A outra América

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Depois de alguns meses de ausência, regresso hoje ao convívio dos leitores do «Capeia Arraiana» para reflectirmos sobre o passado e o presente desse extraordinário e paradoxal país que são os Estados Unidos da América.

Le Petit Journal - Capeia Arraiana

Capa do suplemento dominical do magazine francês «Le Petit Jounal» de 7 de Maio de 1911

Em Novembro de 2011 escrevi um artigo para este blogue que intitulei «América, América…». Permitam-me que transcreva o começo desse texto:

«O título da crónica com que hoje retomo o convívio dos leitores pedi-o emprestado a um admirável filme de Elia Kazan, que nos mostra a odisseia dos emigrantes europeus a caminho dos Estados Unidos, a nova “Terra Prometida”, onde “corria o leite e o mel”. Essa América da abundância e das grandes oportunidades, que, entre 1800 e 1990 acolheu mais de 80 milhões de imigrantes vindos de todo o mundo, incluindo muitos dos nossos antepassados raianos. Toda esta gente, somada aos que já lá se encontravam (os índios, quando os deixaram sobreviver) e aos que para lá foram levados à força (os escravos africanos), fizeram dos Estados Unidos da América o “melting pot” de que falam alguns sociólogos. Ou seja, um país onde convivem (nem sempre pacificamente) muitas e desvairadas gentes, de todas as etnias, de todos os credos e de todas as proveniências.»

Entretanto, muita água correu debaixo das pontes. O presidente que fora eleito no começo do milénio, George W. Bush, de uma mediocridade impressionante, enfrentou em 2001 o tremendo atentado do World Trade Center, ao qual respondeu com duas guerras: a do Afeganistão e a do Iraque. Bem diferente, para muito melhor, seria a presidência de Barack Obama, cuja eleição, em 2008, abriu perspectivas e horizontes de grande alcance, nos EUA e no mundo. Nem sempre se cumpriram todas as expectativas mas foram dois mandatos que nos permitiram renovar a admiração por um extraordinário país, democrático, criativo e inovador.

Em contrapartida, a eleição do actual presidente, Donald Trump, provocou, na maior parte dos países do mundo, ondas de estupefacção. Como era possível o país mais poderoso e desenvolvido do planeta escolher um presidente inculto e impreparado? Era não só possível como historicamente «explicável». Vejamos alguns aspectos da História desse país relativamente «recente» (a Declaração de Independência dos EUA data de apenas 1776, época em que Portugal já contava mais de seis séculos).

Os Estados Unidos da América tiveram uma formação «violenta»: uma Guerra da Independência contra a Inglaterra; um lento e difícil processo de expansão territorial contra o vizinho mexicano; uma sangrenta conquista e colonização dos territórios do «Faroeste», que nos habituámos a ver nos «filmes de cowboys», que quase exterminou a população índia; uma Guerra Civil que opôs o Norte industrializado e liberal ao Sul agrícola, racista e escravagista, que vitimou cerca de um milhão de americanos, entre mortos e feridos.

No século XIX, duas revoluções industriais transformaram rapidamente esse país numa potência económica pujante. No século XX, quando a Europa tentava dois suicídios colectivos, com duas guerras mortíferas e destruidoras, os Estados Unidos vieram socorrê-la. E, a partir de 1919, tornaram-se o principal centro financeiro e industrial do mundo. Depois da vitória na II Guerra Mundial, em 1945, generosamente (embora também interesseiramente), os EUA disponibilizaram milhões de dólares aos países europeus, através do Plano Marshall.

No pós-guerra tornaram-se a superpotência nuclear e termonuclear que conhecemos, enfrentaram e venceram a União Soviética numa longa Guerra Fria e envolveram-se em conflitos locais de onde sairam malferidos (Guerra da Coreia, Guerra do Vietname, etc.). Mas foram também o país com mais prémios Nobel, com as melhores universidades e os mais prestigiados centros de investigação científica do mundo. Foram à Lua e colonizaram o planeta com o seu cinema, a sua música, as redes sociais, a McDonald’s, a Coca-Cola, a Microsoft, a Apple, a Google, etc. etc. E tornaram o inglês a língua universal.

E o outro lado da América? É a América que continua tão racista como a do século XIX e que, mesmo após a libertação dos escravos, os segregou e violentou com a Ku-Klux-Klan; a América onde Martin Luther King lutou pelos direitos cívicos e políticos do seu povo e morreu assassinado; a América dos Estados conservadores, retrógrados, ignorantes, radicais religiosos, onde apenas é permitido ensinar o criacionismo e o darwinismo é proibido; a América que matou o presidente John Kennedy e, pouco depois, matou também o irmão, Robert Kennedy; a América dos WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), dos «supremacistas brancos» e dos neonazis; a América onde existem 320 milhões de armas de fogo nas mãos de civis (mais armas que habitantes); e, por consequência, a América dos tiroteios e dos massacres em escolas e igrejas; e também a América que não soube adaptar-se à globalização que ela própria provocou e tem hoje dezenas de minas e de fábricas desactivadas. Foi sobretudo essa América que elegeu Donald Trump.

Este texto vai ilustrado com uma imagem impressionante. Trata-se da capa do suplemento dominical de um jornal francês muito popular no final do século XIX e na primeira metade do século XX, Le Petit Journal, editado entre 1863 e 1944. Normalmente, este magazine destacava, nestas imagens a cores, acontecimentos políticos ou sociais de relevo, conflitos militares, grandes catástrofes, assassinatos, acidentes, etc. (por exemplo, num exemplar de 16 de Fevereiro de 1908, ilustra-se o regicídio em Portugal). A imagem aqui reproduzida, datada de 7 de Maio de 1911, é um excelente exemplo de fonte histórica que retrata cruelmente aquilo que, no começo do século XX, caracterizava a sociedade americana, sobretudo no sul dos EUA. Mostra-nos um negro a ser linchado em pleno palco de um teatro, com os espectadores a dispararem livremente sobre o desgraçado a partir da plateia. Uma cena horripilante.

Alguns leitores dirão que se trata de um caso com mais de um século, um comportamento ocorrido num passado muito distante. Todavia, factos como este ou outros semelhantes persistiram até aos nossos dias (vejam-se os recentes acontecimentos de Charlottesville e do liceu de Parkland, na Florida). É paradigmático que o próprio Donald Trump, em 2012, tenha «garantido» num dos seus obsessivos tweets que o presidente Obama não era americano mas queniano e que a sua certidão de nascimento era «uma fraude». Ou a sua proposta para a «resolução» do problema dos massacres nas escolas: armar os professores, transformando-os em «sheriffs pedagógicos«.

Como dizia Marc Bloch, a História estuda as sociedades do passado para nos ajudar a compreender as sociedades do presente. A minha colaboração neste blogue, ao longo de quase uma década, tem tido esse objectivo.

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

2 Responses to A outra América

  1. Nelson Farias diz:

    Depois de ler este apontamento que nos ajuda a compreender os Estados Unidos da América, pela minha parte resta-me incentivar o Professor Adérito Tavares a continuar a partilhar os seus conhecimentos.

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssimo Amigo Eng. Nelson Farias
      Obrigado pelas suas palavras. Para além de várias crónicas relativas às tradições e à cultura raiana e ribacudense em geral, tenho procurado colaborar no blogue “Capeia Arraiana” com alguns texto de divulgação histórica, sobretudo daquilo a que os franceses chamam a “petite histoire”. Continuarei, como dizem os nossos vizinhos castelhanos acerca das corridas de touros, “si el tiempo lo permite y con permiso de la Autoridad”.
      Adérito Tavares

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