Fugi do Pâmpano

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Criatura mística que «ronda» a Capela da Nossa Senhora de Estrela, na Boidobra, pelo quinto ano consecutivo promoveu mais um «ataque». Felizmente que estavam lá os escuteiros, do Agrupamento 1222, para nos salvar. Não foi só comida e bebida que nos acalentaram. Acima de tudo é aquele ambiente único, que só um «ataque ao Pâmpano» consegue ter. Para o ano lá estarei. Venha quem vier!

Ataque ao Pâmpano em Boidobra - Capeia Arraiana

Ataque ao Pâmpano em Boidobra

Há factos que não têm explicação. A não ser algumas terras da minha saudosa bisavó, Maria Augusta do Patrocínio de Moraes, nada me ligava à Boidobra. Mas o facto é que passei algum tempo da minha vida pessoal tendo criado laços de muita amizade. Com orgulho sou sócio do Estrela do Zêzere e um dia voltarei a ser mordomo das Festas em Honra da Nossa Senhora da Estrela, porque saudades não me faltam daquela vivência única de gentes simples, humildes e amigas, muito amigas mesmo.

Tive a oportunidade de ver nascer o primeiro «ataque ao Pâmpano» e, salvo os anos que chove, é sempre um «mar» de gente. E há motivos para isso. Para além de «dar vida» ao centro da vila, promovendo a economia local, todos os edifícios, mesmo em ruina, são aproveitados para animação. Mas o mérito deve-se somente aos escuteiros da Boidobra, que em face da sua tenacidade e persistência têm conseguido «romper» os preconceitos e avançar com projetos comunitários que acabam por todos beneficiar.

Mas afinal o que é o Pâmpano? Consultando o sítio da Junta de Freguesia da Boidobra, na internet, o nosso antepassado Egas Moniz, quando combatia os mouros, foi uma vez surpreendido por uma estranha criatura quando procedia a uma caçada para se alimentar. Ao que parece, esta estranha criatura era feroz e combativa, tendo Egas Moniz invocado a proteção da Virgem e conseguido vencer. Então, nesse mesmo local, Egas Moniz ergueu uma capela, tendo mandado esculpir esta criatura, mesmo por cima da porta principal, cujo nome seria um Pâmpano. Como o combate terá durado até alta manhã, a estrela de alva reluzia, e a Capela foi batizada de Nossa Senhora da Estrela.

Capela da Nossa Senhora de Estrela na Boidobra - Capeia Arraiana

Capela da Nossa Senhora de Estrela na Boidobra

Então perguntam, porquê «ataque»? Aqui se me permitem uso um pouco a minha imaginação. Recuo no tempo e visto a armadura de Egas Moniz. Após aquele combate terrível vejo-me no chão, deitado a olhar para a tal Estrela no céu. O cavalo fugiu e resta-me pedir auxílio a alguém. A cambalear vou andando no escuro, sempre iluminado pela Estrela, até que vejo uma casa. Bato à porta e grito por Deus. Vejo uma camponesa simples que me acode. Mas só tinha caldo. Com um tom esverdeado das verduras do prado e enchidos de sabor divino. Dá-me também pão e vinho. Ainda me tentou lavar as feridas mas recusei. Aquele olhar terno de avó disse quase em confissão que não tinha mais comida. Sorri e agradeci mas com todo aquele barulho, camponeses e camponesas, vieram até junto à casa. Ao sair todos me querem ajudar. «Por favor venha até a minha casa, homem de Deus, precisa de comer!». E assim foi, de casa em casa cada um me deu o melhor que tinha, até que veio o nascer do sol.

A generosidade foi tanta, que só faltou mesmo o café. Não pelo motivo que pensam, mas logo por azar a máquina se avariou.
Na realidade este «ataque ao Pâmpano» acabou por ser um momento de convívio e prazer. Prazer de conviver!

Que venham muitos mais!

Capela da Nossa Senhora da Estrela, 4 de maio de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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