Contos e recantos

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

O tempo não perdoa, de facto. Não poupa sonhos nem ilusões. A sua impetuosa passagem sugere uma voraz corrente de rio. Apenas algumas lembranças se opõem a tão consternado percurso. Há recordações que, em cada presente, conseguem pairar na tona do tempo.

Lembranças da vida na aldeia

Há décadas atrás, sendo eu um catraio de tenra idade, qualquer lugar me propiciava brincadeira. Corria, saltitava, ria transbordantemente como se pudesse parar o tempo. O mais difícil era conter a energia, era reter a felicidade. Assim vivia, uma após outra, as doces ilusões da minha infância.
Nessa época já o meu avô Alfredo era velho. Tinha um rosto flácido e enrugado e o seu sorriso franco afundava-se-lhe numa boca pequena de onde lhe saiam constantes impos de cansaço. Deslocava-se em passos trôpegos que lhe exigiam o arrimo de uma bengala. Iniciava a marcha inclinando-se para a frente e terminava, sempre, puxando o corpo para trás como se travasse bruscamente. Para ele os dias eram quietos e lentos e eu não percebia tamanha calma letárgica. Era cedo demais para entender as debilidades físicas de uma vida envelhecida.
Mas eu gostava muito do meu avô. Achava-o simpático e adorava escutar-lhe histórias.
O meu pai saía, logo pela manhã, em trabalho. Minha mãe confiava-me ao meu avô quando os afazeres dela assim o exigiam. Portanto, em dias solarengos, ambos passávamos varias horas acomodados nos recantos da aldeia. Ele sentava-se numa escada, ou encostava-se a uma parede, enfim, em remansos repetidos, assistia à passagem dos dias. Eu somava traquinices e, desde o principio desses momentos a dois, os avisos dele sucediam-se em catadupa:
– Está quedo rapaz. Olha que te magoas. Arre dialho. Este garoto não para um bocadinho.
De facto não havia aviso que me travasse. Subia e descia escadas. Escalava moreias de lenha. Calculava o alcance das pedras quando as lançava, obliquamente, aos pássaros. Chamava e sepegava cães, perseguia gatos e enxotava galinhas. Mas, na verdade, nunca me afastava demasiado do meu avô porque a sua presença era, para mim, verdadeira proteção.
A única estratégia que ele conhecia para me fazer sessar a agitação era contar-me um conto. Mal ouvia “era uma vez” logo se me descaia o queixo e se me abria a boca, logo apurava o ouvido, logo procurava assento para escutar e, perante a minha expetativa, meu avô tratava de engendrar uma história.
Naquela longínqua manhã de primavera após uma imensidade de advertências repetidamente ignoradas só um conto poderia ser solução e, por isso, ele convidou-me:
– Anda cá rapaz. Senta-te aqui ao pé de mim que eu te conto uma história.
Ambos nos instalámos, um ao lado do outro. Os olhos dele advertiam-me de que já procurava um tema. Então começou:
– Era uma vez…
Eu já era todo ouvidos e ele continuou:
– Era uma vez uma vaca castanha. Mas não era igual às outras. Entre os chifres tinha uma marrafa linda de morrer. Era uma vaca muito, muito bonita. Conhecia muito bem o dono e o caminho para o lameiro. Era tão inteligente, tão esperta que…
E, agora, nada lhe ocorria sobre a esperteza da vaca vendo-se obrigado a fabulizar:
– Era uma vaca que até falava!
– Falava?! A sério? E então o que é que vaca dizia?
– Muuuuuuuu.
De facto a surpresa paralisou-me. Mas, após curtos instantes, caído em mim, parti que nem seta batendo palmas a duas pombas que poisavam.
:: ::
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

4 Responses to Contos e recantos

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Quem por aqui viveu a sua infância, tem sempre histórias relacionadas com os animais que ajudavam o homem nos trabalhos dos campo. Eu, certo dia, meu avô convidou-me para ir com ele levar as vacas ao lameiro, e deixar-me lá ficar a tarde guardando-as. Aceitei, e lá fiquei, não a tarde, mas simplesmente nem meia hora!! Fartei-me por que eu era assim uma espécie de criança hiperactiva, e como meu avô me tinha deixado uma enorme vara com um ferrão na ponta, para o que fosse preciso, comecei a picar nos animais para irmos embora, mas o que eles tinham era fome, sair do lameiro saíram, mas não se dirigiram para casa, saltaram um muro baixo e entraram num campo de milho, que não era de meu avô. Fizeram uma razia…
    E agora como é ? O neto entrega ao avô um telemóvel e diz-lhe : Se houver algum problema, carregas nestes botões, eu atendo e tu dizes o que se passa Ok ! Mudam-se os tempos…

    António Emídio

  2. Irene Bernardo diz:

    Achei adorável! Obrigada Fernando.

Deixar uma resposta