Onde estava Portugal no 25 de Abril?

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Não se trata de nenhum manifesto político. Mas sim de um artigo de opinião que analisa o enquadramento geoestratégico de Portugal, em abril de 1974. Ao contrário do que se possa pensar, Portugal tinha um papel importante na cena internacional atendendo a que as rotas marítimas para o Oriente passavam por águas territoriais nacionais, através das antigas províncias ultramarinas africanas.

Estandarte do Ministério dos Negócios Estrangeiros - António José Alçada - Capeia Arraiana

Estandarte do Ministério dos Negócios Estrangeiros

O período da história de Portugal no tempo da Ditadura Nacional e do Estado Novo, só agora começa a ser divulgado por alguns historiadores, principalmente, no que respeita à oposição. É sabido a resistência por parte de alguns setores da sociedade, ao nível interno, como também externo, no caso concreto dos movimentos de libertação das províncias ultramarinas africanas. Não se tratava apenas de Angola, Moçambique e Guiné – Bissau, mas também haviam movimentações concertadas em São Tomé e Príncipe.

Na nova ordem mundial, a seguir ao armistício da II Grande Guerra, condenavam-se os regimes ditatoriais e, ao longo do tempo, as potências coloniais foram acordando com os seus territórios em África e na Ásia a independência, conseguindo, mais ou menos, influencia politica nos novos países entretanto libertados.

Mesmo assim, «contra ventos e marés», Portugal entrou como membro de pleno direito nas Nações Unidas, em 14 de dezembro de 1955. Desde 1946 que a nossa diplomacia tudo fazia para entrar neste organismo, mas deparava-se sempre com o veto da União Soviética. Curiosamente nesta vertente, as dificuldades à nossa entrada era a ocupação do território de Timor Leste, violando o Artigo 73.º da Carta das Nações Unidas, que dispõe sobre o direito à autodeterminação dos povos. Relativamente a África, nada, mesmo nada!

Votação no Conselho de Segurança para aprovar a entrada de Portugal na ONU - Capeia Arraiana

Votação no Conselho de Segurança para aprovar a entrada de Portugal na ONU

Outro paradigma é a nossa entrada na NATO, logo em 1949, tendo sido um membro fundador, mas obrigando o nosso país a abandonar a tão referenciada «neutralidade», que marcou a nossa política externa durante a Segunda Grande Guerra. Sendo considerada uma ditadura, como era também Espanha que só entrou em 1982, qual o verdadeiro motivo de tão prestigiado convite sem pôr em causa um regime que durou até 1974?

Porém, Portugal foi mantendo, por cerca de mais uma década relativamente a outros países europeus com política colonial, a sua soberania em territórios que, à partida, seriam forçosamente libertados. A pressão internacional contra a soberania portuguesa nas províncias ultramarinas africanas ia ganhando consistência, mesmo junto de países amigos, ou aliados, enfrentando condenações nas Nações Unidas, muitas delas fracassadas, em face da abstenção dos países árabes, uma vez que o anterior regime nunca reconheceu Israel como estado soberano.

A verdadeira guerra entre o anterior regime e os movimentos de libertação travava-se na política externa. Para além de uma ação, quase sempre, concertada entre as organizações nacionalistas africanas, muitas delas a operarem em território da Europa Ocidental, influenciando com eficácia a imprensa internacional, o facto é que a nossa diplomacia mostrou também saber responder, mesmo «rotelada» de representar uma ditadura. E sinceramente acho estranho como o regime se manteve porque a resistência destes movimentos africanos ainda teve início na década de 50 e que o «desgaste» da imagem do nosso país, junto da opinião pública europeia, durou mais que os cerca de 14 anos das guerras de libertação das províncias ultramarinas. Mesmo assumindo a especulação, seguramente que teria de haver um forte apoio de países influentes.

Porém, no início dos anos 70, surge uma grave crise do Petróleo, com uma escalada de preços, e mais uma guerra no médio oriente: o conflito do Yom Kippur. No entanto, esse conflito ocorre, mais uma vez, entre Israel e o Egito, mas este ultimo já alinhado com a política americana, através do Presidente Al Sadat, que meses antes afastou todos os conselheiros militares soviéticos. Sadat acabou posteriormente por ser assassinado, em 1981, mas sem ter antes assinado a paz com Israel, em 1979. Hoje é sabido que o objetivo americano, que sempre presente em todo este processo de aproximação, seria no entanto a reabertura do canal do Suez, o que na realidade aconteceu, em 1975, tendo no ano anterior, a força militar da ONU sido retirada dessa zona estratégica.
Reabrindo o canal do Suez, o comércio marítimo ocidente/oriente deixa de ser efetuado maioritariamente em águas territoriais portuguesas, onde estavam as províncias ultramarinas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, conseguindo-se também no caso concreto do petróleo, um abaixamento substancial nos custos de logística, por encurtar a rota e também já não ser necessário apostar em superpetroleiros.
A gasolina tinha todas as condições para baixar o preço, aliás como veio a acontecer!

Coincidência, ou não, o 25 de abril, dá-se no ano de 1974, entre a guerra do Yom Kippur e a reabertura do canal do Suez. Mesmo que nada tenha que ver com nada, o facto é que com a reabertura do canal do Suez, Portugal perde importância geoestratégica e os países aliados e amigos talvez deixem de ser tão aliados ou até amigos.

Tenho de ser sincero e também apresentar os argumentos contra esta minha tese. Por várias vezes tenho discutido estas ideias com especialistas em política internacional e, alguns deles, não concordam. O argumento é simples: o Mediterrâneo não é um mar seguro! Mesmo com o equilíbrio politico no estreito de Gibraltar, através da ocupação inglesa e espanhola de territórios estrangeiros, o facto é que uma Armada bem equipada rapidamente bloqueava esta rota. Porem, na verdade, é que já passaram mais de 40 anos e tal nunca aconteceu, e sempre que há uma crise no Egito, rapidamente a política externa americana intervém na segurança militar no canal do Suez, recorrendo, normalmente, aos capacetes azuis da ONU.

Falta apenas falar na África do Sul. Efetivamente a rota marítima, embora maioritariamente fosse, na época, em aguas sob administração portuguesa, havia uma parte substancial que bordejava a costa sul-africana, batizando inclusivamente este percurso por «Rota do Cabo». Ainda nos ainos 80, apos o reconhecimento de Israel por parte do Egito e da rota do Suez já prevalecer nas trocas comerciais marítimas, deu-se início ao fim do regime do Apartheid mas sem grande sucesso. Efetivamente só em 1994 é que formalmente ocorrerem eleições livres neste país e Nelson Mandela foi eleito presidente da Republica da Africa do Sul. No designado «filme do tempo» esta alteração politica significativa também ocorre depois da perda de potencial estratégico da Rota do Cabo.

No entanto termino a crónica com algumas questões, que convido à reflexão:
– Porque será que a influência americana politica (excetua-se a vertente económica), nos anos subsequentes ao 25 de abril, desapareceu quase por completo nestes novos países africanos, entretanto libertados?
– Porque é que o regime sul-africano perdurou mais 20 anos que o Estado Novo, pese embora as negociações para o fim do Apartheid tivessem início nos anos 80?

Carvalhal Meão, 31 de março de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

4 Responses to Onde estava Portugal no 25 de Abril?

  1. António Emídio diz:

    Senhor António José Alçada :

    Vou ser breve, embora o seu artigo tivesse direito a um comentário mais aprofundado : Salazar sempre foi um aliado incómodo dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente durante, e depois da II Guerra mundial, chegou a levar «puxões de orelhas» de Winston Churchill, e não só dele…Em 1949, cinco anos depois do fim da Guerra, um relatório da CIA,justificava o apoio dos Estados Unidos a Salazar e ao seu Estado Novo, porque o considerava um regime «autoritário», mas não «totalitário» e que tinha salvado o País do « caos governamental » da I República. Traduzindo isto, significa que os Estados Unidos tinham medo que Portugal caísse debaixo do regime Soviético, já que o Partido Comunista Português, apesar da forte repressão sobre ele exercida, era um partido fortíssimo que dominava a oposição ao Estado Novo.
    Em relação às colónias, Salazar bem clamava pelo « espaço económico português » chegou a dizer o seguinte: « Quero este país pobre mas independente; não o quero colonizado por capital americano » não conseguiu.
    Salazar foi um governante que andou sempre a fugir à História, conseguiu morrer primeiro do que ela ajustasse contas com ele, ajustou-as depois com Marcelo Caetano.

    António Emídio

  2. António José Alcada diz:

    Caro Senhor muito obrigado pelas suas palavras. Acho que tem razão no que diz e, no plano interno, concordo com a sua análise. Esta tese, obviamente sujeita a comentários e críticas, não passa disso mesmo. E de certa forma as suas palavras continuam me a questionar porquê o regime durar tanto tempo, quando, em termos de política externa, não tinha condições para tal. Para além da oposição interna, como bem referiu, havia a externa através dos movimentos de libertação, mas que, por muito eficazes, levaram mais de 20anos para derrubar o regime. E no fundo tem sido esta a questão que rodeia este artigo. Muito obrigado.

  3. António Emídio diz:

    Caro António José Alçada:

    Sabe que eu muitas vezes tenho feito esta pergunta a mim próprio : como é que um País tão pequeno, e economicamente tão débil como Portugal conseguiu aguentar, contra ventos e marés uma Guerra Colonial de 13 anos com três frentes ? Estarei enganado se disser que o sacrifício dos soldados portugueses foi impressionante ? Que o trabalho da Diplomacia Portuguesa foi exaustivo ? Veja-se o caso da Administração Kennedy, que a 13 de Março de 1961 vota pela primeira vez no Conselho de Segurança da ONU com os países afro-asiáticos contra o Governo Português. Não podíamos usar armas dadas pela NATO na Guerra do Ultramar, enfim toda uma série de condenações.Estarei enganado se disser que a repressão policial e também do exército, contra os nativos foi indescritível ? Talvez esteja aqui , para mim, a razão principal de Portugal se aguentar tanto tempo, e o que me leva a pensar isto ? Um simples livro e um programa de televisão passado no canal 2 . História a História – África, do historiador Fernando Rosas. Este é o meu pensamento em relação ao tempo que durou a Guerra do Ultramar.Este trocar de impressões sobre a recente História de Portugal para mim é emocionante, mas atenção, a História ainda está fresca…

    António Emídio

    • António José Alcada diz:

      Meu caro Sr, convido o a ler a minha recente crónica publicada hoje nesta Capeia. Foi escrita antes da nossa conversa. Julgo que vai entender. Cumprimentos

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