Novela na Raia – Episódio 5

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 5).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Franklim Costa Braga – Capeia Arraiana

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 5

Já escurecia quando chegaram a Quadrazais. À Fonte já se contava o facto do dia. O pânico instalava-se nos que pretendiam ir no dia seguinte.

– Então, estavam maus os carabeneiros?!
– Miguel, meu filho, a nós tudo chega! Meus ricos vinte mil réis!
– Deixe lá, mãe! Hei-de ganhá-los!
– Senta-te. Aquece-te. E essa tosse? Come o caldo.

O Miguel nem precisou de colher. Bebeu o caldo quentinho pela barranha. E deixou-se ficar ao lume mortiço de um toco, pensativo, a sonhar na próxima ida a Valverde e na maneira de recuperar os vinte mil réis.

No dia seguinte era a vez da irmã Lucinda, que nem aprendia a ler para ajudar em casa.

– E dinheiro?…

Tiveram que ir pedir adiantado à ti Marifêmia.

O Miguel pensou ir ao rebusco para recuperar os vinte mil réis. Que pena! Ainda era muito novo. Só tinha doze anos, longe de poder ir por dia. As castanhas já estariam geadas, mas sempre haveria algumas ainda boas. Pensou nos tartulhos e míscaros, que poderia vender a bom preço. Mas o tempo deles também já havia passado. Em Outubro, no tempo em que se guardavam as castanhas, atrás dum fieito aparecia sempre uma cacheina, ainda com o anel, ou um chapéu que já havia rompido o anel. Era p’o anel que via se o tartulho era bô ó não. Comeu muitas cacheinas chapéus assados sobre as brasas, sobre os quais deitava umas areias de sal. Apoi espremi-‘ós, deitando fora a água e eram uma delícia para ele e as irmãs. Quando eram muitos, a mãe frigi-‘ós na pela com cebola e uma pinga de azeite, Com umas batatas, eram uma boa ceia. Isto p’a no falar dos míscaros. Vendiam-se bem. Quando havia muitos, a mãe cozia alguns com arroz. Mas primeiro botava no taxo uma moeda de cinco tostões, que tinham por ser de prata. Se não ficasse negra, não havia veneno nos míscaros. E que boa era a arrozada de míscaros! Mas agora já nem um se encontrava. Os pinhais estavam todos revolvidos.

E era preciso ir à lenha para a noite de Natal lá na malhada do Alcambar. Que lindo Natal se avizinhava, sem nada para a ceia! Que rico Natal sem pai, sem pão, sem azeite!… Deixou-se dormir.

– Vai-te deitar, filho.

Obedeceu, porque a regra era seguir o relógio da natureza -deitar-se com o pôr do sol e levantar-se com o nascer do sol. Tal como as galinhas. O azeite e o pitrólio eram caros para ficar ao lume de candeia acesa. Já bastava ter de acender a alanterna para ir tratar do burro. Ademais não dizi’ó povo: deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer?

Embrulhado no cobejão, sonhou toda a noite em como em Lisboa e em Coimbra os patrões contrabandistas escapavam aos guardas, com grandes cargas de coisas valiosas, sem apanharem aqueles frios. Teria de tornar-se contrabandista a sério. Sentia-se rico, vestindo um bom fato, sapatos da melhor sola comprados numa loja, um belo cavalo bem arreado… Com a Palmira, também com belos vestidos, de cordão de ouro e arrecádias a seu lado…

Na manhã seguinte, um Domingo, o sol brilhava, embora estivesse frio. Comeu um naco do trigo que os carabineiros lhe haviam escavacado, mas que ele, à sucapa, quando o deixaram partir, conseguira meter no bolso da jaqueta. Tratou do burro e resolveu ir novamente a Espanha antes do Natal nos dois fins de semana que se aproximavam, isto é, no dia nove e no dia dezasseis, não tendo, pois, necessidade de faltar à escola.

Tal como projectado, o plano foi posto em prática. Trouxe as encomendas do costume e os produtos que a mãe precisava para casa. Felizmente, destas vezes não foi apanhado nem por carabineiros nem por fachos, embora os tenha visto. No dia dezasseis, depois de tantos trabalhos a subir a Marvana e a Marvaninha, saltaram-lhes os fachos já perto de Vale de Espinho.

Desta vez ele seguia entre os últimos da fila. Os primeiros foram apanhados, mas ele e mais alguns conseguiram esconder-se no mato e escapar pela esquerda. Bem os procuraram os guardas. Eles, rapazinhos novos, escorregavam que nem enguias pelo mato. Foram parar ao Alcambar, lugar bem conhecido do Miguel.

Eram dois os fachos da patrulha.

Um resolveu persegui-los pelo lado dos Fóios e o outro pelo lado do Alcambar. Para correrem melhor, deixaram o que haviam tirado ao rancho atrás dumas giestas. Os apanhados já tinham partido, chorosos. Eis senão quando, dando-se conta que os fachos haviam abandonado o local, um deles rastejou até lá, para não ser visto, e conseguiu dar com os objectos que lhes haviam sido tirados. Pegou nos seus e fez sinal aos outros para que viessem buscar os deles. E desapareceram com a tristeza transformada em alegria. Ainda viram, de longe, os fachos a procurar o que tinham apanhado. Devem ter ficado com uma cachola enorme.

O pior seria nos dias seguintes. Se os fachos os vissem, estavam feitos.

Lembraram-se do que o Mário Valente havia feito ao guarda Marques do Sabugal numa situação semelhante. Pediu aos apanhados, que recuperaram depois os seus carregos retirando-os das mãos do guarda, que refizessem um carrego com parte de cada um e o dessem ao guarda Marques. Assim aconteceu e todos ficaram a bem.

(– Como haveria de ser com eles?)

O Miguel chegou a casa sem mais sobressaltos.

Iria combinar com os habituais colegas de caminhada regressarem novamente no dia 21 a Valverde. Cinco dias seriam suficientes para os fachos acalmarem. E dessa vez viriam pelos lados do Barroco Branco, mais longe, mas já no terreno dos guardas de Malcata, que não sabiam o que tinha acontecido com os de Vale de Espinho. Nesse dia já teriam posto férias. Era necessário ter azeite para fazer as filhoses!

Aplicou-se nos estudos até pôr férias. Não queria perder mais um ano. No próximo mês de Junho teria de acabar a quarta classe para não perder mais tempo na escola.

Jogou uns momentos os seus jogos agora preferidos: o quem t’amontou, o sala-pimenta, o corcho e a raioila. Já não lhe dava prazer jogar ao aqui vai o lenço, lulu, rocanacó -arroma, choina e até mesmo ao pião. Já não precisava de romper os bolsos das calças onde guardava os piões e deixaria de ouvir os ralhos da mãe. Também deixaria de fazer a baraça do pião tecida numa carreta a que pregava quatro preguinhos.

Na antevéspera de partir novamente para Valverde, à tardinha foi baixar as calças atrás duns castanheiros ao Sant’ Antonho. Ao passar no Eiró, deparou com um espectáculo singular. Um som de guizos, que se sobrepunha ao dos rodados das carroças, elevava-se no ar. Eram os guizos dos machos dos ambulantes que vinham passar o Natal a casa. Os Bragas, os Soares, os Gordinhos, os Bedos, os Ginjos, os Réqués e muitos outros parece que tinham combinado o dia de regresso à terra. Natal e Sant’Ofêmia não se podiam perder.

Tinham saudades dos seus e traziam-lhes alguma prenda de Natal. Quem sabe se a prenda maior não seria ver no Verão seguinte, pela Sant’ofêmia, a família aumentada?!

Com o dinheiro que traziam, a economia de Quadrazais beneficiava. Comprariam trigos, queijos e choriçês, mandariam fazer fatos novos aos alfaiates e sapatos novos aos sapateiros, para além de comprarem algumas cabras e ovelhas que davam a cuidar aos pastores da terra. Mandariam ajuntar a folhada nas suas malhadas e, com enormes enxadões nas mãos dos assalariados, seriam arrancadas algumas carradas de cepas. Haveria gente que ganharia, senão para o Natal, pelo menos para o Ano Novo.

O Tó Frade também lhes compraria algumas caixas de balas, que estes adquiriam legalmente, e vendê-las-ia aos portadores de pistolas ilegais.

E também matariam o seu marrano, que comprariam já criado na vara do Tó Lórenço.

Com mais os ganhos dos contrabandistas, Quadrazais ia mexendo e sobrevivendo.

Bons presentes de Natal e Ano Novo!

Notas
Apoi -depois.
Arrecádias -arrecadas.
Barranha -tacho de barro.
Cacheinas -os tartulhos antes de abrirem.
Esborraçar -esmagar.
Marifêmia -Maria Eufêmia.
Pôr férias -entrar de férias.
Tartulhos -tortulhos, cogumelos.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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