Regulamento das criadas

O filólogo e pedagogo Agostinho de Campos (1870-1944), reflectiu e escreveu sobre a educação das crianças, expondo as responsabilidades dos pais e das criadas domésticas. Para estas elaborou mesmo um curioso regulamento que salvaguardava o seu importante papel na educação dos filhos dos patrões.

A criada tem que cumprir regras ao lidar com os filhos dos patrões

No ensaio sobre educação, intitulado «Casa de pais, escola de filhos», que editou em livro, Agostinho de Campos, disserta, a páginas tantas, sobre a responsabilidade das criadas, que são testemunhas quotidianas da educação dos filhos dos seus amos. Porém, face à sua geral ignorância e manifesta inabilidade para lidarem com os filhos da casa, defendeu que deveria existir em cada lar um regulamento que estabelecesse os termos do relacionamento das serviçais com os meninos.
O pedagogo elaborou mesmo um projecto de regulamento, de onde se respigam algumas normas:

– Não se estropiam os nomes aos meninos. Maria é Maria e não Micas ou Mariquinhas. Pai e mãe são palavras que também nunca se devem estropiar.

– Quando algum dos meninos pedir qualquer coisa com mau modo, não se lhe faz. Com bom modo se lhe deve lembrar que peça por favor e agradeça depois o serviço feito. E se o menino insistir em ser desrespeitoso, não se lhe ralhar: previne-se logo a senhora.

– Se o menino fizer ou disser qualquer tolice ou maldade, a criada deve aconselhá-lo a proceder de outro modo, e concluindo: «Se o menino continuar, eu tenho de prevenir a sua mãe, e ela vai com certeza afligir-se».

– Em defesa da saúde das crianças devem as criadas ferver a água e o leite antes de lhes o darem a beber. Apenas lhes devem dar de comer dentro das horas próprias, ainda que as crianças muito o implorem. As criadas não devem ainda deixar os meninos vir à porta da escada ou da rua e serem aí tocados e beijados por pessoas mal cuidadas que lhes transmitam doenças.

– As criadas não devem falar às crianças em papões, lobisomens, lobos, raposas, e outros seres reais ou imaginários, metendo-lhes medo. Em muitos casos o resultado de tal procedimento é a criança ficar possuída pelo terror, tornando-se nervosa e doente – muitos gagos que nos fazem pena são vítimas desses pavores com que os ameaçaram em pequenos.

– As criadas não devem chamar para o pé de si as crianças que o pai ou a mãe acabam de castigar, começando a animá-los e lamentá-los. Quando assim procedem imaginam fazer o bem à criança, quando afinal a prejudicam gravemente, porque estragam a obra de educação e roubam aos pais os amores dos filhos – são traidores a quem lhes paga para ser ajudado e servido.

– As criadas não devem, na presença das crianças da casa, usar palavras grosseiras para com as outras pessoas, bater nas serviçais mais novas e dizer mentiras, para não darem maus exemplos.

– Quando a criança pergunta qualquer coisa para aprender, não se lhe deve responder com risos e troças: explica-se-lhe o melhor que se sabe, e quando se não sabe, diz-se-lhe que se dirija ao pai ou à mãe. Se a pergunta se refere a assuntos que se ocultam às crianças, procura-se mudar de conversa. Se insistir, é concluir: «Eu disso não sei». E nada de risos que agucem na criança curiosidades que não podem ser satisfeitas.

– Uma criada inteligente, que deseja casar-se e ter filhos, deve dar graças a Deus, quando encontrou uma casa onde os pais se ocupam seriamente da educação dos seus. Com patrões assim aprenderá muito sobre a maneira de lidar com crianças.
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(por Paulo Leitão Batista)

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