Sardinhas e outros peixes

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Tenho na memória, que na minha aldeia arraiana, Bismula (Sabugal), o primeiro peixe que saboreei foi a sardinha. Naqueles tempos difíceis uma sardinha dava para três irmãos. Actualmente, vendidas aos preços dos Santos Populares, os pobres nem lhes tocam, é só cheirá-las…

Nos Santos Populares, a sardinha é a rainha da festa

A seguir a esta espécie marinha, veio o carapau grande, o chicharro e finalmente o bacalhau.
Para termos sardinhas e chicharros, a minha Mãe, como tinha pouco dinheiro, trocava-os por batatas: um quilo de batatas, meia dúzia de sardinhas; dois quilos uma dúzia. As batatas abundavam na nossa loja terreira.
O bacalhau, o fiel amigo dos pobres da época, para se adquirir a bom preço, tinha que se percorrer os trilhos do contrabando e ir comprá-lo, aí sim, com dinheiro (o escudo a valer duas pesetas), a terras fronteiriças de Espanha, Almedilha e Albergaria de Aragão. Com o bacalhau, compravam-se as conservas de sardinhas e atum, em latas grandes, azeite, toucinho de porco preto, galhetas e acessórios, como véus para as senhoras e meninas cobrirem a cabeça antes de entrar num recinto religioso, ou perfumes tabu. Muitas vezes essas compras eram permutas entre máquinas de costura e café… Este já era o grande contrabando. O pequeno, o das sobrevivências, era de poucos escudos à mistura com troca de ovos.
O meu pai encarregou o Zé Brigas, um valentão, capaz de enfrentar o maior touro enfurecido, para lhe trazer de terras castelhanas o fiel amigo para a Consoada do Natal. Foi valente, conseguiu chegar a bom porto, à Bismula, com a carga às costas, fazendo frente a guardas fiscais e aos carabineiros. Assim tivemos um Natal mais consolado e feliz, comendo bacalhau.
Recordo as minhas idas à estação da C.P. na Cerdeira do Côa, com uns papelinhos amarelados, e levantar no inverno caixas de quinze quilos, depositárias de sacas de sarapilheira, com muitas sardinhas escorchadas (os pescadores, em tempos de abundância, no momento da pesca, cortavam a cabeça às sardinhas e colocavam-nas em reservatórios de água salgada até perderem o sangue) oriundas de Setúbal, que os amigos João e Júlia Lopes mandavam para o meu Pai. Por sua vez, o meu saudoso Pai mandava-lhes batatas, queijos de vaca que a minha Mãe fazia na nossa humilde casinha, às vezes uns véus de meninas e senhoras, e o perfume tabu, contrabandos de Espanha.
Nesta época dos Santos Populares, a sardinha é a rainha da festa, mas poucos saberão que o seu nome é originário da Sardenha, em cujo mar havia enormes cardumes. A Costa Portuguesa é nesta época agraciada por este peixe, que para não acabar de vez a U.E. determinou quotas na sua captura.
A sardinha, entre Outubro e Abril, reproduz-se e cresce, para em Maio se iniciar a pesca.
Tem imensas qualidades a sardinha brilhante e prateada: rica numa variedade de vitaminas que compensam o nosso corpo e o ajudam a manter os níveis normais de colesterol, de potássio e a controlar a tensão arterial. Associada a estes bens para a nossa saúde, é um prazer comermos sardinhas, com batatas da Terra Fria, do Planalto do Ribacôa, saladas, pimentos assados (de preferência vermelhos para o meu irmão João Fernandes), bem temperados com azeite e um bom tinto do Fundão.
Para mim, sou suspeito, as melhores sardinhas do mundo são as de Setúbal, pescadas na Costa Vicentina, na zona costeira de Sines.
Esta minha crónica foi colhida na sardinhada oferecida pelas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus aos familiares das Pessoas Assistidas, no dia do Desfile das Marchas Populares da Casa de Saúde Santa Isabel de Condeixa, onde participei com o São Pedro nas mãos, pedindo-lhe protecção à minha chegada eterna.
Também foi inspirada com o pensamento na Quinta do amigo Canário em Orjais, numa encosta nascente da Serra da Estrela, com uma paisagem panorâmica, das mais belas de Portugal. Ali decorreu mais um convívio trimestral, conforme os estatutos da Associação dos Ex-Bancários do Pinto e Sotto Mayor das Agências do Fundão e da Covilhã. A ementa nesta quadra do ano só podiam ser sardinhas, vindas expressamente de Setúbal. Decorreu com muito entusiasmo e as sardinhas estavam divinais, segundo diversos testemunhos.
A este pobre e simples cronista, longe, muito longe de estar presente, nem os ventos favoráveis conseguiram trazer-lhe o cheiro. Fiquei triste, mas recebi a ementa e registei-a para futuros e amistosos encontros de memórias.
Saboreei umas genuínas Cerejas do Fundão, por serem as últimas daquele dia, dessa quarta-feira, dia 27 de Junho, foram as melhores, carnudas e vermelhas como papoilas na Primavera.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

One Response to Sardinhas e outros peixes

  1. António José Alcada diz:

    Que saudades desse cheiro daquele mar que ainda é nosso! Obrigado António por esta viagem a tempos em que a riqueza acima de tudo era humana. Um abraço

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