Novela na Raia – Prefácio

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

No Verão passado o Augusto Simão, que tem acompanhado os meus artigos aqui no Capeia Arraiana, apreciando-os, lançou-me um repto em Quadrazais: «Por que não escreves um romance sobre Quadrazais. Tu é que és a pessoa indicada para o fazer.» Não estando á espera dum repto desses, fiquei sem saber o que responder, senão um «Talvez!» sem convicção. A ideia ficou cá no fundo da memória, sem grande probabilidade de a trazer ao de cima.

Novela na Raia - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Novela na Raia, por Franklim Costa Braga

Eis senão quando, ao remexer os meus papéis adormecidos na parte de baixo da estante, procurando fotografias e outros testemunhos das minhas viagens de globetrotter nos anos 60, deparo com um caderno e umas folhas soltas com escritos, de cuja existência já não me lembrava e que, verdadeiramente, já não sei quando os escrevi. Folheei algumas páginas e verifiquei que, afinal, já tinha pensado em fazer um romance sobre Quadrazais. Será uma novela e não um romance. Chamo-lhe novela e não romance porque o romance deveria ser mais longo, com frequentes descrições das emoções e estado de espírito das personagens. À novela interessa sobretudo a história do enredo, que deve ser narrada sem grandes interrupções. É o que apresento aqui. A vida do dia-a-dia de Quadrazais e suas gentes nos anos quarenta a sessenta. Será regionalista, a imitar o mestre Aquilino Ribeiro, também ele da Beira Alta, das terras do demo, parecidas às da Guarda farta, fraca, fria e feia. A imitar, porque não possuo o talento desse mestre. O título pode fazer lembrar Camilo Castelo Branco, com suas Novelas do Minho. Mas só faz lembrar, porquanto não pretendo comparar-me ao seu talento novelístico.

Quando escrevi essas páginas não pensava publicá-las, nem imitar os citados mestres. Fi-lo, certamente, em dia em que estava só e serviu de refúgio à minha solidão.

Com o repto que me foi lançado, avivou-se o que estava no imo da memória e veio-me à mente que poderia aceitar o repto, já que havia algo já feito. Com esta oportunidade que me foi concedida pela direcção do jornal Capeia Arraiana de poder publicar os meus escritos, foi o dois em um – publicar o que havia escrito e acabar a minha novela.

A obra literária pode ter como finalidade a literatura pela literatura, isto é, o belo pelo belo. Equivale a dizer que se pretende dizer algo de uma maneira agradável, quando se poderia dizer o mesmo de várias maneiras. Mas a literatura pode ter fins sociais ou outros. O que se denomina de literatura empenhada. É a literatura dos neo-realistas que apresentam quadros de desigualdade social para que os leitores sejam contra essas desigualdades. Outras poderão ainda ser os intentos das obras literárias.

A minha intenção é sempre a mesma nos muitos escritos que já publiquei em Capeia Arraiana, em livros e noutros jornais e revistas: avivar a memória da cultura de Quadrazais para que não se perca, sobretudo entre os jovens que não nasceram ou não cresceram em Quadrazais, tendo ouvido apenas dos pais e avós algumas histórias e cenas da vida quotidiana da terra onde haviam nascido, tão longe do local onde agora se encontravam. Para tal, eu vou utilizar personagens reais da aldeia e tentarei descrever quadros da aldeia e narrar os factos do dia-a-dia, embora não obrigatoriamente protagonizados por estas personagens. Espero não melindrar ninguém, sobretudo ao falar da miséria por que passaram e que, em geral, não gostam que se diga que eles passaram por tal situação. Mas, repito, isto não é o relato de factos históricos, mas sim ficção, embora utilize personagens reais e, quando os factos são reais, não significa que foram praticados por estas personagens.

O enredo começará in primas res, seguindo o curso normal, até terminar in ultimas res.

O narrador usará o Português corrente, embora com alguns termos regionais. As personagens usarão a linguagem da aldeia, o Português de Riba-Côa com termos e pronúncia que se afastam do Português padrão corrente. Usarão o Português deturpado falado em Quadrazais, bem como alguns termos da Gíria quadrazenha porque também ela faz parte da cultura de Quadrazais e merece ser preservada. Surgirão também palavras castelhanas correntes em Quadrazais, não fossem os quadrazenhos frequentadores das terras espanholas da Raia e não tivesse eu feito um artigo sobre os termos castelhanos usados em Quadrazais e na Raia.

Espero que revivam neste trabalho a infância com os usos e costumes de há sessenta ou mais anos.

O título – Novela na Raia – surgiu porque tudo se passa numa aldeia da Raia – Quadrazais – ou na vizinhança.
Apresentarei em notas os termos não correntes com seu significado em cada texto publicado, embora tencione publicar no fim um glossário das palavras usadas.

Notas:
In primas res -começar.
In primas res significa que a história começa no início da vida da acção, continua e acaba no fim da acção (últimas res). Lembrem-se de Os Lusíadas, que começam in medias res, isto é, no meio da acção: Já no largo oceano navegavam, as inquietas ondas apartando… Só mais tarde diz como saíram de Lisboa (primas res).

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«Novela na Raia», por Franklim Costa Braga

4 Responses to Novela na Raia – Prefácio

  1. Augusto simão salada diz:

    Estou ansioso por descobrir NOVELA NA RAIA, Abraço.

  2. José Antunes Fino diz:

    Louvo a tarefa do escritor Franklim Costa Braga que, na esteira de outros ilustres escritores de Quadrazais, como Nuno de Montemor e Pinharanda Gomes, eternizaram a memória dos antepassados desta terra de gente nobre e honrada que, apesar das adversidades de toda a ordem, ousaram sobreviver e souberam vencer….para quando a edição?

    • Franklim Braga diz:

      Caro leitor, que não tenho a honra de conhecer pessoalmenrte, a novela sairá em capítulos todas as Sextas-Feiras em Capeia Arraiana. Obrigado pelas palavras que me dedicou.
      Franklim Braga

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