Entrevista a Pinharanda Gomes (1)

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Estávamos em Junho de 2011, Pinharanda Gomes recebeu-nos em sua casa, no escritório recentemente despido dos milhares de livros que cedera à Câmara Municipal do Sabugal para constituir um acervo bibliográfico que daria depois lugar ao Centro de Estudos com o seu nome. Então com 71 anos, o pensador falou-nos da sua infância, dos ascendentes e outros familiares, dos amigos e da vida dura, mas feliz, em Quadrazais. (A primeira de três partes).

Cantadeiras de Quadrazais com Pinharanda Gomes no Sabugal

Nasceu em Quadrazais a 16 de Julho de 1939, numa época difícil, pouco após o termo da guerra civil de Espanha. Que ideia conseguiu colher quanto ao modo de vida dos seus pais e da gente da raia nesse tempo?
O ano do meu nascimento é 1939, mas o dia 16 de Julho é um acto de fé meu na memória de minha mãe, porque foi ela que me disse ter vindo ao mundo nesse dia. Era verão e nesse ano minha mãe e meu pai foram mordomos do Espírito Santo, que era uma festa muito importante que se fazia em Quadrazais, e de resto em todo o País, no domingo de Pentecostes. Por essa altura minha mãe já estava com a gravidez avançada e deu-se o caso de andarem a arranjar a capela do Espírito Santo na Lameira, do lado de lá do rio Côa. Meu pai transportava telhas no carro de bois e, ao atravessar o Côa, uma vaca caiu e morreu, o que para ele foi uma tragédia. A morte da vaca criou-lhes a necessidade de arranjar uma outra, para completar a junta com que faziam a vida da lavoura. Ora, na altura, um casal novo ao ver-se confrontado com uma despesa extraordinária ficava obrigado a desfazer-se de alguns bens, pois nem toda a gente tinha o dinheiro necessário a fazer frente a um imprevisto. Foi isso mesmo que sucedeu com os meus pais, para quem os rendimentos da agricultura, de onde viviam, não chegavam para constituir fundos de reserva. Mas, voltando ao meu nascimento, embora tenha acontecido a 16 de Julho, no dia da Senhora do Carmo, numa madrugada em que houve um incêndio numa casa do Vale, a verdade é que vim a ser registado no Registo Civil como tendo nascido no dia 7 de Outubro de 1939. Isso é curioso pela coincidência mariana, porque fui registado como tendo vindo ao mundo no dia de Nossa Senhora do Rosário, que também é a do Escapulário do Carmo.

O registo das crianças algum tempo após o seu nascimento, indicando datas falsas, era algo comum?
O meu registo foi averbado a 6 de Novembro, dia em que meus pais terão ido ao Sabugal para esse efeito. Terão indicado o dia 7 de Outubro como a data do meu nascimento para evitar uma multa, que seria aplicada caso declarassem uma data com mais de um mês. Mas para além desta razão, de meu pai querer evitar a multa, poderá haver uma outra. O padrinho de baptismo também teria de ser testemunha no Registo Civil, e acontece que o meu padrinho Albino Morais, irmão de minha mãe, andava no Ribatejo, na venda ambulante, e só nessa altura terá tido ocasião de ir a Quadrazais, sendo então o momento em que me registaram. Já agora duas curiosidades: a ajudante do Registo Civil que assinou o averbamento do meu nascimento chamava-se Cristina da Purificação Veiga da Gama que, presumo eu, ainda teria alguma coisa a ver com a família do professor Alexandre Vieira, se é que não era a sua própria mulher, porque os filhos vêm a chamar-se Veiga Vieira. A outra curiosidade é o preço do registo: 11 escudos e 70 centavos, o que na época não era pouco.

E quando foi o baptismo? Era hábito baptizar as crianças logo após o nascimento, dada a elevada mortalidade infantil, sobretudo no Verão…
Isso era verdade, mas no meu caso o baptismo foi quase um ano após o nascimento, no dia 20 de Maio de 1940. Como já disse, foi meu padrinho Albino Morais Ginja, irmão de minha mãe, que era solteiro e tinha a profissão de vendedor ambulante. Embora Ginja fosse o seu nome de família, ele não tolerava que lhe chamassem Ginja – não sei se isso teve a ver com questões de heranças ou de ódios que se geraram, mas a verdade é que ele dizia insistentemente «eu não sou Ginja», «eu não sou Ginja», embora fosse de facto filho de Manuel Morais Ginja e de sua mulher Maria Luísa Rodrigues Bicheira.
Quem me baptizou foi o padre Manuel Joaquim Correia, natural de Rendo.

Que na altura era pároco de Quadrazais?
Sim, mas isso envolve um pequeno episódio, que tem a ver com a história da própria diocese da Guarda. Quem era pároco era um homem de Aldeia de Carvalho, chamado Salcedas, que era muito popular, gozando da simpatia do povo. Esse, posso até afirmar, excesso de popularidade, levou-o a ter problemas na paróquia e o bispo da Guarda, D. José Alves Matoso, por razões que se prenderão com o facto do pároco ser um homem muito liberal, ou de lhe querer cortar a rédea, resolveu mudá-lo para outra terra e colocou em Quadrazais um outro padre chamado Jorge. Isto sucedeu em 1937, mas este episódio fez com que a aldeia se dividisse. Parte da população estava com o padre Salcedas e outra parte com o padre Jorge. Os que estavam com este último eram conhecidos pelos das «direitas», por estarem do lado do bispo. Isso gerou uma situação muito desagradável, que foi terem corrido com o padre Jorge. A consequência foi que a vida paroquial em Quadrazais ficasse desorganizada durante um certo número de meses, não havendo serviço religioso, porque o Salcedas já lá não estava e o Jorge tinha medo de lá ir. Finalmente o bispo da Guarda nomeou para a paróquia um padre novo, de Rendo, de nome Manuel Joaquim Correia, que esteve em Quadrazais até ao fim da sua actividade paroquial.

Tratava-se certamente de uma paróquia difícil, não só pelo conflito de que falou, mas também por se tratar de uma terra com muita população?
Havia de facto muita gente, Quadrazais era na altura a aldeia mais populosa do concelho do Sabugal. As pessoas levavam uma vida muito dura. A maior parte trabalhava no campo, uns enquanto lavradores e proprietários, outros como assalariados. Havia ainda um grupo de pessoas, que eram negociantes ambulantes, que tinham cavalos e carroças e andavam por todo o país, voltando apenas à terra na altura da festa da Santa Eufémia, ou pelos Santos, em Novembro, ou na altura do aniversário das Almas, em Março, aproveitando para repor o seu stock de mercadorias. Mas estes, os ambulantes, eram pessoas que eu mal conhecia. Um era o Braga, outro o Saloio, também havia o Nascimento, o Cipriano. Entre eles também estava o meu avô Morais, pai de minha mãe, assim como o seu filho, o Albino Morais, meu padrinho. Estes ambulantes, quando conseguiam administrar bem o negócio tinham uma vida melhor, mas outros tinham uma vida mais difícil, como era o caso do meu padrinho Albino, que a partir do momento em que o pai morreu e ficou sozinho no Ribatejo, a fazer negócio, nunca mais se endireitou, pois passou a viver uma crise permanente e endémica. Veja lá que em 1967, vivia eu em Moscavide, ele veio do Cartaxo a ter comigo, quando ia a caminho do Montijo para uma aldeia, a ver se fazia a cobrança de coisas que já tinha vendido havia 20 anos.

Tem o nome Jesué, em vez de Josué. Houve erro no registo?
No registo civil está bem, e no registo do baptismo também, está Josué, tal qual como o nome do meu pai. Quando se tratou de tirar o bilhete de identidade no Sabugal, a pessoa que passou a certidão de nascimento cometeu erro de transcrição e no bilhete de identidade ficou o nome Jesué. Mais tarde, quando fui fazer exame de admissão para o liceu, na Guarda, o secretário do estabelecimento levantou o problema e ter na lista dos examinandos um Josué, que apresentava um bilhete de identidade onde constava o nome Jesué. Para resolver o problema tive que ir ao Sabugal, falar com o meu primo Lucas Baltazar, que era escrivão do Tribunal. Este falou com o secretário da Câmara Municipal, o Senhor Rubens, e vim de lá com uma «pública forma», em que a Câmara Municipal declarava para todos os convenientes efeitos que o Jesué era também conhecido por Josué, sendo uma e a mesma pessoa. E assim fiquei definitivamente Jesué.

Como era Quadrazais naquele tempo?
Quadrazais era uma aldeia escura, formada por casas de pedra nua, pois muito poucas eram caiadas. As ruas eram lamacentas e, no Inverno, isso era terrível, porque as pessoas aproveitavam para colocar folhadas e palha nas ruas para fazerem estrume para as terras. A água brotava de uma única fonte pública, que era uma fonte de mergulho que fora arranjada no tempo da Monarquia, em 1902. No largo da fonte faziam-se bailes e isso levantava poeira, que ia depositar-se na água, o que chegou a gerar protestos por parte de algumas pessoas. No Inverno rebentavam muitos borbotões e as pessoas aproveitavam para recolher a água, evitando ir à fonte. Porém no Verão a fonte era o único local para recolha da água para as casas, a menos para quem tivesse poço. O transporte da água da fonte para as habitações era normalmente assegurado pelas mulheres e raparigas, embora também se recorresse frequentemente ao burro equipado com as cangalhas.
(…)
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«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

2 Responses to Entrevista a Pinharanda Gomes (1)

  1. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    Chegou ontem às minhas mãos o nº 21 da Revista Nova Águia, que é dedicado a Pinharanda Gomes, onde se refere ao ” Doutoramento Honoris Causa “.

    António Emídio

  2. Augusto simão salada diz:

    À professora Cristina da Purificação Veiga da Gama , era cunhada do professor Alexandre Vieira ,esposa de José Bernardo Vieira. Élas eram duas irmãs casadas com dois irmãos , o Alexandre com uma o José com outra.

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