Novela na Raia – Episódio 6

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 6).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 6

Na manhãzinha de 21 de Dezembro saia de casa, rumo a Espanha, um rancho de cerca de vinte rapazitos e moças.

O Miguel levava dinheiro para trazer tripa, azeite e pimento para a ti Marifêmia, mas também tencionava trazer dois trigos e uma lata de azeite para casa. Seria carga bastante. Havia de trazer uma lata de azeite em cada mão e o trigo e o pimento na saca, às costas, presa ao baraço das calças por outro baraço. Quisesse Deus que desta vez chegasse com toda a carga a casa.

Desta vez foram pelo Alcambar. Quando já estavam perto do Barroco da Forja, viram grupos de contrabandistas contratados pelo Tó Panto, intermediário dos Carvalhas, que já regressavam de Valverde com os carregos, onde tinham dormido para recuperar forças. Vinham dos lados da Quinta do Major. Reconheceram o Zé Russo, o Salvador, o Valhé Panto, o Horácio, o Quim Sapateiro, o Ganito pai, o Barroco e o Padece. Chegariam, certamente, a Quadrazais sem incidentes, já que o rancho não tinha visto fachos e eles já haviam deixado terras de Espanha.

Sem incidentes chegaram eles também a Valverde. Parecia tudo calmo na paz de Deus que se iria transformar em Menino dentro em breve.

Compraram o que quiseram nos comércios habituais. Quadrazais inteiro parece que se tinha deslocado para Valverde. Na Ti Tomásia encontraram os Carvalhas, que já haviam despachado a mercadoria de madrugada. Lá estavam também os da Pecada que aguardavam a noite para enviar a mercadoria às costas dos contratados pelo Mário Valente, seu intermediário: o Alfredo Marocho, o Tó Pote, o Maneta, o Presas, o Buche, o Paragueiro, o Patata, o Musgo e o Troncho.

Estes tinham planeado regressar pela Ginestosa em direcção à Cerdeira. Era mais seguro, que aí não entravam carabeneiros. O pior era se os bois reconheciam algum que na Sant’Ofêmia passada os fora roubar para a tourada! Ajustariam contas pelos maus tratos sofridos.

Para os Chanas estavam o Mata o Boi, o João Lucas, o Parrecho, o Lua Cheia e o Lancha.

Na Concha viram umas tantas mulheres, as covilhanenses, que em breve iriam partir: a Dulce Finota, a Adélia, a Alice Charavilha, a Estrela que veio a casar com o Toninho Meirinha, a Bajé Corceira e uma ou outra mais.

A outro canto estavam as lisboetas Alzira, Bajé do Mário, Rafona e a Maria Lucas. Lá estava também a Maria do Sá, que vendia na Guarda.

No Saturnino encontraram os contratados para os visienses Seladas e Menalzé Bô: o Fausto Caseiro, o Chorão, o Próprio, o Garrano, o Gero, o Fernando Corceiro e o Bola.

Já prontos na hora marcada, eles atacaram a Marvana, de regresso.

Nem cheiro de carabineiros. Já em Portugal, cruzaram-se com um pequeno grupo que vinha de Navas Frias, onde reconheceram a Robala. Já estava velha para subir a barreira de Valverde! Ela e o seu pequeno grupo não tinham visto os fachos. Boa notícia! Mais à frente avistaram uma grande récua de cavalos dos soitenhos que se dirigiam a Espanha carregados de minério. Iam em linha horizontal, ocupando grande extensão da serra, desde o Alcambar de Baixo ao Barroco Branco. Atravessando essa linha de cavalos vinha um grupo de contrabandistas por conta própria, entre eles o Zé Simão da ti Míliê, o Lhalhão, o Ramiro, os Cigarris, o Maja, o Manal e o Conde Zé Charavilha.

Parece que haviam escolhido todos as vésperas de Natal para fazer algum negócio em época adequada.

Tudo correu bem desta vez, para gáudio das famílias, que esperavam o azeite para fazer as filhoses.

A Palmira não tinha ido desta vez.

– Estaria doente – pensou o Miguel?

Veio a saber que não. Ficou mais tranquilo. Tinha-lhe comprado o caramelo e também trouxera uma laranja de carimbo para dar ao Menino.

Dormiu tranquilo nessa noite.

No dia seguinte decidiu ir ver o Presépio à igreja.

Ouviu à Fonte que os carabineiros haviam matado um cavalo aos soitenhos. Já o Amaro se aprestava para ir cortar uma massa da perna e trazê-la. Já não morria ninguém há uns tempos. Por isso já não comia o quilotre da carne com os pais e irmãos há muito tempo. Eram eles que cavavam as covas, ganhando uns vinte mil réis, que davam bem p’ó quilotre da carne.

Sorte, que só mataram um! Agora percebia por que iam em fila horizontal. Era como se o cavalo da ponta servisse de chamariz, como o boi de piranha nos rios do Brasil. Se matassem o da ponta, todos os outros escapariam, nem que fosse preciso usar as pistolas para afugentar os fachos.

Lá estava o presépio, construído sobre o altar da Senhora do Rosário, com muito musgo, que a Lucinda havia ajudado a procurar nas paredes. Variadas figuras ladeavam os caminhos feitos com serradura que os carpinteiros Jão da Bivinda, Ranilhês, Rambóia e Sá haviam dado aos mordomos da igreja. Lá estavam no alto as muralhas de Belém e os anjinhos com suas trombetas, os músicos e os pastores com seus rebanhos. Uma fita com a palavra Hossana cruzava todo o altar. Nem faltavam as figuras principais do Novo Testamento – Nossa Senhora, São José e o Menino no meio, deitado numas palhinhas debaixo duma cabana. A mula e a vaca, cada uma de seu lado da cabana, aqueciam com seu bafo o pobre Menino, com poucas vestes. Não faltava o galo lá no alto.

Seria por causa dele que se chamava a missa do galo?

Chegou o dia vinte e quatro. – Iria ele à missa do galo, à meia-noite? – A mãe, certamente que iria. Acabou por ir com a mãe e a Lucinda, tendo ficado a Janjo com o Nacleto, ainda muito pequeno. Levava uma alanterna de azeite na mão, a guiar os seus por entre a escuridão das ruas, não fosse alguma escorregar no códão e partir alguma perna. Ele calçaria os seus tamancos ferrados que se agarrariam bem ao chão. Só não levaria os samancos porque depois não tinha onde os guardar.

Quando chegaram, já o coro das catequistas e amigas entoavam o «Alegrem-se os céus e a terra»… Em breve o padre iria começar a missa. O ti Zé Tchebinho começou a cantar «Da vara nasceu a vara»… e todos o acompanharam ruidosamente. Os que estavam no sobradinho, já com um copito na gorja, excederam-se nos berros e o padre Correia teve de os mandar calar. Mas foi no fim, ao dar a beijar o Menino, que os cânticos se sucederam. E todos iam deitando ao Menino uma moedinha, uma laranja ou algo raro na terra. O Miguel também foi beijar o Menino, tendo-lhe oferecido a laranja de carimbo que trouxera de Valverde, que o padre Correia saborearia.

Quem sabe se não foi ele que o fez chegar com tudo a casa?!

Não viu a Palmira na fila para beijar o Menino. Ficou inquieto.

Talvez se tivesse deixado dormir. Estava a espreitar a ocasião para lhe oferecer o caramelo. A ocasião havia de chegar!

Acabada a cerimónia, saíram da igreja e o Miguel pediu à mãe que o deixasse ir ver o madeiro a arder na Praça.

– Vai lá num pé e vem notro! Ficamos aqui à tua espera.

Mal teve tempo para ver vários homens que, com suas bengalas ou arrochos, batiam no madeiro, fazendo saltar faúlhas que subiam até ao céu.

Zumba no madeiro, qu’ indê ‘stá inteiro! – gritavam, enquanto lhe batiam.

Bem pôs o Miguel o tamanco junto ao lume, esperando encontrar na manhã seguinte algum presente do Menino, que entraria pela chaminé.

Notas:
Arrocho – cacete.
Bivinda – Benvinda.
Jão – João.
Massa da perna – coxa.
Sobradinho – coro da igreja.
Valhé – Manuel.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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