Casteleiro – Anos 50, a panela de ferro e o resto

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Retomo estas linhas para minha reflexão e de quem nem sequer imagina como se vivia há 50-60 anos na minha aldeia… Sobretudo: como era a vida das nossas mães nessa época de grandes carências a muitos níveis?

Panela de Ferro ao lume nas cozinhas da Beira Alta - Capeia Arraiana

Panela de Ferro ao lume nas cozinhas da Beira Alta

A panela de ferro é a rainha da cozinha nos anos 50. Mas há ao lado os amigos dela: o tacho, a sertã, a caldeira – tudo arrumado ao lume, pendurado nas cadeias ou colocado em cima das trempes. Eis o cenário marcante de uma casa, onde a cozinha era a zona principal.

Vida muito duras

Esta é uma crónica sobre o trabalho escravo das mulheres de então. (E de hoje, em certa medida, porque muito se mantém ainda.) Trata-se de uma época de cores fortes, pelo que uso aqui a panela, o tacho e as trempes como meio de atracção de leitura: foi para o enganar a si, leitor, agarrá-lo pelo lado da curiosidade e levá-lo a ler uma coisa bem mais profunda do que umas linhas folclóricas sobre tachos e panelas…
Cabe aqui dizer que nos anos seguintes, na década de 60, chegou a emigração e com ela mais dinheiro nos bolsos de muitos. Mas se é verdade que o dinheiro aliviou um pouco a miséria, é bom que se saiba que isso não aliviou as mulheres dos seus trabalhos. Pelo contrário: muitas ficaram sozinhas com os filhos e a vida toda: os animais e os campos para tratarem…

Cozinha, panela, tacho e trempes

A cozinha e o trabalho em casa ocupam a maior parte do tempo da mulher. Imaginem o cenário. Uma cozinha aberta, paredes e equipamentos na base do escuro de origem ou do preto adquirido pela queima de tanta lenha. Por cima, o caniço (fumeiro). À frente de todos, o lume. Do centro do lume sobem as cadeias, um entrelaçado de ferro em que se penduram os caldeiros com a comida para o «vivo» (os animais). Em volta do lume, as panelas: nelas se cozem as batatas, os feijões ou o caldo de couves. Umas trempes redondas (não triangulares como as da foto, retirada da net) servem para colocar em cima os tachos ou a caldeirinha de cobre ou de zinco em que se fritam as filhós ou se faz o arroz doce em épocas de festa. Aqui e ali, a sertã (frigideira) vai também ao lume para fritar um ovo e umas batatas, ou mesmo para fazer aquele inesquecível prato das «batatas arranjadas» (o que hoje chamamos «roupa velha»: aproveitamento de restos para os cozinhar em estilo de semi-frito, com azeite e alho).
A chouriça, a bucheira, a morcela ou o farinheiro, as costeletas, a carne gorda ou entremeada – esses alimentos raros, se os havia, eram grelhados numa grelha grande.
Este é o mundo da mulher do Casteleiro nos anos 50/60 do século passado.
Panelas e tachos são instrumentos da mulher. A cozinha é o reino da mulher.
Mas também o seu local de combate, de trabalho e dedicação até mais não: acende o lume, faz a comida, põe a mesa, serve a comida, recolhe a loiça, lava a loiça, arruma tudo, limpa tudo, vai ao campo, faz o que tem a fazer, volta a casa, acende o lume, faz a comida…

Tabuleiros dos bolos das festas preparados para ir ao forno da aldeia - Capeia Arraian

Tabuleiros dos bolos das festas preparados para ir ao forno da aldeia

«Trabalho de mulher»

Uma nota cultural final: uma ideia que vem do fundo dos tempos. A propósito de tachos, panelas e caldeirinhas: já ouviu dizer que «isso é trabalho de mulher»? Em tom de menosprezo, claro. A má formação aliada à ignorância faz estas coisas no nosso cérebro. Foram milénios culturais que é preciso domar…
O que era então esse tal desprezível «trabalho de mulher»?
Era de tudo: a comida, a horta, os animais para alimentação e venda (porcos, galinhas, coelhos), cozer o pão e preparar todo esse processo… e muito, mas muito trabalho no campo. Nos tempos livres (?) ainda havia que tratar dos gaiatos, das roupitas deles, fazer camisolas de lã e coisas do género.
E faziam tudo.
Mulheres-heroínas, é o que é.
As refeições do dia estavam por sua conta. Eram muitas, nas casas de trabalho: almoço – às seis ou sete da manhã; na época das grandes fainas, nas casas que as tinham, o c’ravelo (penso que se deve dizer caravelo) – às dez horas; jantar – ao meio-dia, mais ou menos; merenda – pelas quatro ou quatro e meia; ceia – às nove no Verão e às sete e meia ou oito no Inverno.
Isso, ocupava muitas horas. Mas havia mais trabalho em casa: limpar, varrer, roçar.
E, quantas vezes, fazer a roupa de todos? E lavar a roupa? Dias inteiros na ribeira, fizesse calor ou nevasse? E passar a ferro aquilo tudo?
Nos «intervalos», campo. Na vinda, animais de casa: porcos, coelhos, galinhas e o resto.

Nos «idos» de 50

Há quase 12 anos, escrevi estas notas sobre um assunto que me domina ainda hoje:
– Como é que as nossas mães ocupavam os seus tempos de «ócio»?
Antes de mais: falar de «ócios» para uma mulher casada nos anos 50 na aldeia é uma espécie de piada de mau gosto. Havia sempre que fazer.
Passajar umas meias.
Limpar a casa várias vezes ao dia, porque os marmanjos estavam sempre a sujar tudo.
Preparar a comida do «vivo» (os animais): comida aquecida ao lume (lareira), na maior parte dos casos e que em boa medida estava a cargo das mulheres. A expressão era exactamente esta: «Andei a tratar do vivo.»

Preparar as cinco ou mesmo seis refeições do dia:
Almoço – às seis ou sete da manhã;
C’ravelo (penso que se deve dizer caravelo – ?) – às dez horas;
Jantar – ao meio-dia, mais ou menos;
Merenda – pelas quatro ou quatro e meia;
Ceia – às nove no Verão e às sete e meia ou oito no Inverno.

Depois disto tudo, que tempo havia de restar às mulheres da aldeia que se possam mesmo dizer «tempos de ócio»?
Mas os poucos «momentos de ócio», isto é, quando as ocupações obrigatórias deixavam algum tempo «livre», eram passados ainda assim a trabalhar – assim diríamos hoje: passavam esse tempo a fazer meia com cinco agulhas (anos 50), a fazer malha com duas agulhas, a fazer renda (mais tarde, nos anos 60)…
Ou seja: mesmo nesses momentos, o resultado era para uso da família: as meias, as camisolas, as garruços (gorros) para a miudagem…

Mas quase nem se pode falar de desigualdade de sexos: é que a vida dos homens também era duríssima. Embora sejam os reis da casa: estivesse-se a fazer o que quer que fosse, chegava o homem da casa, parava tudo e andava tudo à roda dele… Eles trabalhavam que se fartavam. Mas elas não trabalhavam menos, verdade se diga…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

3 Responses to Casteleiro – Anos 50, a panela de ferro e o resto

  1. antonio barreiros diz:

    Senhor carlos mendes li o seu texto com todo o carinho e nostalgia.
    nasci en 1938 foi assim a minha meninice obrigado senhor carlos mendes

  2. Josecarlos Mendes diz:

    Meu caro, é uma alegria saber que gostou de ler…
    O sr. nasceu em 38 e eu em 48, veja lá…
    Qual é a sua terra?
    Um abraço, Amigo Barreiros.

  3. Maria Angela Marra diz:

    Revivi tempos passados… obrigada.

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