O João Troncho

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Por ser meio-irmão de outros filhos do casal, sentiu-se sempre posto de lado. Trabalhar não era muito do seu jeito, pelo que enveredou por negócios ilícitos de contrabando, não tivesse ele no sangue esse modo de vida do quadrazenho. Não seria, certamente, a primeira vez que transportara tabaco ou outros produtos para Espanha. Desta vez, porém, quis arriscar mais…

Raia Sabugalense entre Aldeia do Bispo e NavasFrias - Capeia Arraiana

Raia Sabugalense entre Aldeia do Bispo, Fóios e NavasFrias

Com uma camioneta ou carrinha dele, alugada, ou de algum amigo ou sócio no negócio, transportou grande quantidade de maços de tabaco americano para Espanha, com o sonho de ficar rico de uma só vez.

Foi apanhado em Espanha. Foi preso e a camioneta (carrinha) ficou apreendida. Num segundo desfez-se o sonho e sentiu-se sem nada e com o encargo de pagar a camioneta (carrinha) e, talvez, de ter de haver-se com o amigo ou sócio. Acalmou, pensando que outros quadrazenhos já se haviam encontrado na mesma situação, ainda que, em vez de camioneta, lhes tivessem apreendido cavalos. Sentiu-se um pouco mais confortado. Mas, pensando melhor, a sua situação era bem pior pela quantidade de valores envolvidos. Que era um cavalo?! A sua camioneta (carrinha) valia mais que 40 ou 50 cavalos. Lembrou-se então do Zé Borrega que, tendo-lhe sido apreendido um valente cavalo, os genros tinham espreitado o lugar onde o cavalo pastava, ali para os lados da Ginestosa, e conseguiram, certa noite, retirá-lo de lá e trazê-lo para casa. Não era também da Ginestosa que os quadrazenhos e outros raianos roubavam os toiros que correriam nas suas terras, devolvendo-os depois ao caminho que os levaria às pastagens donde haviam sido retirados? Não sei se chegou a dormir alguma noite na cadeia. Apanhando os carabineiros distraídos, num ai se escapuliu e ó pernas para que vos quero! A Marvana e suas veredas conhecia-as ele melhor que os carabineiros. Quando estes se deram conta da fuga, onde já iria o João Troncho!

Mas era preciso sacar a camioneta (carrinha). Onde estaria ela? Certamente, não a teriam levado para Salamanca ou Cáceres! Não deveria estar longe do local onde fora apreendida.
Felizmente para ele, o amigo ou sócio tinha um duplicado da chave. Qual coelho bravo, embrenha-se nos matagais de giestas e urzes a caminho de Navas Frias, onde chega alta madrugada. Era dar o tudo ou nada.

Qual criminoso que volta sempre ao local do crime, aí vai ele cosido às paredes e varrendo as ruas com os olhos à direita e à esquerda, não fosse aparecer algum carabineiro ou mesmo qualquer pessoa que lhe estragasse os planos. Lobriga a camioneta (carrinha) não longe donde havia sido preso. O coração deu-lhe dois pulos no peito, alvoroçado pela alegria de poder recuperar tudo. Tudo não. Onde estaria já o tabaco? Chegou-se à camioneta (carrinha), de mansinho, mete a chave no local próprio, dá-lhe meia volta e eis que o motor ronrona. Nem vê se o tabaco ainda lá está. É preciso desaparecer a toda a pressa. Sai de Navas Frias, vira à esquerda, mas não pela estrada que leva a Aldeia do Bispo, ainda que aí, já em terras portuguesas, o perigo de ser apanhado seria menor. Lembra-se que poderia ainda ter o tabaco na carga e não hesita em apanhar o caminho pelo matagal que o havia de levar até cerca dos Fóios. Só chegado aí, já livre de ser levado novamente para Espanha, se lembra de ir revistar a carga. Não estava toda, mas ainda tinha carga suficiente para, não ficando rico, ainda dar para pagar 2 cargas. Dupla alegria lhe invadiu a alma. Já estava em terras de Portugal e tinha recuperado boa parte da carga.

Que diabo! Em Portugal, ainda que preso, sempre se sentiria melhor! A carga haveria de arranjar maneira de por uma ou por várias vezes a introduzir em Espanha. Talvez fosse melhor dividi-la em carregos e utilizar carregadores que a transportariam de autocarro de passageiros. Algum santo o haveria de ajudar! Lembrou-se então de invocar a Srª Sant’Ófêmia. Dar-lhe-ia uma vela do seu tamanho e da grossura do seu braço, no dia da festa que se avizinhava – prometeu. E cumpriu, pois tudo lhe correu de feição. Mas prometeu que, tão depressa não voltaria a Espanha. Teria de arranjar outro ofício. Talvez fosse melhor emigrar para França…

Bem, era melhor ir beber um copo ao Candajo. Ainda tinha tempo de pensar nisso. Restava-lhe dinheiro suficiente para viver um mês. Cada coisa de sua vez!

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

One Response to O João Troncho

  1. MARIA CORREIA SALADA diz:

    Gostaria de saber de onde detem esta informaçao.
    Maria Correia

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