Novela na Raia – Episódio 2

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 2).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Frequentando a Escola – Por Franklim Costa Braga

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 2

Fez um adeus ao arraial, como a despedir-se das boas recordações.

À Escaleira fizera das tripas coração para salvar o ribeiro das Vinhas, que bem conhecia na passagem pelo Vale d’Asna. Já levava os pés encharcados e enlameados. A subida da barreira do Mocho pareceu-lhe, nesse dia, a barreira grande da Marvana. Iria aguantar? Novo esforço e saltou o pontão do Rejais. E nova subida mais penosa se apresentava à sua frente.

Já ia amanhecendo. Já se distinguiam os rosmaninhos das urzes e da carqueja. Veio-lhe à lembrança o carvalho do último S. João. Tinha ajudado a ir buscá-lo à Portela. Não sabia de quem era o pinhal. Um rico caibro! O Padece deitara-lhe o malho e, zás! Caiu redondo que nem um pião. Foi só tirar-lhe as galhas e aí vai ele aos ombros, como um andor!

– Ah!, ladrões, que esse é do meu pinhal! – gritara-lhes o ti Nascemento, quando passavam à sua porta.
– Óh! Ná! Este veio de longe – responderam-lhe.

Foi uma azáfama à procura de cargas de rosmaninho para enfeitar o carvalho, transportadas sobre cangalhas em cima duma burra. Mas, lá que o carvalho do Cimo, empinado ali ao meio do Eiró, fazia ver aos do Fundo, da Praça, do Fole, Vale e Fonte, lá isso não havia dúvidas!

Na véspera do dia 24 de Junho, à noite, acenderam a fogueira e o carvalho, todo enfeitado pelas raparigas do bairro com uma boneca no alto, papel e bandeirinhas de diversas cores à volta do rosmaninho, que cobria por completo o tronco do carvalho, e todos dançaram cantando quadras alusivas a São João:

São João é lindo moço,
Ai! Se não fora tão gaiteiro!
Apanhou co’as moças todas,
Ai! Lá pr’à quelhe do Pateir
o.

Pediam, no íntimo, que lhes desse um bom namorado ou uma boa namorada.

Ele ainda não tinha pensado em ter uma namorada, mas pareceu-lhe que era tempo. Havia de escolher uma entre o rancho que fosse com ele a Valverde.

Os rapazes do Cimo faziam ver qual era o mais valente a saltar a fogueira ao lado do carvalho, querendo mostrar às raparigas que tinham neles homem.

– Saúde em mim, sarna no Fã!

Este, que não era do Cimo, mas namorava com a Ganita, não se fez esperar e vá de saltar a fogueira e clamar:
– Sarna em vós, saúde em nós!

As raparigas bem gostariam também de dar o seu salto sobre a fogueira. Mas estavam de saias… E se a saia levantasse e ficassem à mostra as roupas íntimas!… Lá teriam matéria para, no próximo Entrudo, os rapazes, com grandes funis de meter o vinho nas pipas a fazer de megafones, lhes deitarem matracas, pondo a nu tudo o que elas haviam feito de impróprio:
– Ah! marrana, que te vi o rabo!

O Miguel aguentou até às tantas. Não precisava de ir tomar banho à ribeira para tirar a sarna porque não a apanhara. Foi para casa e quis imitar os grandes que tinham namoradas a escrever o seu nome em folhas de figueira que deixavam ao luar, para ver se eles ou elas lhes queriam bem, se as folhas se mantivessem frescas, ou lhes queriam mal, se murchassem. Já era tarde para procurar folhas de figueira. Devia tê-las procurado antes de anoitecer.

A irmã Lucinda ainda era nova para fazer como as Ganitas, as Sonas, a Odete Baré, a Carmen Pepe, a Manana ou a Elisa do Liseu Januário, para partir um ovo dentro dum copo de vidro, dizendo:

Meia-noite está a dar
E este ovo estou a escarchar.
É para ver a sorte
Que Deus está para me dar.

Antes do nascer do sol iam ver que figura tomara o ovo no copo. Não tomando o ovo forma alguma, diziam que São João não lhes dera sorte.

Magicou por que chamariam carvalho ao pinho que ardia. – Talvez noutros tempos fosse um carvalho a arder em vez dum pinho! – pensou.

Já deitado, ouviu o barulho de um cântaro que se estatelava no chão. Lembrou-se então que os rapazes andavam a roubar vasos com cravos e outras flores para enfeitarem a Fonte. Iria ver a Fonte na manhã seguinte, antes que as donas dos vasos os começassem a levar para suas casas, mas nunca antes de passar a carreira, para que todos pudessem ver os enfeites.

Ainda lhe passara pela cabeça ir à Feira de S. Pedro para ver se alguém o queria para se assoldadar. Mas logo reconheceu que ainda não tinha idade para isso. Valia mais continuar a ir a Valverde. Era preciso dar temp’ó tempo!

Agora aqueles rosmaninhos estavam secos, não deitavam cheiro nem tinham flores. Apenas se ouvia, de vez em quando, um rasmalhar de passarinho assustado.

Já Vale de Espinho surgia à sua frente. Era preciso passar longe do posto, sem dar alvitre aos fachos.

Meteram-se por uma ruela e logo por um carreiro à roda dum quintal. Em breve se achariam no cimo da serra e desceriam a barreira pequena.

Um barulho rápido de coelho fugidio assustou o rancho, que só pensava nos fachos e nos carabineiros.

Ao baixo todos os santos ajudam -dizia o ditado. Chegavam à fontinha. A sede não era muita. O tempo estava frio e a chuva ameaçava cair. Talvez até nevasse! Teriam, então, ocasião de pronunciar a lenga-lenga:
– Está a chover, está a nevar e a raposa a lavar os cueirinhos p’ra amanhã se casar! –

Mesmo assim, num ritual, um a um ajoelharam e beberam de bruços. Aliviaram um pouco a canseira. Estavam agora na raia. Os carabineiros seriam agora a maior preocupação. De coração apertado desceram aos escorregões a barreira grande, arrastando juntamente com eles sargaços, rebolos e chinas. Um ou outro dava um chambote e aparecia um rasgãozito nas calças ou mesmo uma esfoladela no braço. Teriam de ouvir as mães:
– Este ladrão no sabe olhar p’ó chão! Anda co’a cabeça no ar. Mar de mim que tenho de passar a vida a remendar!

Eles teriam de ovir e calar, senão ainda levavam alguma laposa.

Notas:
Aguantar -aguentar.
Chambote -queda.
Fachos -guardas-fiscais (termo da Gíria).
Laposa -lambada.
Mar de -Mal de.
Ná, na -não.
Quelhe -quelha.
Rasmalhar -ramalhar.

(Continua.)

:: ::
«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

One Response to Novela na Raia – Episódio 2

  1. Lucas diz:

    Adoro esta novela. Parabens

Deixar uma resposta