Eleições – uma calamidade para a sociedade

No Brasil de 1859, um rico dignatário irrompeu em impropérios contra a nova moda que tomava forma na política nacional: as eleições. Para ele a ida a votos era uma terrível calamidade que se abatia sobre o Brasil, pondo em luta irmão contra irmão.

Grupo de fazendeiros vem à cidade para votar

Escrevendo num jornal da então pequena cidade de Guaratinguetá, nas redondezas de São Paulo, C. de Macedo, descreveu o que para ele era uma eleição no Brasil:
«Uma eleição entre nós importa sempre uma calamidade ao país. Quem não tem visto, quem não tem experimentado essa febre ardente com seus delírios e tresvarios, com suas noites de insónia, com seus dias de constante preocupação?!… essa febre que se assemelha à hidrofobia?! Essa luta universal de um povo de irmãos encanzinados, luta da imoralidade contra os sãos princípios, em que o pobre e o fraco são comprados e corrompidos pelo rico e o forte, em que o ladrão das cidades salteia as consciências, em que o venal infame vende o mais sagrado dos direitos, em que o capanga vende o braço mercenário – luta em que cada irmão, como Caim, arma o braço contra o irmão.»
Macedo não gostava de eleições, está visto, preferindo a essa perfídia o sistema ditatorial em que tudo era sabido e calmamente decidido, a bem e a proveito do povo submisso aos seus naturais senhores.
Mas o que mais motivava Macedo na crítica contundente às eleições, era a constatação de que a luta que as caracterizava nunca redundava em acalmia:
«E ainda se após a batalha cada um dos exércitos se recolhesse ao seu campo… se o vencedor se contentasse em entoar os hinos da vitória e se os vencidos somente deplorassem a derrota e pranteassem os seus erros… oh! Tudo iria bem. A eleição seria um mal, mas um mal passageiro. Mas uma eleição entre nós é uma tempestade a que não se segue a bonança. Após ela as nuvens negras amontoam-se sobre o horizonte da pátria e a luta, até então travada em campo aberto, faz-se agora por emboscadas. Cada adversário vê no adversário uma ofensa a vingar, e então à vingança tudo se sacrifica – o bom senso, o repouso, a humanidade, a justiça, tudo… até o pudor.»
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Por Paulo Leitão Batista

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