Novela na Raia – Episódio 7

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 7).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 7

Uma desilusão! Levantou-se bem cedo no dia vinte e cinco, foi ao lume, voltou o tamanco e nada! Como nada tinham as irmãs nas suas sandálias. Os tempos estavam difíceis. A mãe via-se e desejava-se para criar os quatro. Por isso, não resmungou e nada disse à mãe.

O Menino não teria apreciado a laranja que lhe dera, ou achou pouco?!

Contentou-se em vestir uma casaquinha quase nova, que a mãe passara a ferro.

Teve ganas de ir dar as bôs festas a alguns vizinhos e amigos. Beberia alguma copa de aguardente e talvez uma filhós nessas casas. Mas tinha de entrar c’o pé direito, pois dava má sorte entrar c’o esquerdo. Receou emborrachar-se, como tantos outros rapazitos faziam.

Que diria dele a Palmira, se a encontrasse na rua? Se calhar, nunca mais quereria vê-lo.

Conteve-se, pois.

Preferiu ir buscar um toco ao madeiro, antes que as pessoas se levantassem e o vissem.

O Menino já estaria bem aquecido. Agora já podia tirar-lhe um toco.

Foi tratar do burro e do marrano e ficou em casa. O Natal era o dia da família. Por isso, ficava-lhe bem estar junto da família.

Não foi à missa, pois já havia ido à do galo, que substituía esta. Desta vez foi a Janjo com a mãe.

Pensou que a mãe faria, ao menos, um jantar melhorado. Vá lá que ainda havia sobrado um farrenheiro que alguém lhe havia dado. Com batatas rachadas e com o seu próprio molho, soube a pouco. Para consolação, a mãe desencantou um rebuçado para cada um. E ainda fizera uma meia dúzia de filhoses.

Afinal, sempre sabia a festa!

Acabado o jantar, foi até ao Vale, abriu a porta da taberna do Manal, como se procurasse alguém. Desejou bôs festas a todos.

Reparou que na taberna se encontrava o habitual Conde com as suas bazófias:
– Quem troca vinte, cinquenta ou cem escudos?

Era o Zé Charavilha em pessoa, mas co’ ele não quis nada.

Ia sair quando um primo lhe ofereceu uma bebida.
– Que queres, um pirolito ou um copo? – pronunciando esta palavra com um sorriso irónico.
– Um copo! – respondeu o Miguel, ufano, querendo mostrar que já era homem.
– Bota lá aqui um copo de três desse do Casteleiro ó mê primo. Vamos ver se s’ auguenta de pé!

O Miguel bebeu-o num trago como faziam os crescidos. Até fez um ah! e estalou a língua como aqueles.
– Si, senhor, ‘stás um home valente!

Começou a sentir a cabeça à roda, que o vinho era forte, nada que ver com o mijateiro da terra, que chegou a gelar nas pipas, como aconteceu ao ti João de Paulo, e foi para casa. Deitou-se sobre a cama.

– ‘stás doente, Meguel? – perguntou-lhe a mãe.
– No se preocupe. No é nada.

A cabeça andava-lhe às voltas. Adormeceu. Passada uma hora acordou com a boca a saber-lhe a papéis de música.
– Caramba! Tinha mostrado que era home.

Lembrou-se, então, de procurar a Palmira e dar-lhe as bôs festas, oferecendo-lhe o caramelo.

Ela estava na sua rua perto do Vale, com um vestido novo. Estava sozinha. Que sorte! Apressou o passo, quase como chancada, em direcção a ela.
– Estás muito bonita, Palmira! Bôs Festas!
– Obrigado! Bôs Festas p’a ti tamém – respondeu-lhe a Palmira.
– Truxe-te este caramelo de Valverde. Espero que gostes dele tanto quanto eu gosto de ti.

As faces do Miguel coraram, não sabendo qual seria a reacção dela. O mesmo viu ele nas faces da Palmira.
– Obrigado! Gosto do caramelo e tamém…

Arrependeu-se de acabar a frase. Mas o Miguel compreendeu o que ela queria dizer.

Estava um pouco envergonhada, lembrando-se do que ordenara a Pingona à filha, fazendo lei na terra: «Se homem vem aproximar-se de ti, Celda passo largo!»

Ela já havia transgredido a lei. Despediu-se com um «bô tarde» e foi para casa. Aproximava-se a hora da ceia, onde haveria, certamente, filhoses para sobremesa.

O Miguel, todo concho, também regressou a casa. E ceou como se estivesse ao lado da Palmira, alheado da mãe e irmãs, imaginando-se a comer filhoses com ela, atitude que não escapou à mãe.
– Inda ‘stá sob o efeito do vinho! – pensou ela.

Deu uma espreitadela pela porta, com ganas de voltar ao local da visão. Se a encontrasse, como já estava escuro, arriscaria dar-lhe um beijo, tal era a paixão que ardia dentro dele. Porém, já era noite e estava um frio de rachar. Receou constipar-se e que a tosse voltasse.

– Fiquê p’ amanhê!

Com este frio a rebeirê ia gelar, de certeza. Nunca tinha passado por cima dela a pé. Havia de ir vê-la no dia seguinte com o Liseu e o Réri. Se estivesse gelada, quem sabe se não fariam uma aposta a ver quem a atravessava mais depressa?

Sentou-se com as irmãs e a mãe ao lume, já fraquinho, mas ainda aquecendo, graças ao toro que tinha ido buscar de manhã ao madeiro.

Já não lhe apetecia jogar com as irmãs ao…

Chacotinha, chacotão,
Da liminha do Simão,
Do palhaço da raínha.
Quantos dedos tenho p’a cima?

Nem tampoco ao…

Sarabico, bico, bico,
Cá da mãe de Jesus Cristo?
Foi levar o jantar à tapada Carvalhal.
Todos os meninos encontrou,
Só a ti é que te deixou.
Vai-t’a pôr onde t’eu mandar.

E ainda menos ao…

Sarabico!
Sarapanha!

Deitou-se mal o lume se apagou.

Sonhou com a Palmira a receber o seu beijo na face, sem se esquivar, e recebendo dela um outro, que lhe soube a uma eternidade.

De manhã recordou esse beijo. Tocou na cara para sentir a doçura desse beijo. Mas nada sentiu para além do frio da cara. Voltou a si.

Não passara de um sonho e esse sonho tão lindo tinha acabado.

Quem lhe dera saber se a Palmira também tivera um sonho parecido com o dele!

A Lucinda haveria de sabê-lo e muito mais sobre o que a Palmira sonhara.

Notas:
Auguentar – aguentar.
Bôs – bons ou boas.
Ceia – jantar nas cidades.
Concho – contente.
Gero – Ludgero.
Gorja – garganta.
Jantar – almoço das cidades.
Madeiro – conjunto de troncos que fazem arder em frente da igreja.
Manal – Manuel.
Menalzé – Manuel José.
No – não.
Pôr férias – entrar em férias.
Truxe-te – trouxe-te.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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