Aldeias quase desertas

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Percorro as ruas, acima e abaixo, e não vejo vivalma. Ruas inteiras de casas fechadas, onde há muito não mora ninguém. Ruas abandonadas, onde já não se ouve barulho, onde já ninguém conversa, onde já ninguém brinca. Ruas que só ganham alguma vida… no Verão.

Casas de Pedra na aldeia de Ruivós, no concelho do Sabugal - José Carlos Lages - Capeia Arraiana

Casas de habitação em granito «sem gente há muitos anos» na aldeia de Ruivós, concelho do Sabugal
(Foto: Salette Leitão)

Estão as casas, reconstruídas ou feitas de novo. Todas falam de vidas, de dias felizes e tristes, de tempos mais antigos e mais atuais. Nesta, criaram-se oito filhos, naquela cinco…; aqui da palheira fizeram uma garagem; esta grande tem três das antigas; mais à frente, uma ameaça ruína; do lado de cima, uma que fechou há pouco; além, uma que fechou há muito… Podia continuar, rua após rua, e sempre casas fechadas, a grande maioria, de emigrantes, mas também de pessoas que estão em Lisboa, de idosos que estão em lares ou de pessoas que já morreram. São poucas as habitadas.

A grande desertificação começou com a emigração dos anos sessenta, para França, e continuou, até hoje; poucos ou nenhuns regressaram. Mas acentuou-se, nas últimas décadas, pela falta de modos de vida: a agricultura é residual, o trabalho nas obras muito escasso e outros empregos não há. Resistem os mais velhos que vivem de pensões.

Nessa manhã, dentro do povo, dei conta do carteiro (muitos emigrantes recebem as cartas da água, da luz, do banco… nas caixas do correio das suas casas), duma carrinha de apoio domiciliário do lar de uma terra vizinha e depois de outra de outro lar. Não encontrei mais ninguém; algum movimento, só ao fundo do povo, na estrada para o Sabugal.

Estou a falar da minha terra – Águas Belas – mas o mesmo se passa com muitas outras aldeias do Interior do país. A meu ver, a situação não tende a melhorar, tanto pela idade avançada de muitas pessoas, como pelas novas gerações de emigrantes que, cada vez, virão menos e por menos tempo.

Vamos ver em que vai dar o acordo sobre descentralização, entre PS e PSD, necessário para políticas de fundo e a longo prazo; temo pela dificuldade em reverter esta desertificação já tão real. Espero que haja gente com ideias claras.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

One Response to Aldeias quase desertas

  1. João Manuel Aristides Duarte diz:

    O acordo de descentralização é que vai resolver alguma coisa em termos de desertificação? É esperar sentado

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