Crónicas do Gervásio – a dívida e o rating

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Para o Gervásio, que nada entendia de economia, há muito que conhecia a dificuldade em obter dinheiro quando dele precisava e o não tinha. Há muito que conhecia os efeito de estar em boa/má conta perante quem podia emprestar. Afinal já naquela altura havia rating.

A dívida e o rating

O Gervásio tentava, como os restantes habitantes da sua aldeia, uma aldeia da Beira Alta, no que agora chamam interior profundo, viver do que produzia. As terras que cultivava, por norma produziam legumes, batatas e cereais para todo o ano e nalgumas situações ainda podia vender parte da produção. Isto quando o Gervásio já era dono das suas terras, pois quando as tomava de arrendamento a história era outra e será contada noutra altura.
Tempos houve, no dos pais do Gervásio, em que o dinheiro como instrumento para os negócios, praticamente não existia. As transacções comerciais eram feitas entre os produtos que cada um produzia e outro necessitava. Não era invulgar pagar ao médico com uma galinha nem ao farmacêutico com uma certa quantidade de feijão ou mesmo ao dono do boi cobridor, com um alqueire de centeio, se o resultado da cobrição viesse a ser um bezerro.
Quando o dinheiro começa a ser utilizado com mais frequência, fruto das necessidades e da evolução do comércio é natural que tenha havido um período largo para as pessoas se habituarem a usá-lo e o utilizarem com mais frequência.
Por isso, o Gervásio de vez enquando lá tinha que adquirir carne ou peixe para acompanhar os produtos que cultivava e enriquecer a sua alimentação e da sua família principalmente em momentos festivos.
Os recursos financeiros para Gervásio praticamente não existiam a não ser quando se vendia alguma coisa daquilo que se produzia. Mas não era tão invulgar como isso, nessa altura o dinheiro recebido servir para liquidar o que eventualmente tinha sido adiantado na mercearia, no fornecedor de fertilizantes, comprar alguma roupa, ou melhor, tecido para a fazer, o porco para engordar, etc.
Se quando não havia dinheiro era necessário tê-lo para alguma situação mais delicada, então recorria-se a alguém lá na terra, que o pudesse emprestar. Naquele tempo os bancos não eram coisa generalizada e para o Gervásio não eram concerteza coisas das suas relações.
Quando o Gervásio precisava pedir dinheiro, para socorrer uma urgência era a mulher dele que o ia pedir. Nunca percebi a razão por que era a mulher dele que tratava desse assunto, mas adivinho que um fundo de orgulho próprio impediam–no de ser ele a fazer isso.
Na aldeia existiam algumas pessoas, mais abastadas que podiam e por vezes emprestavam dinheiro em certas condições. Apesar do empréstimo, as duas partes entendiam o acto como sendo um favor de um ao outro.
Naquela altura, o rating do Gervásio era avaliado a todo o momento por quem lhe emprestava o dinheiro e traduzia-se mais ou menos no seguinte: Se nas vezes anteriores o Gervásio tinha pago o combinado a horas então emprestava senão, não, ou então estabelecia-se uma retribuição mais forte.
Naturalmente que o Gervásio pagava logo que podia até por que isso passava a fazer com que o seu rating melhorasse perante quem lhe podia emprestar, se bem que, o seu mundo se resumisse à terra onde vivia, ou na pior das situações às terras vizinhas.
Naquela altura não havia agências de rating. Mas aquilo a que agora chamamos o rating creio que existiu a partir do momento em que se criou a moeda com instrumento universal que permite comprar e vender todo o tipo de produtos.
O rating era e é uma classificação sobre a credibilidade económica dum produto, duma pessoa ou dum país. Traduz também e directamente associado a ele o risco que se corre quando se financia alguém. Naturalmente também e de novo em associação, a retribuição que se exige é mais ou menos volumosa em face desse rating.
Por tudo isso o Gervásio procurava ter um rating o mais alto possível, se é possível ter-se esse tipo de coisa, quando se pede dinheiro emprestado, para que quando precisasse, e pedisse, as probabilidades de ter uma recusa fossem menores. E ainda que esse empréstimo tivesse o menor custo possível.
Mais, o Gervásio procurava também quando podia, e ao longo do ano, melhorar o rating perante o financiador, trabalhando para este por vezes gratuitamente em alturas em que ele mais precisasse. Ficava bem na fotografia e o seu rating perante aquele subia.
E que dizer da renegociação da dívida que muitas vezes se fala? Bem isso era coisa que no tempo do Gervásio não existia. Quem por qualquer motivo não pagava uma dívida contraída, via o seu rating reduzido automaticamente a lixo do pior que se pode imaginar.
Não passava pela cabeça do Gervásio deixar de pagar uma dívida contraída no tempo combinado. E argumentar com a sua renegociação só com um rating muito bom alguém aceitaria renegociar. Mas deixar de pagá-la isso não.
E que diria o Gervásio se lhe dissessem que devia colocar ao financiador a possibilidade de lhe perdoar parte da dívida? Isso era mesmo coisa que nunca passou pela cabeça de nenhum dos dois intervenientes.
Se alguma vez essa situação se colocasse no tempo do Gervásio, e se concretizasse, mesmo com um acordo fingido entre as partes estou certo que o rating do Gervásio desceria para o nível de lixo mais baixo. E nessa situação o Gervásio teria grandes dificuldades em obter financiamento quando dele precisasse. É que, com uma semelhança com o que hoje sucede, na aldeia todos ficariam a saber o que tinha acontecido e o Gervásio passava ser rotulado em conformidade.
Por isso, não vejo como hoje alguém ainda que numa dimensão incomensuravelmente maior do que o mundo do Gervásio, fala em perdão de divida, renegociação da divida, etc.
O que acontecerá se isso alguma vez se verificar é o que aconteceria ao Gervásio. Nunca mais ninguém lhe emprestava dinheiro. Ou, no limite, se emprestasse, as condições seriam certamente muito gravosas para o destinatário. Naturalmente que nas relações entre países as situações não são iguais às do Gervásio, mas semelhanças não faltam.
Por isso, paguemos o que pedimos com o que formos produzindo. Mas deixar de cumprir obrigações nunca. E não argumentemos com o que os outros ganham ou ganharam com os nossos empréstimos. Façamos como o Gervásio que é a única posição decente a tomar.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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