Homenagem a outro símbolo da Raia – o(a) Burro(a)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Quantas alegrias deste à garotada por uma cavalada! Se acompanhávamos os pais ou só a mãe para um prédio mais longe, como o Covão, tinhas de carregar com os 4 ou, pelo menos, com 3, um sobre o teu pescoço e o último quase a cair do rabicho. Eras o meio de transporte de pessoas e materiais. Eras tu que carregavas com as andilhas com 4 cântaros cheios de água que daria de beber aos donos ou serviriam para fragar a casa. Mas também com as cangalhas, quando era preciso carregar esterco, palha ou lenha. Também te punham os alforges para ires ao mercado e vires de lá carregado de coisas que alegrariam a criançada e abasteceriam a casa. Melancia, melão, cerejas, frutas diversas, cebolas, feijões, pífaros de barro, e sei lá que mais! Alguns até te arranjavam um carrito ou carroça para transportares mais coisas. Coitado de ti! Confundiam-te com uma vaca ou um macho.

Burros com albardas e alforges - Capeia Arraiana

Burros com albardas e alforges (Foto: D.R.)

Nas aldeias, não raras vezes substituíste o cavalo, animal mais nobre porque também mais caro! Mas, para dares mais lucro ao dono, montavam-te um cavalo para criares uma mula ou macho, mais forte para trabalhos pesados. Coitados! O Criador deu-lhes o castigo de não poderem procriar porque eram filhos do contrário! Tinhas de parir, burra, senão serias sangrada para não ficares machorra.

Contentavas-te com umas palhas, um febras de feno, umas ervitas apanhadas à beira dos caminhos, umas cascas de batata, uns casulos de milho, onde nada havia para comer, mas que tu roías. O grosso da comida era para as vacas. Contentavas-te com uma albarda com uma enxalma, uma saca ou um cubejão por cima e uma corda ao pescoço para te guiarem. O cavalo, mais nobre, tinha de ser engalanado com um selim ou com uma albarda mais trabalhada, ajaezada com uma manta e com uma cabeçada com freio.

Para este havia bornal com favas ou milho. O dono gostava de se passear montado nele. Por isso, raramente o usava nas lavras.

Por vezes, eras alvo da fúria de um fortalhaço, como o Zé Cardosa, que te pôs em pé agarrando-te com os dentes pelo pescoço quando tu caíste com o peso da carga ao Marco do Soito. E quantos insultos ainda ouviste!

Quantos feixes de erva transportaste sobre teu dorso para ti e, principalmente para as vacas, com o dono entre a carga arrochada. Por córregos pedregosos tu caminhavas por onde não passavam as vacas. Por isso gastavas tanto as ferraduras. Carregavam-te com feixes de lenha e cargas de cepas, sacos de carvão e feixes de milho. Alombavas com um saco de enxofre para deitar à vinha da Eirinha com uma torpilha. De tanto carregares, a albarda fazia-te feridas. Tão pequeno e, às vezes, tinhas de lavrar atrelado a um arado, só ou acompanhado de outro colega, ou com uma grade atrás de ti. Pobre burrito! O que te obrigavam a fazer! Mas, se querias comer, tinhas de dar de comer ao teu dono com as sementeiras que tu ajudavas a fazer. Quanta pena me dava ter de bater-te para andares à roda do poço, com os olhos tapados por uma saca para não entonteceres, puxando o cambão e fazendo girar a roda com os copos cheios de água que caia na caleira e regava o chão, correndo por regos e tornadoiros!

Tens as orelhas grandes, orelhas de burro com que enfeitavam na escola a cabeça de algum aluno preguiçoso.

Aproveitavam de ti tudo o que podiam. Atrás de ti vinham mulheres com cestas apanhando teus cagalhões que iam caindo à medida que avançavas. Estes seriam deitados no cebolo para dar grossas cebolas que seriam enrestadas para dependurar na loije ou serem vendidas nos mercados.

Agora até serves de iguaria servida em pratos em certas regiões. Não é de admirar. Se já Cleópatra se banhava no teu leite, que eu também provei, porque não será também deliciosa a tua carne?
Mas tu eras teimoso. Se te batiam, vingavas-te começando às voltas sem avanços. O diabo era quando te picava a mosca ou andavas cachonda. Começavas a zurrar com os teus gritos tão penetrantes. Aí corrias como louca, escoiceando para todos os lados. Até que o teu dono te acalmava com umas pancadas fortes com os laços.

Quando ias à fonte beber água no pio, muito gostavas tu de tentar lamber um pouco do milho estendido em cubejões a secar nas ruas. E, se não te convidavam, amuavas, ficavas triste e era preciso sangrar-te porque tinhas aguado. Gostavas de ganhar a quarta no Vale, espojando-te e revirando-te uma e outra vez. E quem se atrevesse a pisar o lugar onde te espojavas arriscava a apanhar uma trilhadura. Quando a garotada te assustava, ou algum cão te ladrava ou tentava morder as tuas canelas, corrias sem te importares que o menino que levavas no dorso caísse ao chão, entre gritos.

Devo-te, burra da casa, teres-me salvo a vida quando o Zé Miguel me levou ao médico do Soito, ambos em cima de ti, praguejando pelo caminho para que andasses mais depressa. E tu conseguiste chegar a tempo de o Dr. Armando me tirar o veneno que saia dum carbúnculo no dedo anelar da mão direita, que ainda conserva a marca da queimadura. Por isso, só posso dizer bem de ti.
Que será feito de ti? Já nem os ossos devem existir. Perdi-te o rasto quando saí de Quadrazais. Provavelmente o pai, para te não ver morrer na loije, deu-te aos ciganos e vieste ainda a cair nas mãos de outro dono. Contenta-te por guardar boas recordações tuas!

Burritos, vossos donos foram para França, abandonaram-vos. Já não semeiam as terras. Por isso não precisam do vosso estrume. Já não têm vacas. Por isso não precisam de vós para carregarem feixes de erva. Já não semeiam batatas. Por isso, não precisam de vós para tirarem água dos poços. Por isso já não precisam de vós para carregardes a lenha e cepas para se aquecerem à lareira no Inverno, porque agora já têm caldeiras a gasóleo para aquecerem a casa. E, se quiserem lenha para a lareira, compram carradas dela de carvalhos doutras terras, a quem lha ponha em casa em tractores. Ai, burrinho, até já não serves para divertir a criançada em cavaladas. Também elas já não têm o encargo de te levar ao pio a beber água. Quase já nem existes. Raros são os exemplares da tua raça nas aldeias da Raia. E, se existisses, quem te calçaria de ferraduras se já não há ferreiros nem ferradores? Agora já nem os ciganos te ligam. Já não serves os seus negócios, não te abrem a boca para ver a idade, mas também não te chicoteiam sem piedade só para que o possível comprador visse que ainda conseguias correr. Nas mãos dos ciganos tu até corrias, quando já estavas de pés para a cova.

Partiste, mas ficaste na minha memória! Se pudesse, mandava erguer-te uma estátua em cima dum pedestal, qual rei dos montes! Mas sem ninguém em cima! Assim te vingarias do cavalo das estátuas de Lisboa, que tem sempre o rei em cima a subjugá-lo!

Notas:
Aguar -apanhar uma doença por ser contrariado.
Arrochada -apertada com arrocho.
Cubejão -cobrejão, manta de farrapos.
Fragar -esfregar.
Ganhar a quarta -dizia-se que o animal teria direito a uma quarta de milho se desse 4 voltas.
Laços -cordas para segurar os feixes.
Loije -baixos da casa.
Machorra -fêmea que não engravida.
Trilhadura -calo no pé.

:: ::
«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

One Response to Homenagem a outro símbolo da Raia – o(a) Burro(a)

  1. Ana Rita diz:

    Gostei deste texto,o senhor Franklim Costa Braga faz umas histórias muito giras

Deixar uma resposta