Cruzes e Cruzeiros em Quadrazais

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Por se celebrar o dia de Santa Cruz em 3 de Maio, vou dedicar este meu artigo às cruzes e cruzeiros em Quadrazais. Como em outras terras, sempre que alguém morria de morte natural, mas sobretudo de morte violenta, acidente ou morte matada, como dizem os brasileiros, era hábito colocarem uma cruz no local, hoje substituídas por ramos de flores. Isto se os mortos fossem adultos e da terra. Por isso o Moca da Torre, que foi morto à entrada do caminho para o Ozendo, à Desperdiz, onde hoje está a casa da ti Alice, por ser da Torre não teve direito a cruz no local. O Moca tinha matado o Diamantino e é possível que tenha havido vingança dos torrenhos.

Cruzeiro do arraial da capela do Espírito Santo - Capeia Arraiana

Cruzeiro do arraial da capela do Espírito Santo

Nesse mesmo local a Bajé Ginginha matou o filho de pai incógnito, à nascença, colocando-o no tronco dum castanheiro. Descoberto o crime, foi levada para a prisão do Sabugal. Mais tarde casou com um trabalhador do Campo, para cuja terra foi viver.

Outras mortes ficaram sem cruz. Mas teve-a o Ruvino, marido da ti Antónia, morto pelo Germano à Vila Ferreira. Não sei se ainda por lá está, mas vi-a lá quando miúdo. A última morte matada foi à Lameira, ao lado da capela, no início do caminho para o Alcambar, morte efectuada por um velhote de Vale de Espinho. Aí foi colocada uma cruz de ferro, como nos cemitérios, a primeira em caminhos. Ao Soito Concelho de Baixo, no local onde foi morto o Francisco Ruvino existia uma cruz. Na Raia, no local em que os carabineiros mataram o Tó Chorão nos anos 50 do século XX, colocaram também há uns anos uma cruz.

Cruzeiro ao Vale-de pé (encontra-se deitado) - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

cruzeiro da Ponte deitado, que está no Vale de Pé

Mas nem todas as cruzes assinalavam o local de morte de alguém. Algumas assinalariam romarias a cumprir. Poderá ser o caso do cruzeiro junto do fontenário no cruzamento da Rua de Santo António com a Avenida e a da Malhada Vaca e ainda outra que descobri em Abril de 2017 caída à entrada do último caminho, à esquerda de quem vem de Quadrazais, antes da ponte sobre o Côa. Estava caída entre as ervas. Avisada a presidente da Junta de Freguesia para o perigo de desaparecimento, esta achou por bem trazê-la para a povoação e implantá-la ao Vale, largo em frente da Junta de Freguesia. Tal como a da Malhada Vaca, esta de pé, trata-se de um bloco de granito onde foi trabalhada em baixo relevo uma cruz normal no caso da Malhada Vaca, mas do tipo da cruz de Santiago, sem o feitio de espada em baixo, no caso da da Ponte. Esta deve ser bastante antiga, a avaliar pela implantação em baixo de uma espécie de capela com coroa, tendo no centro uma cova rectangular, como se servisse para colocar uma vela.

Cruzeiro da Malhada Vaca - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Cruzeiro da Malhada Vaca

Em Agosto de 2017 visitei Malcata e, no pequeno cemitério ao lado da igreja, com ainda quatro ou cinco campas não transferidas para o novo cemitério, lá estava um cruzeiro igual mas mais pequeno. Pela beleza e antiguidade, este cruzeiro deve ser considerado património de Quadrazais e, como tal, preservado. Daí que o tivesse revelado à Presidente da Junta de Freguesia e lhe pedisse que o preservasse. Não sei se ali mataram alguém mas, não havendo capela por perto, tudo leva a crer que sim, salvo se se tratar de cumprimento de uma romaria. Consultei algumas pessoas já centenárias ou perto disso e não se lembram de ter sido morto aí alguém. Quanto ao cruzeiro da Malhada Vaca, a ti Maria Augusta disse-me que tinha sido aí colocada para lembrar uma morte de um guarda, que acabou por ser morto já em sua casa, no Soito, tendo os quadrazenhos atirado um tiro pelo buraco da fechadura. Este crime é relatado por Joaquim Manuel Correia no Soito, mas nada diz sobre o começo da rixa na Malhada Vaca.

Cruzeiro junto do fontenário ao Santo António - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Cruzeiro junto do fontanário ao Santo António

Mas, o da Malhada Vaca e o do fontenário ao Santo António, por se encontrarem perto de capelas – a do Espírito Santo a primeira e a de Santo António a segunda –, serviram de local de paragem para rezar de procissão ao Espírito Santo, ou de paragem para rezar quando se levavam mortos para o cemitério, este ao lado da capela de Santo António. A mesma função se atribuía ao cruzeiro das cruzes, ao Robleiro, onde se rezava na ida e na vinda à festa do Espírito Santo. O cruzeiro actual, em cimento, é bem diferente do que existia antigamente, em pedra. Se mataram aí alguém, desconheço. O cruzeiro junto à Fonte, já modificada a pedra horizontal, deveria indicar romaria a cumprir, talvez dedicada a São João, já que, no dia da sua festa, a rapaziada enfeitava a fonte com vasos de flores roubados das casas.

Outras cruzes se encontram no alto da igreja e das capelas de Santo António, Santo Cristo e Sta Eufêmia, mas todas cruzes normais.
Nos arraiais de Santa Eufêmia e do Espírito Santo encontram-se cruzeiros, sendo que o primeiro é encimado por cruz do tipo de Santiago.
Nas campas do cemitério encontram-se diversos tipos de cruzes. Do tipo da de Santiago só encontrei três.

Nota: Escrevi Robleiro e não Reboleiro porque o primeiro é o verdadeiro nome do topónimo. Ainda hoje há terras, como a Lageosa da Raia, onde se designa por robleiro um carvalho pequeno. Do facto de ter havido um robleiro no local, foi dado em Quadrazais o nome de Robleiro ao local a que o povo pronuncia R’bleiro e que alguns confundiram com Reboleiro. Eu próprio assim julguei.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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