Histórias lisboetas (II)

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Lisboa é uma das cidades mais belas do mundo. Todos o sabemos, todos o dizemos. Existe a Lisboa turística, da Baixa, do Chiado, do castelo de São Jorge, de Belém e dos seus monumentos. E a Lisboa castiça, de Alfama, da Mouraria, da Madragoa, das casas de fado e dos botequins. E a Lisboa do Tejo, o rio sempre presente, que avistamos de todo o lado e dá à cidade uma luz rara. E existe ainda uma outra Lisboa, feita de pormenores em que poucos reparam, que inspirou pintores e poetas, músicos e romancistas: os miradouros, as escadinhas, a calçada portuguesa, os azulejos antigos e modernos… Foi esta a cidade que José Cardoso Pires descreveu num livro lindíssimo: «Lisboa – Livro de Bordo» (1998).

Miradouro da Senhora do Monte na Graça em Lisboa - Capeia Arraiana

Miradouro da Senhora do Monte na Graça em Lisboa

Eu, que calcorreio Lisboa a toda a hora, «sempre como se fosse a primeira vez» (para usar uma frase do «Porto Sentido», de Rui Veloso), fui descobrindo alguns desses pormenores, que comecei a partilhar com os leitores do Capeia Arraiana no domingo passado.

Baixo-relevo com o aperto de mão maçónico, na esquina da Rua do Amparo com a Praça da Figueira - Capeia Arraiana

Baixo-relevo com o aperto de mão maçónico, na esquina da Rua do Amparo com a Praça da Figueira

Embalagem de manteiga da casa Martins & Rebelo - Capeia Arraiana

Embalagem de manteiga da casa Martins & Rebelo

Hoje vamos deter-nos junto de um surpreendente baixo-relevo situado na esquina da Rua do Amparo com a Praça da Figueira: trata-se de um vigoroso aperto de mão maçónico, provavelmente relacionado com a Manteigaria União, da firma Martins & Rebelo, que ficava nesse mesmo quarteirão, com duas entradas, uma para a Praça da Figueira e outra para a Rua do Amparo. A Manteigaria União era uma das lojas mais bonitas da cidade, com mobiliário de qualidade e pinturas a fresco no tecto. Um dos seus principais produtos comercializados era a manteiga vendida em caixas de folha-de-flandres com o «aperto de mão» estampado. São muito frequentes as referências maçónicas na cidade de Lisboa: o aperto de mão, com o indicador colocado no pulso do companheiro cumprimentado, era um dos sinais secretos trocados entre maçons. Hoje, esta loja continua a existir, na Rua do Loreto, agora transformada em pastelaria.

Lema de Francisco Grandella, numa das fachadas do edifício dos antigos Armazéns Grandella, que Siza Vieira em boa hora decidiu preservar - Capeia Arraiana

Lema de Francisco Grandella, numa das fachadas do edifício dos antigos Armazéns Grandella,
que Siza Vieira em boa hora decidiu preservar

Em 25 de Agosto de 1988 deflagrou um dos piores incêndios de Lisboa, que destruiu boa parte dos edifícios do Chiado. Dois desses edifícios eram o dos Armazéns do Chiado e o dos Armazéns Grandella, que equivaliam ao Selfridges londrino ou às Galerias Lafayette parisienses. Os Armazéns Grandella, uma das primeiras grandes superfícies comerciais de Lisboa, abriram em 1907, por iniciativa de Francisco de Almeida Grandella, republicano e maçom. Por volta de 1910, já os Armazéns Grandella dispunham de 70 secções de venda, onde trabalhavam cerca de 500 empregados. Francisco Grandella foi, inclusivamente, pioneiro da venda por catálogo em todo o país.

Era um empresário dotado de um notável espírito cívico, com preocupações sociais muito raras em Portugal, naquela época. Isso levou-o a construir o Bairro Grandella (em Benfica), com creche e escola primária, para alojar as famílias dos seus empregados e operários. Francisco Grandella foi uma espécie de Saint-Simon ou de Robert Owen, os teóricos do socialismo utópico oitocentista. A fotografia que aqui publicamos mostra o seu lema, com a estrela maçónica e a legenda «Sempre por bom caminho e segue».

Fachada da Estação do Rossio - Capeia Arraiana

Fachada da Estação do Rossio

A partir dos reconstruídos Armazéns Grandella, descendo a Rua do Carmo e percorrendo a Rua 1.º de Dezembro, chegaremos à Estação do Rossio, originalmente designada Estação Central, que foi inaugurada em 1890. É um edifício revivalista, neo-manuelino, da autoria do arquitecto José Luís Monteiro, professor e director da Escola de Belas Artes. Não agradou a todos e um dos mais severos críticos foi Eça de Queirós que, com a sua mordacidade habitual, dizia que «a obra tem na fachada a marca do seu autor», referido-se às duas grandes portas com arcos em ferradura.

Pormenor com os medalhões da fachada da Estação do Rossio - Capeia Arraiana

Pormenor com os medalhões da fachada da Estação do Rossio

José Luís Monteiro colocou entre essas duas portas um nicho com a estátua do rei D. Sebastião (recentemente vandalizada por um turista acidental) e, mais acima, os três medalhões que podemos ver na fotografia: na parte superior, o rei D. Luís, no tempo do qual foi construída a estação; mais abaixo, do lado direito, George Stephenson, o inventor da locomotiva e, do lado esquerdo, Fontes Pereira de Melo, o ministro que introduziu os caminhos-de-ferro em Portugal.

Pedestal da estátua do rei D. José I, na Praça do Comércio, com o medalhão de Pombal - Capeia Arraiana

Pedestal da estátua do rei D. José I, na Praça do Comércio, com o medalhão de Pombal

Vamos terminar o percurso de hoje onde começámos o de domingo passado – na Praça do Comércio, mas agora olhando para a magnífica estátua que se encontra no centro daquela que é uma das mais importantes «salas de visita» de Lisboa. Como sabemos, o terramoto de 1755 destruiu toda a Baixa da cidade. O marquês de Pombal optou por reconstruir uma nova praça no local do Terreiro do Paço, situado em frente do Paço Real da Ribeira. Deve-se ao general-engenheiro Manuel da Maia e aos arquitectos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel o traçado desta belíssima praça e da nova Baixa de ruas largas e direitas. A estátua de D. José, da autoria de Machado de Castro, foi inaugurada em 1775, ainda em vida do rei. Durante muitos anos, esta maravilhosa praça foi abastardada com um parque de estacionamento. Hoje é um dos melhores locais da cidade para passear, tomar um refresco ou comer uma refeição. E, tanto a estátua como o Arco Triunfal da Rua Augusta foram limpos e restaurados. Inclusivamente, podemos subir ao topo do arco e desfrutar de uma esplêndida vista para a Baixa, o Castelo, a própria Praça do Comércio e o Tejo.

Ampliação do medalhão do marquês de Pombal - Capeia Arraiana

Ampliação do medalhão do marquês de Pombal

Observemos mais detalhadamente o pedestal da estátua equestre de D. José, onde, por baixo do brasão régio josefino, se encontra um medalhão de bronze representando o marquês de Pombal, igualmente esculpido por Machado de Castro. O que não coincide com a data da inauguração da estátua é a legenda: 12 de Outubro de 1833. Porquê?

Quando o rei morreu, em 1777, Pombal caiu em desgraça e o medalhão começou a ser vandalizado. Por ordem de D. Maria I, a Câmara resolveu então retirá-lo e guardá-lo. Só em 1833, durante a Guerra Civil, quando os Liberais conquistaram Lisboa às tropas absolutistas, o medalhão de Pombal foi recolocado na estátua de D. José, justamente em 12 de Outubro desse ano. É que os Liberais (muitos deles maçons) tinham uma grande admiração pelo Marquês (também ele maçom), a quem consideravam o grande governante modernizador do país, reformador da Universidade e repressor do conservadorismo eclesiástico, sobretudo jesuítico.

Depois do afastamento do grande governante, o povo dizia: «O marquês de Pombal fez muito bem e muito mal.» Todavia, um pouco mais tarde já o mesmo povo se lamentava: «Mal por mal, antes Pombal.»

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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