«Ni Dieu ni Maître»

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Este título – «Ni Dieu ni Maître» – é um dos muitos slogans que apareceram escritos numa qualquer parede de um qualquer prédio de Paris durante Maio de 1968. Estão passados 50 anos desde o movimento estudantil que tentou destruir os alicerces de uma sociedade capitalista, a francesa, mas ao mesmo tempo também não aceitava as teses do Marxismo oficial. Este movimento falha os seus intentos porque os trabalhadores franceses não acreditaram numa mudança radical da sociedade capitalista.

Ni Dieu ni maître - António Emídio - Capeia Arraiana

Ni Dieu ni maître…

O Partido Comunista Francês (PCF) aderiu à revolta estudantil, não teve alternativa, era um partido de esquerda, mas estava em crise porque apoiou oficialmente a repressão do exército soviético em Budapeste – 1956 – este apoio originou a saída de muitos militantes e intelectuais do PCF, e deu também origem ao abrandamento da sua rígida orientação estalinista. Chamava nessa altura «Anarquista judeu alemão» a Daniel Cohn Bendit, um dos líderes do Maio de 1968. Isso originou que os estudantes se manifestassem aos gritos de «Todos somos judeus alemães!» O movimento estudantil francês também tinha como figuras de referência os grandes inimigos do PCF, Mao, e Trotsky, ou seja, não eram comunistas no sentido soviético da palavra, acreditavam que experiências comunistas fora do controlo da União Soviética podiam funcionar.

Querido(a) leitor(a), como já referi, os protagonistas do maio de 68 em França foram os estudantes universitários, estes tinham aumentado massivamente porque a educação superior tinha deixado de ser um privilégio de minorias elitistas, o que fez com que muitos estudantes de famílias humildes entrassem na Universidade, tinham consciência de classe e queriam lutar por uma sociedade mais igualitária, lutaram também contra os anacrónicos métodos de ensino, contra a falta de uma saída depois de acabarem os seus cursos, ou seja, não tinham um emprego assegurado, queriam mais Liberdade, menos autoritarismo, queriam o amor livre e uma Revolução sexual, mas estas mudanças sociais e também morais não se podiam concretizar sem uma mudança política radical, tudo isto fez com que viessem para a rua.

Os trabalhadores não estavam do lado dos estudantes? Estavam, principalmente quando a repressão sobre os estudantes se tornou mais violenta, os corpos onde a polícia batia eram os dos seus filhos e correligionários políticos, os sindicatos decretavam greves gerais e manifestações de rua, numa delas aderiu um milhão de trabalhadores, estes chegaram a apoderar-se de fábricas e empresas, dois terços dos trabalhadores franceses estiveram em greve num só dia (10 milhões!), mas quando o governo de De Gaulle decreta a subida de salários, a pouco e pouco os trabalhadores regressaram às fábricas.

Em finais do mês de Junho há eleições, a direita Gaulista ganha-as, e tem mais 56 lugares no Parlamento!

Vou deixar aqui uma frase de Hannah Arendt: «Estamos fartos de saber que o dia seguinte à Revolução, o mais radical dos revolucionários, converte-se num conservador.»

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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