A emigração tem muitas faces

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Aquela casa permaneceu fechada, por mais de quarenta anos. Quando é de novo aberta, já não pelo dono, esse há muito que morrera em França, e lá fora enterrado; já não pelos filhos que nunca mais regressaram à terra, mas por uma neta, casada com um francês, que um dia aqui chega à procura não se sabe bem do quê.

As histórias das casas das nossas aldeias - Maria Rosa Afonso - Capeia Arraiana

As histórias guardadas pelas pedras das casas das nossas aldeias

O que lhe terão dito das pessoas que habitaram a casa? Terá ouvido falar da avó, dos seus antepassados, da sua família? Terá ouvido histórias da terra, das festas, dos modos de vida, das tradições…? Se calhar, não sabe de nada. Não sabe das vidas que aí se viveram, dos sonhos que aí se tiveram, das crianças que aí nasceram e dos risos e das conversas que aí se ouviram – todos somos desconhecidos de nós mesmos, uns mais do que outros, claro, e por isso vamos à procura. E ela veio. Veio, porque o pai é daqui. Tinha ali nascido.

Olhar a cozinha, as panelas de ferro, os alguidares de barro, a cantareira… é observar um quadro tétrico, pelas marcas que o tempo deixa nas casas fechadas. Na sala, os móveis (quase nenhuns) e as poucas roupas a desfazerem-se na arca. Nos quartos interiores, onde só cabe uma cama, os colchões também a desfazerem-se, tal como as mantas. Sente-se um arrepio no corpo e uma dor na alma, mesmo para quem é estranho. Aliás, todos são estranhos, até a neta que está ali pela primeira vez. Impossível, fazer seja o que for; impossível, mexer seja no que for; impossível, ficar.

Mais uma vez a porta se fecha, não se sabe bem, até quando. Talvez, não se volte a abrir. Talvez, o telhado desabe e a chuva acabe por destruir tudo. Resistirão as paredes de pedra, por muito tempo mais, a falar de um passado que parece já não pertencer a ninguém. Quebraram-se laços, por razões e circunstâncias que não sabemos explicar; o rasto do que fica já não ultrapassa gerações e por isso o abandono não custa. Deixa-se ficar.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

One Response to A emigração tem muitas faces

  1. António Emídio diz:

    Este artigo, para mim só tem um nome – Chamamento – chamamento dos que já partiram, chamamento dos que trabalharam as nossas terras, chamamento dos que emigraram, esse chamamento está na nossa Alma !

    António Emídio

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