.
Mas isso nunca mais acontece…
Então há sempre um que lhe grita:
– Ó t’ João! Acenda lá a televisão!
Repito: acender e apagar era ligar e desligar: o rádio ou a televisão.
E o Povo tinha razão, mais uma vez: as luzes que acendem quando se liga parecem chamas… E o contrário quando se desliga: apagam-se as chamas lá dentro, não é?

Isto é que vai aqui uma quemua…

Esta frase – Isto é que vai aqui uma quemua… – quer dizer que vai ali uma grande mexida, um movimento de pessoas e ou de objectos mal arrumados… digamos: uma certa confusão.
É a «quemua», que deve ser lida assim: «qu’mua». Para lavra que virá, penso, de comum, comua (feminino de comum), c’mua na pronúncia popular…
Ou seja: uma verdadeira «república» no mesmo sentido de diversidade desorganizada de objectivos e de situações…

Sabedoria linguística popular insubstituível: séculos e séculos de evolução das palavras… Certo? (… Ou, em bom português de hoje para quem tem menos de 20 anos: OK?).
É a sério: a miudagem pensa que estas palavras são português do melhor: OK, nude, selfie, etc..

Caleto do ano

Quando a fruta não está muito em condições por causa do estado do tempo (como está a acontecer concretamente este ano), dizia-se assim:
– Então, o que é que quer? É caleto do ano.
Ou, noutra pronúncia:
– É calete do ano.

A palavra caleto ou calete significa realmente «qualidade», característica- Portanto, tudo certo… É característica deste ano de 2018 que a fruta não seja grande coisa por causa das consequências no nosso País das alterações climáticas globais.

Regar à dua

– Vamos à Serra regar os feijões.
– Então mas hoje a água da presa é vossa?
– Claro: ontem foi o ti Antonho, hoje somos nós. É à dua.

Ou seja, explicando: à dua é a dois: um dia um, outro dia o outro.
Correcto?
Sim: à dua, dualmente.
Tudo de acordo com as regras populares do uso das palavras, sempre com significado rigoroso.

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Nada na escrita me dá mais prazer do que isto: escrever expressões populares ou palavras usadas pelo nosso Povo e conseguir vislumbrar de imediato: de onde vêm essas palavras, qual o seu percurso na pronúncia popular, e o que o Povo sempre quis significar com elas.
Hoje ficam aí mais estes exemplos.
Outros virão depois, quando for o caso.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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