Há dezoito anos num lar

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Por causa da doença do marido, quase paralisado, depois de um grave AVC, a exigir cuidados que, sozinha, em sua casa, não podia dar-lhe, tiveram de ir para o lar. A decisão de fecharem a porta e de deixarem tudo para trás, pareceu-lhes a mais acertada. Lá ficaram as batatas por tirar, o feijão por colher…, disso alguém haveria de tratar.

Lar de idosos - Capeia Arraiana

Lar de idosos

O lar ficava longe, sem possibilidades de voltar a casa, a não ser de táxi ou de transportes públicos; mas nem assim, só regressava, no verão, quando algum filho ou algum neto, em férias, a levavam lá. Quando o marido morreu, seis anos depois, acentuou-se o estado depressivo e pioraram as dores no corpo. Pensando que o seu fim não demoraria a chegar, embora, ainda, com alguma autonomia, deixou-se ficar; pouco a pouco, foi melhorando e já lá vão doze anos. Habituou-se à rotina, no seu pensamento, continuam as mesmas coisas: os filhos, os netos, o marido, a casa, a terra… Até agora, bastante lúcida e já com mais de noventa anos.

Obviamente que os lares são um ganho, no apoio social aos idosos que, sem retaguarda familiar ou com os filhos longe, encontram, aí, a ajuda de que precisam. Mas, não estamos preparados para ouvir relatar situações como esta, em que pessoas passam décadas da sua vida num lar – dizem-me que serão cada vez menos, porque, desde há algum tempo, começam por ser apoiadas em casa.

Quando vemos os apoios que a Segurança Social tem previstos – centros de dia, de noite, de convívio e de férias e lazer, acolhimento familiar, apoio domiciliário e estruturas residenciais (lares) – parece uma resposta abrangente, diferenciada e integrada nas comunidades, em parceria com diferentes instituições. Mas, como em todas as questões sociais, a realidade mostra a complexidade e a desigualdade das respostas e, em muitos sítios, a sua insuficiência. Ainda assim, importa salientar as diferentes possibilidades de acompanhamento, nomeadamente, a do apoio domiciliário que pode, se houver investimento nesse sentido, vir a dar respostas muito de acordo com as necessidades das pessoas – e isso, sim, seria muito relevante.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

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