Percursos vergilianos

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Numa tarde de Sábado de Aleluias concretizei um velho sonho: visitar os territórios serranos de Vergílio Ferreira, um dos meus Escritores Portugueses preferidos. Como nem sempre é fácil compreender completamente a sua escrita, contei com um cicerone – amigo, companheiro e Missionário de São João Batista -, o Padre Jacob, que me guiou por Nabais, Nabainhos e Melo, localidades no Concelho de Gouveia.

A Casa da Vila Josephine, onde cresceu Vergílio Ferreira entre tias (os pais estavam ausentes nos Estados Unidos)

No caminho passamos por uma vivenda vistosa, carregada de granito e propriedade de um dentista. A sua rica construção deve-se aos conselhos da sua avó. Quando este queria ir para oftalmologista, a experiente familiar disse-lhe: “vais para dentista, temos muitos dentes e só dois olhos. Tratando os dentes serás rico, tratando os olhos não passas da cepa torta. Todos acham que vêem bem, mas ninguém suporta uma dor de dentes”. O Jovem Universitário de Medicina seguiu os conselhos da Avó e hoje exibe sinais de riqueza. Quantos dentes de ouro em cada bloco de granito?
Seguimos por Nabais, uma aldeia habitada por muitos holandeses, até chegar ao diminutivo Nabainhos, onde as gentes estão descontentes com a terra do Patriarca Mendes Melo. Viram-lhes roubada a sede de Freguesia, o Pároco e as Festas de Nossa Senhora do Coito, que saía da Igreja Conventual… Só não levaram o cemitério, que também serve a localidade de Melo, com os seus mortos…
É aqui que está sepultado Vergílio Ferreira sob uma campa granítica: o ano de nascimento, o ano de falecimento, o nome esculpido pelo próprio. Em redor, pavoneiam-se os mausoléus de senhores, condes, duques, empresários ricos, agricultores abastados. A vaidade além-túmulo é tão grande que julgamos ser capaz de ressuscitá-los e vê-los saltar o muro do cemitério para ir às compras.
À porta de entrada, está uma mensagem de Vergílio Ferreira: “Quero ir para Melo/Em cadáver inteiro/E consumir-me lá/A ouvir o vento do Inverno (…) Paz ao meu morto futuro. Amén!”
Entramos em Melo, terra natural de Vergílio Ferreira, uma Vila Museu. O Pelourinho também apresenta uma lápide: “O Povo saiu à Rua a festejar o 5º Centenário da atribuição do Foral de D. Manuel I, Rei de Portugal, em 1515”. Vemos uma Capela Românica e um pouco à frente a indicação de Gravuras Rupestres, junto às Ruínas fantasmagóricas do Palácio dos Condes de Melo.
Com o apoio do nosso cicerone, a guardiã dos templos, protectora do Património, abre-nos as Portas da Igreja da Misericórdia, repleta de imagens da Semana Santa. O Cristo no esquife já não é o mesmo. Há anos levaram o antigo a Braga e trouxeram este moderno, sem valor patrimonial. O Povo foi enganado… Num dos altares lá está o Menino Jesus, vestido de Napoleão, para ninguém se esquecer das Invasões Napoleónicas naquelas regiões. Retábulo Único da Arte Portuguesa Barroca – Escola de Grão Vasco. Segue-se a visita à Igreja Matriz, com raízes românicas e três naves, onde somos apresentados a um São Francisco místico de extrema piedade e amor e a São João Batista, a pregar neste deserto das nossas vidas. Observamos uma Via-Sacra significativa e a Sepultura de um Bispo Egitaniense – José António de Mendonça Arraes -, de 1822.
Cá fora, a Norte, está uma estátua de Santo Isidoro, padroeiro de Melo e dos Agricultores. Da parte Sul, o Adro, onde fica a Casa do Pároco, traz à memória Vergílio Ferreira em “Alegria Breve”: “O Adro está deserto. Enquadram-no filas de mesas formando blocos, janelas abertas sem ninguém”. O Tronco (local onde se ferravam os animais) está bem protegido com cobertura de madeira e telha mourisca.
No Largo do Paço, ergue-se a Estátua de Vergílio Ferreira, inaugurada no Centenário do seu nascimento, a 28 de Janeiro de 2017.
A Casa da Vila Josephine, onde cresceu Vergílio Ferreira entre tias (os pais estavam ausentes nos Estados Unidos), foi adquirida pelo Município de Gouveia, que irá criar no futuro um Museu com as obras e utensílios do escritor: “Aqui estou na Casa Grande/E desertor, Para Sempre.”
Avançamos na direcção de Folgosinho e encontramos a Fonte dos Namorados: “quem bebe desta água, cá fica.” Segue-se a Quinta do Pinheiro, propriedade de castelhanos. Já foi de um rico emigrante português dos Estados Unidos, mas o álcool e as mulheres arruinaram-no física e… financeiramente.
No regresso a Gouveia avistamos o Parque Natural, muito marcado pelos fogos recentes. Era o habitat, entre olivais e soutos, de uma curiosa fauna: morcegos orelhudos castanhos, torcicolos, vacas-louras, ginetes… Lá longe, a Quinta das Maias, onde se produz o célebre Vinho das Maias, e a Capela de Santa Eufémia, Mártir dos Primeiros Anos do Cristianismo, que na etimologia grega e latina se traduz como a “Boa Mulher”.
No último adeus a Melo, vemos uma casa velha que parece existir num perpétuo inverno ventoso. Na sua fachada figura a inscrição: “ARBORIZAI AS VOSSAS SERRAS, TEREIS ÁGUA, SAÚDE E RIQUEZA.”
O Missionário, a conduzir a nossa viatura, pára aqui e ali, cumprimenta, saúda, sinaliza, deseja a todos uma Santa Páscoa. Constatamos que é um Homem em missão de afectos, fraterno e solidário.
Não esquecerei tão depressa este dia feliz. Bem-haja, Carlos Manuel Jacob Foutinho, pela tua amizade e disponibilidade.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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