Janela «Indiscreta»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Não se trata do famoso filme de Alfred Hitchcock imortalizado pela fotografia notável de Robert Burks e da personagem principal, também ele fotógrafo, mas com uma perna partida obrigando-o a ver a estória passar. Trata-se de sim de uma paisagem outrora mais verdejante e povoada. A crónica de hoje também «nasce» de uma fotografia. De terras onde se sentia a respiração de quem trabalhava no campo, da comida e bebida pura como a natureza as fez e do verde vivo desses campos cultivados.

Janela Indiscreta de Alfred Hitchcook - Capeia Arraiana

Filme «Janela Indiscreta» do realizador Alfred Hitchcook

Vejo esta paisagem desde pequeno. Alias quando «dobrava» a Gardunha a caminho da Covilhã a minha vista cegava com o verdejante da Cova da Beira. Normalmente vinha na Páscoa, quando a temperatura e o sol ajudavam a colorir as encostas e os campos de todo este vale que era escoltado pela Gardunha e a Estrela.

Era impossível ficar indiferente. Adorava abrir a janela do carro e cheirar o pólen de tanta cor. E a comida que me esperava tinha um sabor único, não só porque era feita no forno de lenha, como era temperada apenas com sal e azeite. Sem dúvida que foram tempos que me marcaram, com bom e mau, mas que em alguns aspetos me deixam muita saudade.

Ao olhar atentamente para foto, tirada da minha janela, neste mesmo dia em que escrevo esta crónica, noto que o verde já não é tão verde, mas que há muito mais casas e luz elétrica que outrora. Aliás, nesses tempos, apenas sobressaia Caria e Peraboa que, como farol, quase que encaixavam o branco da luz elétrica de então com as estrelas do horizonte. Todo o vale era escuro como breu nas noites de lua nova.

A minha janela indiscreta - António José Alçada - Capeia Arraiana

A minha janela indiscreta

É certo que as alterações climáticas justificam que o verde já não é tão forte, porque a agua já não cai como antes. Mas o que é preocupante, ou indiscreto, é que apesar de tanta casa nova, de novas infraestruturas, como estradas ou comunicações, o facto, a realidade, é que temos menos gente. E o que efetivamente custa é que mesmo com tanto esforço, de tanta gente, seja da politica, ou de outras instituições sociais, culturais, estaduais ou municipais, para manter pessoas alocadas neste vale, ou nesta Beira escondida, tem-se sentido o amargo da desilusão porque sem duvida a realidade «choca» com os números de nascimentos ou até de criação de novos empregos, sustentáveis e não precários.

Não tenho intenção de tecer um manifesto político ou de criticar todo o esforço que, um pouco por todo lado, tem sido feito para que isto não aconteça. Mas então qual o motivo? Porquê, se tudo parecia perfeito?

A minha leitura obviamente passa pela globalização, melhoria da circulação de pessoas, produtos estrangeiros que rapidamente penetram no nosso mercado e, provavelmente, a periferia portuguesa no contexto europeu condicionando a nossa competividade. Quem esteve no centro da Europa, por exemplo Áustria, Alemanha ou Hungria, apercebe-se que as capitais estão muito perto, poucas horas ou mesmo minutos nalguns casos.

A questão da periferia curiosamente está consagrada no Estado Português, nomeadamente nas Regiões Autónomas Insulares, sendo estas no contexto europeu territórios ultra periféricos. E ainda bem que é assim! Todos reconhecemos as vantagens, e desvantagens, mas as populações nitidamente beneficiam com a autonomia. Acima de tudo as decisões nacionais, muitas das vezes focadas no litoral, acabam por não afetar a realidade social e cultural dos territórios insulares.

E tem sido essa a minha dúvida desde que vim para a Cova da Beira. O Interior português não será um território periférico sujeito a um processo de coesão semelhante aos países periféricos do espaço europeu? Ou então um território com problemas estruturais muito parecidos com os das ilhas?

Concerteza que haverão outras opiniões provavelmente mais fundamentadas que este meu «desabafo» e talvez soluções mais ajustadas à atual realidade do país. Mas julgo que quem vive nestes territórios sente um pouco esta nostalgia de que um dia já não tem um vizinho para conversar. E eu, aqui desta minha janela «indiscreta», espero que no meio de tantas casas e luzes, haja mais vida e que este espetro de um deserto humano seja definitivamente afastado.

Seria muito triste para todos nós que um dia, acredito que num futuro longínquo como um filme de ficção científica, seja um computador que controle remotamente a subida e descida da bandeira nacional. Remotamente porque já não há ninguém aqui disponível para o fazer.

Covilhã, 12 de maio de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Janela «Indiscreta»

  1. Antonio Alves Fernandes diz:

    Maravilhoso Texto…Parabéns, Irmão Escuteiro António Alçada.

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