Casteleiro – Os cheiros da aldeia há 60 anos…

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Os cheiros na aldeia – em qualquer aldeia de Portugal, tenho a certeza –, naqueles anos 50 e 60, são um elemento definidor de ambientes e de vivências. E marcam para toda a vida. Quero recordar tudo isto com o leitor bairrista como eu.

Rua Principal do Casteleiro - Capeia Arraiana

Rua Principal do Casteleiro

Os cheiros da minha aldeia

Na aldeia da minha infância, há cheiros bons, inesquecivelmente bons, que, de facto, me ficaram para toda a vida. Exemplos: o do micro-ambiente da tarimba, de que falarei adiante, ou o dos lençóis de linho fino e puro.
E há cheiros maus. Hoje vejo-os, imagino-os, de certeza, piores do que os sentia na altura: o cheiro terá uma dimensão cultural?
Pois: de facto, como é possível que na altura não dimensionasse como péssimo o cheiro geral de uma aldeia sem saneamento? E onde os currais (pocilgas) ficam mesmo dentro da aldeia, praticamente dentro das casas – quando não era mesmo dentro delas, nas lojas? E, no entanto, por mais esforço que faça, não «sinto» que, na altura, tenha sentido como péssimo esse ambiente «odórico». Se calhar, na altura, isso parecia-me inevitavelmente normal para a situação.
Mas era assim.
O saneamento, com a construção de fossas, começou nos anos 60. E só muito depois chegaram os esgotos.
Já agora: a luz eléctrica chegou à aldeia em 1955 ou 56, creio.
A água canalizada, em 60 e tal.
A televisão, talvez em 1960.

Pata de uma vaca - Capeia Arraiana

Pata de uma vaca

Bons cheiros: cheirinhos para uma vida!

Há cheiros bons. E é mais desses que me apetece falar aqui.
Por exemplo, repito, o da tarimba. Sabe o que é a tarimba? Não sabe o que perde.
É a cama onde se dorme na palheira das vacas – ou seja: no estábulo. Logo à entrada, lá estava, à esquerda, essa tal «tarimba». As vacas e a burra, ao longo da manjedoura, do lado direito, a todo o comprimento do estábulo.
Cheirava a palha e cheirava a feno.
Por cima, o «parame»: o sótão onde se guardava para o Inverno a comida para o gado: imagens eternas, estas da minha infância…
Quem estiver a ler, e desconheça estas realidades, está a pensar – e bem:
– Grandes porcos! Então punham o garoto a dormir no estábulo?
É verdade. E nem imagina que bom que era. Nada ali cheirava só ao que você pensa que cheira um «estábulo». Mas devia cheirar «mal», claro, pelo menos pelos parâmetros de 2011. Tudo cheirava intensamente e a mistura dava um cheiro bom. O bafo das vacas e a sua baba ia caindo na palha seca e davam aquele odorzinho especial…
Os meus tios acolhiam-me nesta tarimba sempre como se fosse uma festa. Lembro-me tão bem.
Quando a minha mãe me deixava, o que era raro, lá estava eu caído na «tarimba».
Ficou até hoje essa sensação de céu na terra.
Quis concentrar-me e fazer um grande esforço para descrever este cheirinho da «tarimba». Mas não é fácil. Ficam-lhe aí os elementos todos: imagine-o você – como diz o Poeta…

… E o cheiro da «bobrais»?

É que a isto tudo juntava-se outro cheiro tão bom! Era o cheirinho da «bobrais».
A palavra certa será aboboragem»? Não sei explicar nem se existe a palavra nem de onde vem nem como se escreverá de facto. Mas não me enganarei muito se pensar que vem de abóbora.
Mas eu explico o que é a «bobrais»: é o preparado especial de comida para os animais de grande porte: as vacas e a burra, no caso. É feita ao lume – o caldeiro (balde) grande pendurado nas cadeias, uma espécie de trança feita de arame grosso, que desce do tecto e vem até ao lume.
É nas cadeias que se penduram as vasilhas em que se aquecem coisas como água e comida para o «vivo» (o gado).
Pois a «bobrais» é uma mistura de produtos da terra e farelo que vai cozendo em água a ferver e dá aquele cheiro inesquecível também…
Leva nabos, couves, batatas, abóbora (cá está: a abóbora que deve ter dado a «aboboragem – e daí até à bobrais é apenas um passo de elipses populares do linguajar desenrascado deste povo. Mas ninguém sequer chamava abóbora à coisa. Era só a «botelha», claro). Mas havia mais: a «bobrais» também levava ainda maçãs e farelo, pelo menos. Portanto um alimento muito rico para os animais. Aquilo é que era agro-pecuária biológica, hein! E o cheirinho? Huuummm!! Que bom!
Finalmente, outro cheiro bom: o dos lençóis de linho que, no inverno, ao entrar na cama eram frios como gelo, mas, passados cinco minutos… «hummmm!», que bom – e que cheirinho!
Só lhe digo: não há cheiro nenhum de hoje que possa apagar estas reminiscências da nossa infância.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

2 Responses to Casteleiro – Os cheiros da aldeia há 60 anos…

  1. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    obrigado por me fazer voltar à minha infância, na qual eu, quando ia à minha aldeia dormia com o meu Avô materno no “palheiro” numa cama em que o colchão eram 2 faixas de palha. Nela, antes de adormecer, Ele contava-me factos ocorridos na 1ª Grande Guerra durante a sua estadia em França na guerra das trincheiras. Tempos inesquecíveis que nunca desaparecerão da minha memória.

  2. Josecarlos Mendes diz:

    E o cheirinho do palheiro (na minha aldeia dizemos que é a palheira)? Também era assim como aquele que eu recordo????
    Abraço.

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