Novela na Raia – Episódio 4

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 4).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Por Franklim Costa Braga

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 4

Os comércios e bodegas começavam a abrir as portas. O Miguel não podia mais com ambre. Foi à bodega ao lado da Ti Tomásia comer um churro, acompanhado duma copa de aguardente, como faziam os crescidos.

Conho! Parecia que o peito lhe rebentava. Sentia-se já um homem a beber ao lado daqueles tios espanhóis.

Da ti Tomásia à Concha e ao Saturnino, visitaram todos os comércios.

– Que muñeca, mire!

– E aquesta guitarra! Conche!

– Naranjas de sangre e carimbo!

– No quierem unas corchas?

– Una naranjada? Caramelos?

– Alpragatas, boinas, sandalias, velos e mantillas y sedas?

Tudo muito bonito! E o dinheiro tão pouco! Não era preciso falar bem espanhol. O que era preciso era gastar dinheiro. Aliás, o Valverdenho era parecido ao Português.

O Miguel fazia contas, aplicando o que aprendera na escola: um pão para casa, 2$00; dois pães para vender, 4$00; cinco litros de azeite, 15$00. Total= 21$00. Vinte e um mil réis!

Não podia ser. Já tinha gasto duas pesetas no churro e na copa da aguardente numa bodega. Não podia levar tudo. Mas, como? Onde cortar? E o caramelo para a Palmira?!

E a irmã sem sandálias… Ele sem uma boina e sem Ceregumil… E aquela malvada navalhinha que o fascinava…

Não, teriam de ficar para a próxima. A tosse era forte. Lembrou-se que tinha os pés encharcados e a jaqueta muito húmida. Foi sentar-se à braseira, a aquecer-se.

– Estás enfermo, muchacho? Toma lá una cucharrita de Ceregumil. Esto te dará fuerzas.

– Muchas gracias, tia! – A tosse abrandou. Boa pessoa, a ti Tomásia!

Teria de pedir dez tostões a alguém. Talvez o Romero, seu vizinho, lhe pudesse valer. Quem sabe se a Palmira não lhe poderia valer!

Não! Que ideia faria dele se, mal a conhecendo, lhe fosse pedir dinheiro?!

Não seria desta que levaria os dois quilos de pimentão que a ti Marifêmia lhe encomendara, mas que não pagara adiantado. Na próxima levaria mais azeite, pimentão e tripa, que as matanças estavam aí. Os colegas moviam-se numa azáfama de comércio em comércio. Tanta coisa bonita!

– Já compraste tudo, Miguel?

– Avio-me depressa.

Não precisava cansar-se mais. O lume estava a apetecer. Para quê? A ti Tomásia tinha tudo. E pediu o pão e o azeite. Nem precisava dos dez tostões do Romero. A ti Tomásia ia fiar.

Às duas da tarde, sem tocar a reunir, o rancho reagrupou-se, como se respeitasse um acordo implícito. Três horas para chegar a casa… Às cinco, ao cair da noite!…

Lembrou-se da mãe e das irmãs. Só havia uma côdea no caixote. Que iriam elas comer? Umas batatas com couves sem alinho! Nada mau! E ele? Pior ainda! Não poderia gastar dinheiro. Quando chegasse a casa comeria também um caldo. Ainda haveria umas castanhas para assar ou coser? Com uma copa de aguardente, como faziam os crescidos, seria uma ceia a valer.

Ei-los de regresso, agora de bico calado e apressados. É que os carabineiros, por vezes, lembravam-se de despejar o azeite e esborraçar o pão. Enfim, fazer pouco do trabalho e da miséria dos outros. Havia que passar longe da choça deles na serra, mas o diabo é que, às vezes, eles trocavam as voltas.

Começavam já a subir a barreira grande, em fila indiana. O Miguel ia no meio da fila, meio cambaleante. De repente saltam-lhes dois carabineiros. Em pânico, cada um fugia para seu lado.

– Parense!

De armas aperradas, a voz era imperativa. Os que estavam mais perto não ousaram mexer-se. Alguns já se haviam anichado nas urzes.

– Conho! Eram unos veinte y solo vemos cinco! Donde están los otros?

Ninguém respondeu.

– Donde? – gritaram os carabineiros?

Assustados até às entranhas, ninguém ousou denunciar os colegas que, de gatas, se afastavam serra acima.

Já um mais afoito, lá no alto, gritava, como a desafiar os bois: – Eh! Eh!

Com os carabineiros distraídos, mais dois se escaparam. O Miguel nem esboçou um gesto. Nem podia com o corpo.

– Para que quieres ese aceite?

– Para mi madre!

– Mentiroso! Lo quieres vender.

E Miguel via o seu rico azeite a escorrer serra abaixo.

– Y el pan?

– Para mi madre y mis hermanos!

– Como?! Tres panes?

E ali lhos escavacaram.

Que fome ele tinha! Bem quis deitar mão a um trancaço. Nem ousou, não fossem eles arrenagar-se e prendê-lo.

– Tira palante!

O Chico da Baré ainda rosnou um – ai! Jasus, que minha mãe mata-me!

Foi o bastante para levar uma coronhada nas costas.

Vá lá que nesse dia não estavam muito maus e não prenderam ninguém.

Já ao cimo da barreira, cansados e a chorar, lembraram-se do Poím, que havia sido morto ali no tempo da guerra civil, sem o deixarem socorrer.

Maldita sorte! Por que atacavam os carabineiros se o contrabando beneficiava os comerciantes espanhóis? O Miguel lembrou-se que o pursor Evaristo tinha dito que ontem tinha sido feriado porque nesse dia, há muitos anos, os portugueses tinham vencido os espanhóis numa batalha. Os carabineiros vingaram-se, estava certo.

Atacaram a barreira pequena. Iam já em pequenos grupos dispersos. Já tinham alcançado terra portuguesa. De repente ouviram-se uns gritos.

– Os fachos!

Dia mau! Agora eram os guardas-fiscais! E lá ficaram mais uns dez sem o magro contrabando. E outras tantas bocas à espera de matar a fome!… Negra vida! A revolta invadiu-os.

Que diabo de mal faziam eles?! Por que não haviam de poder ir sossegados a Valverde comprar o que Portugal não lhes oferecia e muito menos por aquele preço?!

O Sabugal só sabia cobrar a décima e outros impostos. Estradas… piores que o caminho para Valverde. A camionete da carreira atascava-se muitas vezes e era preciso irem umas juntas de vacas puxá-la. Fiar… nem pensar.

Valverde era terra de gente amiga. Não queriam ser espanhóis, mas não percebiam para quê tantos guardas. Meu Deus! Que fortunas gastas a pagar a todos eles só para que não trouxessem pão e azeite!

Lembraram-se do que se passara no tempo do cordão, que os pais lhes haviam contado. Tanta tropa para que a peste não viesse para Portugal nos carregos dos contrabandistas!…

E riram.

Notas
Alinho -tempero.
Ambre -fome.
Arrenagar-se -zangar-se.
Bodega -taberna.
Conho! -Caramba!
Corcha -colcha.
Cucharrita -colherita.
Décima -antigo imposto de dez por cento dos rendimentos.
Muñeca -boneca (castelhano).
Naranja -laranja (castelhano).
Tira palante -toca a andar.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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