A não-violência

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

O ataque organizado do grupo de indivíduos, encapuzados, que entrou na academia do Sporting em Alcochete e agrediu jogadores, equipa técnica e pessoal do centro de treinos, quase, parece impossível de acontecer. Quem não segue os meandros do futebol e das claques, não esperaria uma coisa assim.

Ultras da Juventude Leonina atacaram jogadores e equipa técnica na Academia do Sporting em Alcochete - Capeia Arraiana

Ultras da Juventude Leonina atacaram jogadores e equipa técnica na Academia do Sporting em Alcochete

Toda a gente reagiu, incluindo quem nos governa e quem representa o Estado, de forma veemente, considerando inaceitável qualquer tipo de violência no campo desportivo. As notícias (descontando o exagero dos diretos), de um modo geral, enquadraram o incidente no âmbito do que devem ser as relações entre as pessoas, num estado de direito, em que não pode haver impunidade para quem comete crimes, como os ocorridos.

A dimensão mediática e o debate público aumentaram a consciência de que é preciso fazer alguma coisa. Espero que não apenas no futebol, pois, há uma violência generalizada que faz caminho, nas famílias, nas escolas, nos ambientes recreativos, nos locais de trabalho…, indo da mais subtil chantagem psicológica à mais declarada agressão física.

Não há justificação para atos violentos, mesmo que se apontem razões sociais e psicológicas ou desgraças e frustrações quotidianas, no entanto, ela acontece e não podemos deixar de nos questionar. Há uma causa profunda que reside na nossa própria natureza: a violência está em nós; precisamos de nos precaver, a cada momento, contra os ataques de raiva, de ódio, de fúria…, que todos temos. Isso implica adquirir e desenvolver valores e atitudes não-violentas, de respeito e de tolerância, que não se improvisam, aprendem-se e praticam-se, desde cedo, em todos os contextos sociais.

Se continuarmos na lógica – «Se te baterem, bate também» –, não sairemos desta cultura tácita de que só levantando a mão ou a voz sobreviveremos. Também, como se verá, não chega denunciar, fazer leis novas ou criar Altas Autoridades que vigiem de fora o fenómeno; é preciso que a não-violência se torne um valor humano da formação e da vida das pessoas.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

One Response to A não-violência

  1. António Emídio diz:

    Violência sempre houve, desde a violência política dos Estados ditatoriais e não só, até à violência gratuita dos marginais, passando pela violência normal de um qualquer cidadão quando as coisas se proporcionam. O que os Estados democráticos já permitiram foi a Barbárie dos marginais dentro das suas próprias sociedades, a fotografia que ilustra o seu artigo é bem demonstrativa disso.

    António Emídio

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