Os sem-abrigo – faces da exclusão

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Há pouco tempo, num domingo à noite, quando saí do expresso do Sabugal e atravessei a gare do Oriente, em Lisboa, para apanhar o Metro, dei-me conta da quantidade de pessoas, sem-abrigo, que por ali deambulavam e se preparavam para passar a noite: uns compondo cartões, outros sentados ou já deitados naquela espécie de banco nas laterais da estação.

Sem-abrigo na Estação do Oriente em Lisboa - Capeia Arraiana

Sem-abrigo na Estação do Oriente em Lisboa (Foto: D.R.)

Sem casa, sem morada certa e muitos sem documentos, vivem na mais profunda exclusão. O não ter documentos, para as instituições públicas, é não existir; é não ter direitos. Não podem pedir uma pensão ou um qualquer subsídio, integrar um programa de inserção social, candidatar-se a um emprego…
Quem são estes seres humanos? Que derrotas, vitórias, desejos e sonhos carregam ou já não carregam?
As situações serão muito diversas, tal como o discurso sobre eles. Haverá quem diga que são imigrantes ilegais, alcoólicos, toxicodependentes, doentes mentais…, considerando, de modo mais ou menos intolerante, que as autoridades devem intervir; haverá quem passe sem olhar, mesmo continuando a afirmar ter posto de lado, desde há muito, todos os egoísmos; e haverá ainda os que virão (poucos) ao seu encontro ou à sua procura, com uma comida quente, uma manta, uma proposta de ajuda, tratando-os pelo nome, escutando-os… – organizações da igreja e da sociedade civil.
E, entretanto, a vida lá fora segue o seu ritmo habitual, como se tudo estivesse bem, como se tudo fosse normal, como se não escutássemos «gritos». A noite dará lugar ao dia, na eternidade do tempo, em que se fazem e desfazem todas as vidas, mas não da mesma maneira. Arrumarão os cartões, longe ou perto dali, para pedirem nas ruas, ajudarem a arrumar carros, procurarem um refeitório social para almoçar e, de novo, quando cair a noite, regressarem à gare do Oriente ou a outro local, num ciclo interminável de desintegração pessoal e social.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

One Response to Os sem-abrigo – faces da exclusão

  1. António Emídio diz:

    Esses,são são os Parias da Terra, vitimas de um sistema politico-económico desumano.

    António Emídio

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