Num andarilho de memórias

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Esta semana fui até Condeixa visitar o meu irmão António Alves Fernandes. Uma viagem bem diferente daquela que ambos temos vindo a fazer ao longo desta vida em comum. Efetivamente, o local onde fui recebido, levou-me à interioridade e ao facto de que nada somos e nada seremos.

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Encontro com a família Fernandes

Aquele abraço fraterno que sempre me ligou ao António, desta vez, levou-me ao passado e a saborear o futuro. Conheço a família do António desde muito pequeno, onde seu Pai, puxava a corda do sino e ajudava a missa, onde ia com a minha mãe.

A mesa e o pão foi outro aspeto que sempre nos uniu. Desde os tempos em que o nosso Sacristão nos saciava a alma com a hóstia, até aos tempos de escuteiro onde partilhava confidências com os seus irmãos Joaquim e Francisco, até às tertúlias que temos vindo a fazer um pouco por todo o país. Aliás, quando regressei de Setúbal para a Covilhã, o António abriu aqueles braços de Cristo Rei confortando-me como um «refugiado», porque sem dúvida que aquela cidade mar consegue unir estes «cacos» estilhaçados por este mundo fora.

Desta vez o António levou-me a um novo mundo, onde a realidade e ficção se misturam, onde a saúde e a tristeza por vezes confraternizam, onde a dor e a doença revela uma realidade diferente da que estamos, provavelmente, habituados.

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Viagem com o António Alves Fernandes à cidade do Sado

Num sítio onde o minuto é o que menos importa, conheci pessoas interessantíssimas, dotadas de talento, mas que, por um motivo ou outro, sentem a irrealidade dos tempos. O António radiante, feliz, já em plena forma, vivia a crónica em tempo real querendo á viva força que fizesse o trabalho por ele. Mas nunca o poderia, porque cronista como o António não existe, e ele está pronto para relatar estes episódios interessantes de vidas bem diferentes daquelas que julgamos.

No entanto há sempre aspetos que nos prendem, que nos levam ao imaginário e uma visita como esta não nos deixa indiferentes. A escrita é um dom transversal a tantos habitantes desta casa, onde, mesmo sentido a amargura de uma vida atribulada, não deixam de revelar um sentimento nobre, muitas vezes em verso, recorrendo a uma retórica quase perfeita. E o meu imaginário levou-me para um mundo sem dinheiro, sem preconceito, sem inveja, sem estatuto onde todos e todas são quase iguais, e partilham o seu conhecimento, a sua vontade, a sua dor, através da palavra, mas escrita.

Mas o curioso, ou talvez não, é que se não fosse prosa, ou a quadra, alguns acabavam mesmo por se esquecer do que pensam ou do que querem dizer. A maldita medicação e o turbilhão de ideias, nalguns casos, são fatais!

Obviamente para que um espaço assim possa ser convidativo tem de ter profissionais á altura e, para um visitante, a organização, limpeza, arrumo e boa conservação dos edifícios e zonas envolventes, são imagens que ficam e confortam.

Não foi só a espantosa recuperação do meu irmão António que me surpreendeu e alegrou, foi o facto de existirem instituições que se dedicam a causas nobres e lutam, com sucesso, por recuperar homens e mulheres, aparentemente, sem futuro.

Sejam da Igreja Católica, como é o caso desta Casa de Saúde, sejam do Estado ou de quem for, sem este apoio médico e humanitário a nossa qualidade de vida nunca seria a mesma.

Sentindo que caminhamos para tempos difíceis, onde o envelhecimento nos enquadra, este andarilho de memórias, cheio de contrastes e emoções, ficará guardado para sempre.

Como dizem os ingleses: «God bless these people!»

Condeixa, 16 de março de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

3 Responses to Num andarilho de memórias

  1. António Alves Fernandes diz:

    Caro Irmão Escuteiro, não temos palavras(António Fernandes e Maria Manuela Fernandes), para temos palavras para exprimir o que sentimos no nosso coração. És um HOMEM repleto de humanidades e sensibilidades. Bem -hajas.

  2. Miguel António Aveiro de Sousa Santos diz:

    Obrigado António Alves Alçada. Sinto tentado a chamar-lhe irmão de coração.

  3. Miguel António Aveiro de Sousa Santos diz:

    Digo, António José Alçada. Alves também lhe fica muito bem. Como fica ao nosso amigo António Alves Fernades. A memória tem destas coisas… Abraço Fraterno. Ambos estão guardados no meu coração.

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