Não vale comprimir realidades

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

No desnovelar da vida há muito mais quem a tome por enigmática do que quem a julgue entendível. Porém, o seu todo é realmente complexo e tenta-nos a ideia de que o problema poderá estar em simplificá-la. Eis, assim, a razão pela qual se abreviam conceitos para facilitar a sua interpretação.

A infância é a etapa mais feliz da vida

Ao longo das suas sucessivas etapas, a vida vai propondo visões distintas, consoante as vivências, conforme os viventes.
As infâncias são quase sempre mais felizes. Seguem-se-lhes juventudes onde o medrar dos sonhos nem sempre atinge concretizações. Em fases mais avançadas, a vida pode chegar a cansar ou, pior, pode principiar a perder valor. Se, no seu percurso, ela nos desencanta, experimentamos sensações de perda. Perde-se o propósito, o brilho, o sabor, o sentido e tudo nos pode parecer injusto.
Alheada de tudo, a vida segue veloz e inevitavelmente, tal qual o vento, impossível de imobilizar. E nós vamo-nos adaptando e justificando, dizendo que a aceitamos como ela é. Abafamos os quotidianos que nos podem incomodar e, mal damos conta, atingimos morosos estados de melancolia e tristeza.
Ora, apesar do mecanismo da vida, nós não somos máquinas. Somos, antes, existência e as realidades não devem ceder aos efeitos mais imediatos nem devem ser absolutizadas. Os elementos menores não precisam de atingir contornos supremos. As circunstâncias inóspitas não necessitam de governar soberanamente os efeitos das nossas vidas regulando-nos as ações, explicando as nossas razões, justificando os nossos sucessos ou insucessos.
Não há, de certo, redução que explique o todo da existência humana, a sua assaz criatividade, a sua capacidade de apreciar, de sentir. Há o intelecto, o pensamento e a consciência. Há o carácter e a personalidade. E há, para além disso, as cores, os sabores, os cheiros e as formas umas mais distintas, outras mais semelhantes que pintam e combinam todas as porções da vida.
Não vale, então, comprimir realidades. Vale, sim, expandi-las para que a vida abranja toda a sua complexidade e mantenha a sua essência apesar das inquietudes agregadas e da sua irremissível finitude.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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