História de Nossa Senhora do Círculo

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Numa ocasional conversa em Condeixa-a-Nova, a Professora Maria da Conceição Viais, Senhora muito culta e cantora de Música Sacra, contou-me uma história que recolhi nestes breves apontamentos.

Capela de Nossa Senhora do Círculo

As Invasões Francesas destruíram e incendiaram muitas casas em Condeixa-a-Nova. Nada nem ninguém foi poupado, Igreja Matriz, Palácio dos Figueiredos… Na sua feroz maldade cometerem diversas atrocidades, dizimando e matando muitos dos habitantes da vila e aldeias circundantes. Devido às inúmeras violações de jovens Mulheres, ainda hoje há descendentes dos soldados de Napoleão.
Os militares de Junot eram apelidados de Junos. O Povo chamava-os Jinós. Na freguesia de Seval, ainda há famílias com esse apelido. Há lá uma menina com a fisionomia de Junot.
As tropas deste Comandante, depois das muitas barbaridades, deslocaram-se para uma das colinas da Serra de Sicó, esperando pelas tropas Anglo-Portuguesas, que se deslocavam de Sul para Norte, a fim de engrossar o contingente militar com as tropas Conimbricenses. Sabiam que o Exército Francês se encontrava acantonado na Serra de Sicó.
Os Soldados Portugueses fizeram uma promessa: se conseguissem atravessar as linhas francesas sem serem detectados, ergueriam nesse lugar uma Capela a Nossa Senhora do Círculo.
A verdade é que a Serra se cobriu de intenso nevoeiro e os Soldados Portugueses passaram sem ser detectados pelos franceses. No Bussaco, os nossos venceram as tropas francesas comandadas por Massena. Assim, cumpriram a promessa de construir a Capela de Nossa Senhora do Círculo.
Hoje, quando a colina da Serra da Capela de Nossa Senhora do Círculo se cobre de nevoeiro, o Povo diz que “lá está a Senhora a cozer broa.”
A Professora Conceição Viais exprime a sua revolta por terem cometido um crime contra o Património Religioso, substituindo as lajes de pedra por azulejos e as portas de madeira de castanho secular por portas de vidro: “só faltou colocar azulejos no Marco Geodésico, junto à Capela”.
Ao redor do edifício religioso, há espaços verdes de tomilho, a que o Povo chama Erva de Santa Maria. É uma erva aromática, que alimenta os rebanhos daquelas zonas rurais. Quando comemos Queijo do Rabaçal estamos indirectamente a saborear os aromas das Ervas de Santa Maria.
O Povo de Condeixa e arredores afeiçoou-se à devoção de Nossa Senhora do Círculo e todos os anos, no Domingo da Pascoela, vai em romaria aquela montanha. Antigamente ia-se a pé, durante uma hora, por carreiros, com cabazes de merenda à cabeça, bacalhau e sardinhas fritas, pinga caseira, broa, queijo e outras iguarias. Os romeiros principiantes tinham de levar uma pedrinha na boca e só a deitavam fora junto à Capelinha. Viam-se grutas, buracos, fósseis, que há milhões de anos o mar ali depositou. Hoje, com a modernidade, vai-se de carro, com frangos assados e leitões da Bairrada que anulam o cheiro das flores silvestres. Assim não vêem os muros de pedra que limitam as pastagens de gados.
Em algumas romarias, aconteciam zaragatas quando o vinho inundava as almas. Uma vez, os mordomos colocaram os andores e as lanternas no chão, e com os paus que os suportavam investiram uns contra os outros. Assistiu-se a uma guerra tão épica como as das sagas dos franceses.
Agradeço a colaboração da Professor Conceição Viais de Condeixa-a-Nova e do Diamantino Gonçalves do Fundão, um amigo especialista na História das Invasões Francesas, que me deu por fim uma curiosa informação: “A Chanfana resultou da matança de muitos animais pelos franceses, que os colocavam em vinho durante semanas. Graças às Invasões, a Chanfana do Convento de Semide em Miranda do Corvo era das melhores do País”.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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