Novela na Raia – Episódio 1

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

A minha intenção é sempre a mesma. Avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontram. Na «Novela na Raia» vou utilizar personagens reais da aldeia, tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. (Episódio 1).

Novela na Raia - Frequentando a Escola - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia – Primeira Parte – Frequentando a Escola

Primeira Parte – Frequentando a escola

Episódio 1

Seis horas da manhã do dia 2 de Dezembro de 1949. Era um Sábado. Pela gateira da porta, que um rebolo não impedia que o frio entrasse, embora o mitigasse, ainda não chegavam sinais do amanhecer. Fugidio, um raio froixo enganara há pouco os que lá dentro dormiam. Seria alguma alma penada que se passeava e levou o Miguel a meter a cabeça debaixo do cobejão frio, com uma ou outra pragana teimosa que ficara das últimas malhas e que resistira à lavagem na ribeira, torturando o corpo do pequeno?

Cruzes, canhotos! O Miguel bem fazia passar o polegar por entre o indicador e o dedo grande, fazendo uma figa para afugentar as bruxas.

– Seria o lobesome? – Escutou.
Era ele, sem dúvida.

Aquele troar de tamancos ferrados ferindo as pedras da calçada… Aquela luz eram chispas dos tamancos. Mas não ia só, o lobesome. Certamente que aquele gralhar era da Garruça das Putas que ele apedrejava junto do cemitério quando guardava os castanheiros na Burraca.

– Garruça das Putas, salta cá p’aqui! – gritava-lhe.
Aí vinha ela agora a ajustar contas.

Que havia de fazer? Que lhe ensinara a Salomé na doutrina para estes casos?!… Mal se lembrava.

Raios partam! Por que ia tão pouco à dótrinê?! E agora, como se ia livrar dela?! Concluiu que teria de ir mais vezes à dótrinê. Em todo o caso, rezou um padre-nosso e persignou-se. Iria estar caladinho na missa da festa da Sant’Ofêmia, se o livrasse deste apuro. Ainda esteve para chamar a mãe. Certo brio impediu-o. Afinal, não era já um homem?! Quem governava a casa desde que o pai fora desta para melhor com uma pneumonia.

Não! Tinha que se encher de coragem e dar com o rebolo na cabeça da Garruça das Putas. Quanto ao lobesome… Ah! Lá estava a aguilhada no telhado, que o pai ainda preparara para a tourada. Tinha que subir ao telhado e picá-lo bem picado. Havia de dar urros e espumar como os bois da corrida da última Sant’Ofêmia.

– Quem seria este mald’çoado lobesome?

Falava-se do Próprio. Seria ele? Fosse quem fosse, havia de ficar a escorrer sangue.

O rumor aumentava e descia a calçada. Uma carcalhada soou-lhe aos ovidos como uma pedrada. Aí vinha ela!

Até o irmão Nacleto, que substituira o outro Nacleto, que o diabo do burro matara, ao fazer disparara espingarda presa num galho, no Alcambar, deitando-a ao chão, que mal sabia indicar com a mãozita sobre a cabeça à pergunta habitual: por onde passou o ano?, acordou sobressaltado e começou a choramingar. E logo a mãe pressurosa o tentou adormecer de novo com o ó… ó…, morreu tua avó, deu-lhe a caganeira, caiu p’á rebeirê!

– Miguel! – ouviu-se de repente.
– Qu’é, mãe?
– Atão, tu no ouves o rancho que já vai a caminho da Espanha? Depressa, ladrão, senão já não os apanhas.

Mal tinha acabado de falar, quando de fora se ouviu:
– Miguel, ó Miguel, estás pronto? Vamos embora!
Era o Romero e o Pepe que cumpriam o combinado na véspera, dia feriado, em que brincaram quanto quiseram: ir a Valverde nesse Sábado, para não faltarem à escola.

De saca ao ombro, vardisca na mão a imitar a bengala dos mais velhos, estavam prontos para a caminhada habitual.

À pressa, para não dar a entender que se deixara dormir, o Miguel deitou duas chapadas de água nos olhos, vestiu as calças e a jaqueta, calçou as sandálias sem caturnos e, entreabrindo a porta, depois de levantar a aldrava:
– Estou pronto!

Foi então que se dirigiu à cantareira e tirou debaixo da malga os vinte escudos com que se abasteceria em Valverde. Quis comer. Na panela ao lume não havia nada. Abriu o caixote do pão. Restava uma côdea e um migalho de queijo. Ia deitar-lhe a mão. Instintivamente, parou, ao lembrar-se que a mãe e os irmãos ficavam sem nada à espera que, à noite, ele trouxesse um pão espanhol. A guerra tinha acabado há quatro anos mas os efeitos ainda se faziam sentir na escassez de certos produtos, como o azeite. A pobreza era geral.

Logo comeria um churro em Valverde! Um copo de água já dava para desinjuar.

Já se impacientavam os colegas lá fora, depois de gabarem as alpragatas que calçavam e que seriam o furor para uma carreira em competição. Desataram a correr rua abaixo. Ao Vale tiveram que dar uns pulos para não meter os pés nos charcos. Chovera toda a noite. Foi só ao São Sebastião que alcançaram o rancho, que engrossara com outros vindos do Fundo. Ao todo eram uns quinze ou vinte. Pareciam um bando de lobos esfaimados que corriam, farejando a presa.

Mas, já o Miguel se atrasava com as calças a caírem. Tirou o baraço da saca e passou-o pela cintura. Estavam em frente da escola. Não tiveram aulas na véspera. Mesmo assim, desviou-se para o lado oposto, como para evitar que o professor o visse e, mais uma vez, lhe perguntasse por que faltara à escola. Nem saberia já que responder, de tantas vezes haver dito que estivera doente, para logo o Liseu o desmentir com um: «Nada, não, Sô Purçor. Inda onte à tarde estivemos a jogar o pião!»

Relançara-lhe um olhar ao mesmo tempo de raiva e suplicante. Não percebera que tinha ido a Valverde?!

O Paposeco ainda dormia. À direita era a vinha do Maregas. Teve ganas de ir lá baixar as calças. Ao menos agora o Maregas não o viria correr com pragas. Só à Regueiras olhou tranquilamente o céu. Uma, duas, três estrelinhas marotas tremelicavam lá no alto, logo encobertas por nuvens negras.

Teremos trovoada? Ó diabo! Desta é que a jaqueta se iria desfazer.

Em frente, a Malhadinha atemorizava-os com o negrume dos pinhais. Passou logo aos lobos. Poucos meses antes tinham ali matado quarenta ovelhas ao Cometa.

Foi bem feito, João de Coixo! Foste meter-te em casa com a Joja e a burra e não guardaste o gado!

Encostou-se ao Romero.
– Que tens? Vais tão calado!

Só então se deu conta que todos riam e cabriolavam. Ainda era zona sem perigo. Podiam saltar os fachos, que não levariam nada. Deu dois pequenos saltos para mostrar que estava contente. Mas logo parou e começou a tossir.
Maldita tosse, que o não largara toda a noite!

A mãe bem lhe gritava:
– Queres chá, filho?

Que montava dizer que queria se não havia açúcar em casa?! Beber a maciela que a mãe apanhara no Verão sem açúcar, isso é que nunca.

– Na, senhora, mãe. Isto já passa.

Havia três noites que não passava. E, uns suores… Pensou que fosse da muita roupa na cama. Mas, bem visto, só tinha um cobejão velho em cima.

Ficara para trás ao Meal Cabo e os outros já subiam a Malhada Vaca. Benzeu-se ao passar pelo cruzeiro. A ribeira ressoava lá em baixo em cascatas. Ia ser bonito para a passar!… Certamente que algumas poldres tinham sido levadas pelas enxurradas. Se já na romaria do Esprito Santo caíra ao charco por não ter conseguido salvar uma poldre caída… Estava calor. Até apeteceu. Mas agora, ai Jasus! Até sentia arrepios só de pensar nisso.

Ah! Nesse dia não iriam pelo Alcambar. Desta vez não iria poder atirar uma china à água e fazer putas por cima da ribeira.

A capela do Espírito Santo lá estava solitária, no meio do arraial, com a alpendrada pronta a abrigar pastores e passantes. Ainda havia alguns enfeites enrolados ao cruzeiro, que ficaram da festa. Ele tinha ido a todas as romarias que precediam a festa, desde a primeira no dia de Páscoa, e também foi à festa. Assistira à missa campal no arraial, cheirara as amêndoas nos tabuleiros das vendedoras, comeu um naco de pão com farrenheiro ao almoço, bebeu água da ribeira, fazendo das mãos tijela e, de tarde, assistiu às corridas dos cavalos novos, que seus donos experimentavam. Não arredara pé enquanto a festa não acabou. Viu o Zé Simão da ti Mília labardear, enquanto o tambor tocava e se passeavam com a cruz e o arco enfeitados. Havia outra labarda mais pequena que alguns rapazotes ensaiavam de rodar. Tivera ganas de pegar nela e mostrar que já era capaz de coisas próprias dos grandes. Não era fácil. Com a grande poucos se estreviam. A pequena que esperasse por ele para o próximo ano.

Ainda teve tempo de ver a chegada do rancho que regressava da Srª da Poba, cantando e tocando adufes e pandaretas e eles com a pagela da santa na aba do chapéu. Estes tinham ido de cavalo e, por isso, chegaram mais cedo que uma boa parte que havia ido em carros de bois, a pé ou de burro. E cantavam esta e outras cantigas com a música da Srª da Poba:

Ó Divino Esprito Santo,
Lá ‘stais na vossa Lameirê.
Deitai lá a pombinha fora,
Que venha beber à ribeirê!

Dançaram no arraial até que os últimos raios do sol pareciam querer sumir-se. Regressaram todos à aldeia, passando pelo enfeitado cruzeiro do Robleiro, onde o padre fez umas rezas e seguiram todos até à igreja, para rezar o terço, sempre com a cruz, o arco, o tambor e as labardas à frente. Continuaram a labardear à Praça.

Notas
Alpragatas -alpargatas.
Carcalhada -gargalhada.
Caturnos -meias de homem em algodão, feitas à mão.
Cobejão -cobrejão.
Desinjuar -desjejuar.
Dótrinê -doutrina, catequese.
Estrever-se -ser capaz.
Farrenheiro -farinheira.
Garruça das Putas -duende que habitava o cemitério.
Janjo -Maria dos Anjos.
Joja -Rosa, Maria Rosa.
Labarda -alabarda.
Labardear -fazer rodar a alabarda.
Liseu -Eliseu.
Lobesome -lobisomem.
Maciela -macela.
Mald’çoado -amaldiçoado.
Míliê -Emília.
Nacleto -Anacleto
Ovidos -ouvidos
Pandareta -pandeireta
Poldres -poldras
Poba -Nossa Senhora da Póvoa, em Vale de Lobos.
Purçor -Professor.
Salvar -saltar.
Vardisca -vara flexível.

(Continua.)

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

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