Casteleiro – Como era no séc. XVIII?

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Estamos em 1758. Os serviços do Marquês de Pombal lançaram um inquérito a todo o País. Quem responde são os curas de cada aldeia. Vamos hoje mais uma vez comparar as respostas às perguntas principais dadas pelos dois párocos: o do Casteleiro e o do Vale de Lobo.

Casteleiro - Capeia Arraiana

Casteleiro

Na época, em 1758, o Casteleiro era anexa de Sortelha, em termos religiosos, e dependia dessa sua então sede de concelho em termos civis; o Vale tinha autonomia religiosa.
O Casteleiro tinha mais gente que o Vale: 150 pessoas contra 112.
Mas o Vale é mais rico: ao cura, o Vale assegurava uma renda anual de 200 mil réis e o Casteleiro apenas 20.
Ambas as terras «pertencem a El Rei». Não têm nem senhores nem donatários.

As duas aldeias

O Vale desse tempo é contornado pela sua ribeira, que vem de Santo Estêvão e vai para a Benquerença mas que só corre durante alguns meses no ano.
Portanto, parece-me que o Vale também se deslocalizou um pouco, tal como a minha terra.
Noto que o Padre Leal, do Casteleiro, não tem os seus paroquianos em grande conta. É que, perguntado pelos serviços de Lisboa «se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas», o cura tem o desplante de se exprimir assim sobre os meus antepassados: «Nada por ser gente muito rústica e não se lembrarem de memória alguma».
Mas, pelos vistos, as pessoas, tanto do Casteleiro como do Vale, escrevem e lêem, pois ambas as terras se servem do correio de Penamacor – afirmam os dois curas.
As duas aldeias, como todos saberão, ficam uma de um lado e outra do outro de uma serra.
Mas qual é o nome da serra? Para o Padre Olival (do Vale) é a Serra do Pa. Para o Padre Leal é a Serra d’Opa.
Vou pelo da minha terra: como já escrevi, foi assim que sempre ouvi chamar à serra.
No que eles também não se entendem totalmente é na caracterização do «temperamento» (clima, penso) da serra. Diz um, o do Vale, que é «quente e saudável». E diz o outro que «é frio mas saudável».
As duas terras são livres e pertencem a El Rei.
Vê-se ao longo das perguntas a repetida preocupação sobre a existência de «senhores» e de «privilégios».
E os padres sempre a darem a mesma resposta: «Nada». «É d’ El Rei». «As águas das ribeiras são livres».

Senhora da Póvoa e Santa Ana

Acho estranho que no relatório sobre o Casteleiro não haja uma letra sobre a Senhora da Póvoa. Mas, provavelmente, a Senhora da Póvoa não era ainda conhecida fora do Vale.
Ao que li, isso só vai acontecer uns anos depois destes textos, lá mais para o fim do séc. XVIII (terá a imagem original realmente vindo à força da Póvoa, perto do Meimão?).
As romagens do Casteleiro eram efectuadas até meia encosta da Serra d’Opa, à capela de Santa Ana.
Quem ia a estas romagens a Santa Ana? «Somente os moradores do mesmo povo» do Casteleiro, diz o cura da terra. Pelo contrário, as respostas do Padre Olival deixam claro que há muita devoção por ali: «Tem a Senhora da Póvoa muita gente em romaria em todo o decurso do ano e o maior concurso é na segunda e terça do Espírito Santo».
Duas constatações interessantes:
– primeiro: no Casteleiro, a capela de São Francisco (que à data ficava mesmo no limite da terra, repito) estava «sujeita» ao convento de Santo António, em Penamacor. Faço notar a propósito que, hoje, a maior festa anual é a de Santo António;
– segundo: ora, no Vale, a maior festa já era a da Sra. da Póvoa, mas há anotação de outra devoção: Santo Antão.
Registo isso só para recordar que Santo Antão é o padroeiro de Sortelha – a maior festa anual da terra.
Coincidência ou influência?

Economia farta para a época

Tenho escrito que havia muita actividade económica na minha terra. Agora acrescento que também no Vale.
Leia: pergunta do Marquês: Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras, ou outro algum engenho?
Respostas:
1. Vale – Tem esta ribeira de onde principia até à Benquerença quatro lagares de azeite e quatro moinhos.
2. Casteleiro – Tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido.
Mas há algo em que o Padre Leal, do Casteleiro, falha. Quando lhe perguntam (como aliás ao do Vale) «se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias», respondem ambos: «Nada». Ora, a verdade é que 35 anos antes da data dos documentos destes padres, mais exactamente em 1723, terá havido uma tentativa de explorar ouro no Casteleiro. E era obrigação do Padre Leal dizer isso ao poder central.

Notas especiais sobre o Casteleiro

Permitam agora que me dedique um bocadinho só à minha terra. Para duas chamadas: uma sobre o que chamaria o mistério da Serra da Preza e outra sobre a Mitra e a Comenda, que levavam parte dos rendimentos da terra.

1.º Na serra da Preza, havia uma preza. Nada de mais. Mas antigamente (muito antes pois do século XVIII), alguém teria pensado em canalizar a água desse reservatório pois «queriam em tempo antigo levar essa água por canos onde chamam a Torre dos Namorados, distante dela quatro ou cinco léguas». Este é como que um projecto antecessor do canal de regadio actualmente existente da Meimoa para Sul, para a Cova da Beira…
2.º O Padre Leal regista que aí para sul, nos limites da freguesia, lá para os lados do Escarigo, os rendimentos da terra são assim divididos: «tem a Mitra duas partes em todos os frutos e a Comenda uma». Mas lá para Gralhais, «das Portellas para baixo, tem a mitra duas partes e a Comenda uma, e das Portellas para cima terá a Comenda duas partes e a Mitra uma, em todos os frutos».
Leio na Wikipedia que «uma comenda é um benefício que antigamente era concedido a eclesiásticos» e que a Mitra é afinal também uma «dignidade ou jurisdição de um prelado eclesiástico».

Por fim, uma nota de humor do Padre do Casteleiro: acho que ele estava a gozar com o Terreiro do Paço quando escreveu que na terra há à beira da ribeira oliveiras e amieiros. Mas que os «amieiros, porém, não dão frutos»… Só pode estar a brincar com os lisboetas da altura e a chamar-lhes ignorantes. Deve ter sido uma pequena vingança, pois é sabido que os padres não queriam responder ao Marquês, o que só fizeram depois de ameaçados.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

2 Responses to Casteleiro – Como era no séc. XVIII?

  1. António Marques diz:

    A população do Casteleiro em 1758, nas contas do Cura Pires Leal, era de 525 pessoas.

    http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4239567

  2. José Carlos Mendes diz:

    Sim: :
    PERGUNTA-SE NO INQUÉRITO:
    – «Quantos vizinhos tem?» (Ou seja: moradores.)
    RESPOSTA do cura Pires Leal sobre o Castelleyro:
    – «Tem cento e cinquenta e dois fogos, pessoas de confissão e comunhão trezentas e quarenta e oito; só de confissão setenta e quatro, crianças que ainda não se confessam cento e três, pessoas ao todo quinhentas e vinte cinco».

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