Histórias de médicos… invulgares

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Tarde de fins de maio, com um ambiente natural calorento, nuvens como castelos a ameaçar pequenas trovoadas, o para-raios atento, vento ainda suave a invadir os nossos espaços físicos e psicológicos. Sentado a uma comprida mesa, cercado de livros de diversas temáticas, afastado das teclas do computador, olho a cúpula de uma capela, o campanário arquitectado e indicador de Serviço em Missão.

Um médico ouve uma história e acrescenta outra

Os melros atarefados conduzem alimento para os seus filhotes nos ninhos escondidos em arbustos e roseiras entrelaçadas e em pequenos pinheiros escandinavos.
O tractor carregado de favas, que mãos carinhosas semearam e colheram para que as Pessoas Assistidas se deliciem com tão boa ementa gastronómica. Sem vinho, bebida proibida para doentes com medicação.
Cerca, há plantações de amores perfeitos de diversas cores, a lembrar o arco-íris, lindos, não me canso de os admirar.
Nas minhas costas, o grande depósito de abastecimento de água à casa, tão cristalina, talvez melhor que alguma engarrafada. Perto, o Campo de Futebol, onde muitas camadas jovens jogam e os pais assistem. Muitas vezes a não ter cuidado com a linguagem, a puxar pelos seus futebolistas. Querem-nos estrelas, com um corpo frágil e em crescimento, é a cultura geral de progenitores sem psicologia. Não esqueço as palavras do meu Irmão Ezequiel Fernandes, quando voluntariamente treinava jovens difíceis no Bairro das Figueiras em Setúbal ou nas férias no Fundão: “todos queremos ganhar, mas é mais importante saber perder. Um jogo de futebol tem três resultados possíveis: vitória, empate ou derrota. Temos que estar à altura dos três.”
Com estes pensamentos na mente, chega-me um ex-companheiro da Escola Apostólica de Cristo Rei em Gouveia.
A longa conversa abordou fé, religiosidade, justiça, e desembocou inevitavelmente em doenças e em médicos.
Diz-me que na sua aldeia perto de Seia, nas encostas da Serra da Estrela, vivia uma família muito pobre e com agregado familiar numeroso. No seio dessa família destacava-se um jovem muito inteligente, e a população apelava aos pais para o deixarem ir estudar. Mas como? Eram tantas as carências económicas e a terra dava os mínimos de sustentabilidade.
Uma conterrânea, a residir em Coimbra, sempre a mão maternal, assumiu o compromisso de o levar para Coimbra, a fim de frequentar os estudos liceais e se possível os universitários.
Antes de a sua mãe protectora falecer, obteve com boa classificação o Curso de Medicina, e ficou uns tempos na cidade coimbrã a exercer a sua profissão de médico. Como tinha as raízes em ambiente rural e pobre, resolveu ir para as proximidades de Seia. Aos clientes pobres, lembrando-se das vivências da sua pobreza, não cobrava honorários. O Povo simples, passados uns anos, cognominava-o de “médico santo”. Perto, o Padre Miguel do Soito (Sabugal) também era considerado santo por tratar de almas fragilizadas.
Um doente, já cansado de percorrer diversos especialistas em Coimbra e nenhum achar a génese das dores de cabeça diárias, ouviu um amigo: “oh homem, tens o teu conterrâneo médico na tua terra, porque não vais lá?”
Seguiu o conselho amigo e marcou consulta. O médico ouviu-o, olhou-o intensamente, observou-lhe o cabelo mais branco que a neve, contrastando com um grande bigode muito preto. Prescreveu-lhe a receita com firmeza: “conterrâneo, tens de ir cortar o bigode, vai-me cortar esse bigode.” O doente ficou a cismar e incrédulo com estranha receita, mas ordens de médico são piores que as dos militares, e lá foi cortar o dito bigode. Ao outro dia, já não tinha dores de cabeça. Voltou à terra natal para agradecer tão benéfica receita, e quis saber o porquê de tão rápida cura. O médico disse-lhe: “para teres o bigode com aquela escuridão e o cabelo branco, andavas a pintá-lo com produtos químicos que inalavas, o que era causador das dores de cabeça. Bigode à vida, cabeça no lugar”.
Ao despedir-se do seu salvador, disse: “não me irei esquecer de si”. Uns tempos antes de morrer, sem família, fez um testamento em que doava as suas terras e casa ao médico seu conterrâneo. Este só soube desta atitude quando um dia foi notificado pelas Finanças como dono daquelas propriedades.
É um acontecimento real, não tem nada de fictício, não tem uma única palavra com cheiro a ficção.
Um médico ouve a história e acrescenta logo outra. Um doente andava com dores na barriga, dizia que subiam e desciam, sem saber também as suas origens, mas causavam-lhe dores e incómodo. O médico informou-o que tinha flatulência. O doente, sem perceber o diagnóstico, pediu esclarecimentos. O médico olhou-o de alto e abaixo e verificou que o seu cliente estava com dificuldades no entendimento. Teve de utilizar o vernáculo português: “oh homem, tem peidos que querem sair e não encontram a porta. Andam à procura de duas saídas, a da boca é difícil, a mais correcta, fácil e natural é a do cu”.
No dia seguinte tinha o cliente à porta feliz: “o senhor doutor tinha razão, saíram pelo buraco mais fácil e mais à mão, estou aliviado, já não sobem nem descem”.
Um outro doente, endinheirado que já tinha frequentado várias clínicas no estrangeiro, queixava-se de um sinal saliente que lhe aparecera no meio da testa. Todos lhe deram a mesma receita: “só passa se ler todos os dias”
Regressou a Portugal, desconfiado de tal receita, e dirigiu-se a um médico especialista que lhe disse o mesmo: ”ler, ler, ler muito”.
O utente quis perceber tão estanho medicamento e o médico esclareceu-o: “o dia que deixar de ler, pode crescer-lhe um par de “cornitos”, às vezes descem arqueados e tapam os olhos. A partir daí não há mais leitura. Fiz-me entender?” O doente compreendeu.
:: ::
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

One Response to Histórias de médicos… invulgares

  1. António José Alcada diz:

    Grande texto meu irmão escuteiro abraço fraterno

Deixar uma resposta