A Páscoa da minha infância

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Falo da Páscoa da minha infância, mas deveria antes dizer da semana santa da minha infância…

Procissão da Páscoa - Capeia Arraiana

Procissão da Páscoa

A semana começava no domingo, dito de ramos, quando, perto do meio-dia, se ia em procissão ao Senhor dos Aflitos onde os ramos de oliveira eram benzidos e distribuídos por todos.
De ramo em punho, voltava-se à igreja para a missa, missa esta que era aproveitada por nós crianças e não só, para dar uma vergastadazinhas nas orelhas dos outros, o que merecia, muitas vezes, um responso do Padre Soita em plena missa.
A quinta-feira santa começava cedo, pois era hábito irmos ver como estava a decoração das imagens do pequenos altares dos passos que os moradores de uma série de locais no Sabugal decoravam, havendo uma saudável competição para ver qual era o mais bonito.
Da Igreja da Misericórdia partiam duas procissões, uma com o Senhor dos Passos e outra com Nossa Senhora das Dores e São João Batista, três figuras belíssimas pertencentes à Santa Casa.
Na esquina do café do sr. Abílio dava-se o encontro e de um palanque elevado o «pregador» (e havia pregadores da grande nível entre os padres da diocese da Guarda), fazia o sermão do encontro, momento de elevada comoção, dizendo-se que a pregação tinha sido melhor ou pior conforme a quantidade de lágrimas vertidas.
(Ainda lembro, tantos anos passados, o sermão do Padre Vítor Feitor Pinto).
Sexta era o dia do enterro do Senhor, de que lembro, sobretudo, o padre Soita a subir numa escada apoiada na cruz e a retirar os pregos das mão e dos pés da figura de Cristo, trazendo-o para baixo nos ombros e depositando-o no esquife, a que se seguia a procissão, em silêncio e às escuras.
Desse dia lembro ainda quando a rádio (Emissora Nacional) deixava de transmitir a partir das três horas da tarde.
Por último a noite de sábado. A igreja às escuras, os altares laterais tapados com panos roxos, a lamparina de azeite extinta, e nós garotos, a lutar pela posse das matracas com que entrávamos na igreja, a que se seguia o acender da lamparina e a retirada dos panos.
Do dia de Páscoa lembro sobretudo o cabrito assado no forno com umas batatas deliciosas que eram colocadas a assar por baixo do cabrito, recebendo dele os sucos mais apreciados.

Sei que eram outros tempos, numa vila muito menos dispersa, onde todos se conheciam e, sobretudo, onde as vidas corriam a um ritmo muito mais lento.
Hoje, nas correrias da vida, muitas destas tradições estariam fora de tempo?
Não sei, até porque já assisti no Sabugal à procissão do «enterro do senhor», agora realizada pela Santa Casa da Misericórdia, e com grande participação dos sabugalenses…

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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