Eduardo Sucena – In Memoriam

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Transcrevemos a comunicação feita por José Leitão Baptista no Museu Arqueológico do Carmo (em Lisboa) no dia 6 de Maio de 2017, no Colóquio «Esta Lisboa que eu Amo… Homenagem a Eduardo Sucena», por iniciativa da Comissão de Estudos Olisiponenses – Associação dos Arqueólogos Portugueses.

José Leitão Baptista no Museu Arqueológico do Carmo

No rito dos passos, em pedras polidas, marcas que possam ser lidas
In memoriam de Eduardo Sucena

Conheci Eduardo Sucena, escritor natural da Guarda, através do poeta Fernando Pinto Ribeiro, seu conterrâneo e amigo, irmanados ambos em objectivos e interesses culturais comuns.
Relembro os momentos de convívio em tertúlias que reuniam amigos de semelhantes vocações, como o coronel Carlos Silva Ribeiro, desenhador que bastas vezes ilustrou poemas do seu irmão poeta e de outros autores e acompanhante assíduo de programas em que nos envolvíamos ou eventos culturais para que éramos convocados; Leonel Lourenço, fotógrafo conceituado em cujo estúdio posaram para a sua objectiva nomes grandes do fado e da cultura; Ilídio da Fonseca Matos, natural da Guarda, agente editorial em Portugal de autores internacionais de renome, entre eles vários prémios Nobel, em representação de várias agências estrangeiras de direitos de autor. Pontuavam de quando em vez poetas, artistas, cantores, convocados por algum dos elementos mais assíduos. Esporadicamente combinávamos almoços que ocorriam em várias zonas da cidade, de que são exemplo a Esquina da Fé, o Pote, o Possolo e outros em que a conversa perdurava por tempo mais dilatado.
Com o desaparecimento de uns e ausência de outros por circunstâncias variadas, mantive com Eduardo Sucena e Carlos Silva Ribeiro o propósito de darmos continuidade a esses encontros, o que veio a acontecer em diversas ocasiões.
Quando aguardávamos o restabelecimento e disponibilidade de Eduardo Sucena para que um novo encontro se proporcionasse, fomos surpreendidos de forma inesperada com o seu falecimento.

Tomei por título desta comunicação, em modo de homenagem, o verso de um poema dedicado a Arnaldo Ferreira, o pintor da Lisboa nocturna. Estranhando eu a longa ausência dessa personagem que deambulava em passos largos por algumas zonas da baixa de Lisboa, vestido a rigor, vociferando os seus desabafos, Eduardo Sucena informou-me que o pintor já tinha falecido. Acto contínuo narrou-me o episódio da sua tentativa de aquisição para os Amigos de Lisboa de uma obra deste artista, junto do mesmo, frustrada devido ao preço elevado da sua cotação.
Na sequência da notícia que esclarecia o seu desaparecimento, evoquei dias depois a memória do pintor num poema intitulado “Arnaldo Pintor em toada sonâmbula”, procurando nele interpretar sinais de conjugação dos seus passos na calçada de Lisboa com uma possível interpretação da sua pintura.
Para o título daí resultante, “No rito dos passos, em pedras polidas, marcas que possam ser lidas” estabeleço um elo de ligação com Eduardo Sucena num outro poema a ele dedicado e que tem por título “Cidade-Desejo”:

Mitigo a sede nos passos
De subidas e descidas

Vagueio e sondo os espaços
Nos enredos de avenidas

Mastigo o sol de Lisboa
Vou de colina em colina

Trilho caminhos à toa
Que a liberdade ilumina

Mendigo tonto de luz
Esta Cidade-Desejo

Abraço aos braços em cruz
O corpo em fogo do Tejo.

Eduardo Sucena

Do salutar convívio mantido com Eduardo Sucena em grupo de amigos, convoco desta vez a sua necessária companhia para que em tom de conversa amena caminhemos a dois num hipotético percurso das Portas de Santo Antão até ao Beato, na zona oriental de Lisboa. Recordarei lugares comuns de passagem com alguns esclarecimentos que o escritor me proporcionou, ordenando assim as peças de um puzzle numa vivência possível que denote o seu sábio conhecimento transmitido ao companheiro de jornada.
Toquemos pois ao de leve em alguns factos e ocorrências que o passeio irá proporcionar.

Voltados para o Palácio da Independência, Eduardo Sucena informa-me que o mesmo era propriedade de D. Antão de Almada e aí se reuniam os conjurados que em 1640 puseram fim ao domínio espanhol dos Filipes. Diz-me também que a defenestração de Miguel de Vasconcelos não ocorrera neste edifício, como por vezes consta, mas sim no Paço da Ribeira. O imponente Teatro de D. Maria II fora erguido onde outrora se situava o Palácio dos Estaus, sede da Inquisição. Espreitamos as paredes interiores da Igreja de São Domingos, com marcas de um incêndio ocorrido em meados do século XX, que muita gente confunde com estragos relacionados com o terremoto de 1755.
Na Praça da Figueira, isso sim, o terremoto destruiu por completo o Hospital de Todos os Santos. Aqui o meu mestre e companheiro detém-me para que observe a estátua equestre de D. João I, monumento já do nosso tempo. Diz-me para reparar na forma como o rei monta à estardiota, modo peculiar que distingue os militares dos cavaleiros tauromáquicos e frequentadores de hipódromos e provas de hipismo, que de pernas flectidas pelos joelhos, montam à gineta. O rei surge de pernas esticadas, assentando os pés em estribos baixos que lhe facultem a posição de se erguer em base de sustentação sólida no manuseamento da espada.
Na Rua da Prata espreitamos no Martinho o lugar permanentemente reservado a Fernando Pessoa (acrescido hoje de dois lugares igualmente reservados que homenageiam José Saramago e Manoel de Oliveira). Estamos já no Terreiro do Paço, onde posso confirmar realmente na estátua de D. José a forma peculiar de montar à estardiota. Nesta extraordinária Praça do Comércio, cartão-de-visita da cidade de Lisboa, cito ao meu guia e companheiro um excerto irónico de uma “Crónica de Olisipos – Tagus I”: “Não existe já a formação ordenada da soldadesca na praça cartesiana (quadrícula gizada no solo) nem o aparatoso desfile se desenvolve frente ao palanque de galões e dragonas. Havia condecorações a título póstumo, heróis garbosos e lágrimas incontidas. Recitavam Camões e patriotas. As festividades solenes do dia da pátria lusa eram agora anunciadas com corridas de atletas e jogos de bola…” Suspendo a citação, pois no semblante do meu interlocutor noto alguma discordância nesta forma de abordagem. Sei quanto ele preza os valores morais e o patriotismo faz parte da sua intransigência ideológica. Tartamudeio e embarga-se-me a voz perante a inusitada ocorrência. Salva-me o mestre companheiro, que, ultrapassando o momento menos feliz, transfere o diálogo para o significado das duas colunas fustigadas pela água do Tejo, aludindo ao Acto Colonial.
No Campo das Cebolas, fico a saber que a Casa dos Bicos fora propriedade de um filho de Afonso de Albuquerque.
A curiosidade completa-se no Chafariz d’el Rei, do século XIV. Sou informado de que desavenças e brigas constantes levaram a definir a utilização das múltiplas bicas por estratos sociais determinados: uma para negros, outra para mouros, outra para raparigas brancas, outra para índios, serviçais, gente das galés…
Alfama nos espera, um local de excelência do fado. Passamos junto do Museu cuja história envolve Eduardo Sucena, vítima de uma ingratidão que na ocasião o deixou com alguma mágoa, pois estivera na sua génese mediante proposta que fizera ao então presidente da câmara Nuno Krus Abecasis. Sabendo que sou conhecedor do assunto, conduz-me para outro motivo de conversa, a cerca moura, assim designada a muralha antiga de Lisboa.
Passamos Santa Apolónia e a frente ribeirinha de gruas e contentores, o mar da palha, o trabalho vagaroso dos portos.
O Palácio da Mitra é um lugar especial para Eduardo Sucena. Ali estiveram sediados os Amigos de Lisboa. Fala-me da mágoa de serem desalojados deste lugar nobre de tão gratas recordações.
É imperioso determo-nos mais adiante no Convento dos Grilos, junto à igreja do Beato. O meu guia e interlocutor diz-me ter havido ali dois conventos: o dos grilos e o das grilas, este outrora situado nas instalações actualmente pertença da Manutenção Militar. E grilos assim designados por usarem hábito negro com capuz, embora a ordem professa fosse a dos Agostinhos Descalços.
No Beato a corporação de bombeiros do mesmo nome alinha as suas viaturas ao ar livre, misturadas com carros particulares que aí procuram lugar para estacionar. Com instalações exíguas desadequadas para o exercício da sua actividade (Eduardo Sucena garante-me que se trata da associação de bombeiros mais antiga de Lisboa), pasma-se com a ausência de um quartel e garagem apropriada.
No Convento do Beato a minha pergunta é pertinente: “Eduardo Sucena, quem era afinal este beato?” A resposta vem logo de seguida: “Trata-se de frei António da Conceição, personalidade que com exíguos recursos resultantes de esmolas empreendeu o desenvolvimento do convento da sua congregação e foi muito estimado pelo povo, que passou a qualificá-lo de Beato.” Assim mesmo, num grande poder de síntese, proporciona-me com esta informação breve a descrição de uma história longa.
O nosso périplo termina ao lusco-fusco quando nos esgueiramos por uma rua escondida que nos conduz ao restaurante da Tia Rosa, um ambiente pejado de alfaias antigas no tecto e nas paredes, figurando em lugar de relevo uma fotografia da proprietária fundadora. É noite de fado. A sala está cheia para que após o jantar o grupo usual de fadistas cumpra o seu programa. É noite de caldo-verde, canjirões de tinto e sardinha assada. Em lugar mais recôndito, propositadamente escolhido pelo mestre para que a sua presença não contribua para alterações não programadas, brindamos à velha amizade.
No silêncio possível que o momento exige e enquanto os fadistas se revezam anunciados pelo apresentador que pronunciou os nomes dos dois guitarristas de serviço, vou recebendo de Eduardo Sucena notas referenciais de quem canta, antecipando-me o nome dos fadistas, gente que convivera com Fernando Maurício, e qualificando os tipos de fado que vão ocorrendo, o franklin, o carriche, o maria vitória, o marceneiro, o magala, o pinóia…
No final, o apresentador pergunta se na audiência está algum fadista amador que queira cantar. Lobriga então na posição distante em que nos encontramos, o autor de “Lisboa, o Fado e os Fadistas”. Dirige-se para nós e pede a Eduardo Sucena que o acompanhe até junto dos guitarristas. Seguem–se cumprimentos e abraços, agradecimentos pela sua presença e a assistência levanta-se para uma prolongada salva de palmas.

Numa viagem que ambos fizemos ao Sabugal (distrito da Guarda, sua terra de origem) para assistirmos à inauguração de um núcleo bibliotecário dedicado ao filósofo Pinharanda Gomes, Eduardo Sucena fala-me de uma povoação chamada Rocamador, onde há muitos anos estivera e mantinha o desejo de voltar para poder confirmar a hipotética presença de indícios de um lugar de culto e pousada de peregrinos que cumpriam o Caminho de Santiago. O lugar bailava-lhe na mente, aludindo à similitude dos nomes locais Rocamador e Rocamonde, ambos no distrito da Guarda. Acompanha-nos João Bigotte Chorão e Maria José Mexia.
O lugarejo visitado, hoje incaracterístico, parece votado ao abandono. Não se via vivalma. A vegetação agreste crescera e por certo escondera vestígios que o escritor ali localizara.
Procuro atenuar essa frustração sugerindo uma visita a Caria Atalaia, nas proximidades. Chegamos ao cabeço do Alto da Senhora das Preces na margem direita do Coa e nova frustração se nos depara. Nesse lugar pitoresco, somente uma capela restaurada. Nada de escavações que nos remetessem a um lugar histórico que se diz ali ter existido.
Vamos redimir-nos numa passagem por Sortelha, intramuros, com as casas de granito conservando a traça primitiva, uma muralha bem definida neste lugar ermo erguido sobre um maciço granítico que lhe confere uma natureza singular.
Já apaziguados, prosseguimos o nosso roteiro indefinido. Sinto que Eduardo Sucena se revela agora reconfortado, após a frustração de não poder dar sequência a uma investigação que queria completar sobre Rocamador.

A sua última obra, “A Guarda, a minha montanha mágica”, foi lançada postumamente na sua cidade natal, na Biblioteca Eduardo Lourenço. A “montanha mágica” remete-me para Hans Castorp, protagonista da ficção de Thomas Mann, convalescendo num sanatório dos Alpes suíços. Também a Guarda tinha o famoso Sanatório Sousa Martins, procurado por gente de todas as latitudes para curar as suas enfermidades nos bons ares da cidade.
Contou-me Eduardo Sucena que na sua juventude se deslocava a um chalet do sanatório onde podia exercitar o seu francês com um indivíduo estrangeiro com quem gostava de conversar. Sem se dar conta da passagem do tempo, sucedeu que um dia ao sair do chalet já de noite, se confrontou com uma situação inusitada. A matilha de cães de guarda era solta durante a noite, rondando a cerca, para que gente estranha não entrasse nas instalações. Receoso, avançou com cautela, mas com grande espanto notou que a matilha se perfilava à sua passagem e acompanhou-o como guarda de honra até à saída. O acontecimento deixou-o à vontade para que em ocasiões posteriores pudesse prolongar o diálogo com o residente do chalet que com o tempo lhe recomendara a leitura de romancistas franceses na sua língua original.

Da sua última obra, retiro palavras gratificantes de Pinharanda Gomes:

Estava em vias de, finalmente, publicar o seu testamento espiritual a favor da Guarda quando, poucas semanas antes, já o livro do testamento se achava impresso e a data de apresentação na Guarda já marcada para o dia 17 de Fevereiro deste ano, a irmã morte o surpreendeu. Em todo o caso, a apresentação foi levada a efeito, tendo sido orador o amigo Dr. J. A. Alves Ambrósio, que teve a gentileza de me facultar o texto, melhor, o impressionante testemunho de vida e de cultura que leria naquela data. Já obtive o livro A Guarda, a minha Montanha Mágica (Ed. Veja, 2016). O volume tem duas partes, na primeira sobressaindo As memórias sobre a paisagem social e urbana da Guarda nos meados do século XX. Na segunda parte, eleva-se o brilhante ensaio acerca do homem e escritor que foi Nuno de Montemor. Há outros temas, mas estes foram os que mais nos interessaram. De Nuno de Montemor releva um conhecimento rigoroso e afectivo, que depende da leitura dos livros e do conhecimento pessoal. Entre as novidades esclarece que Nuno de Montemor de facto não esteve em França como capelão na I Guerra, e revela a entrega do seu espólio ao lactário Dr. Proença da Guarda, sugerindo que este fosse transformado num centro de estudos da obra do escritor. A descrição da Guarda, rua por rua, casas mais importantes uma a uma, as tertúlias, os cafés, as actividades económicas, as escolas, os professores, os médicos, os padres, as figuras típicas, enfim, um mundo de cor e de estuante seiva…
Tudo muito bonito nesta pintura de Sucena.

Na impossibilidade de estar presente num colóquio de homenagem ao escritor Nuno de Montemor levado a efeito no Sabugal por ocasião da celebração do seu centenário de nascimento, Eduardo Sucena pediu-me que o representasse, lendo a comunicação que fizera para o efeito.
Inserido numa plêiade de notáveis que para o evento foram também convocados, procurei representá-lo de forma dignificante. Dando-lhe posterior conhecimento da ocorrência, recebeu-me na sua residência junto à Alameda de D. Afonso Henriques, em Lisboa.
Foi a última vez que nos vimos.

Eis chegado ao fim o meu contributo para a homenagem que a Comissão de Estudos Olisiponenses da Associação dos Arqueólogos Portugueses quis prestar a Eduardo Sucena.
Agradecendo o convite que me foi dirigido, termino elogiando um amigo íntegro, com uma postura vertical física e ideológica que merece o meu grande apreço.

Agradeço também a todos os presentes que tiveram a gentileza de me ouvir.

Lisboa, 6 de maio de 2017
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J. Leitão Baptista

One Response to Eduardo Sucena – In Memoriam

  1. José Jorge Cameira, Beja diz:

    Uma surpresa para mim a qualidade deste escrito. Parabéns e continua!

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