Casteleiro – Lendas da Serra d’Opa

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Hoje, numa pesquisa, vi esta foto de José Carlos Callixto com que abro a crónica. Isso levou-me atrás da Serra d’Opa e das suas lendas e dos seus encantos… Por respeito intelectual, começo por uma citação do Dr. Lopes Dias. E escolhi ilustrações de barrocos encantados lá do cimo da Serra…

Serra d'Opa (Foto: José Carlos Callixto) - Capeia Arraiana

Serra d’Opa (Foto: José Carlos Callixto)

«As Mouras da Serra d’Opa» por Jaime Lopes Dias

«Não há canto de Portugal que não tenha, em velhos castelos roqueiros, em fragas inacessíveis ou em ruínas de passado distante, lindas mouras de cabelos de ouro, de formas esbeltas e de superior encanto, presas por eternos desígnios a uma eternidade infinda.
E é por isso que, também no distrito de Castelo Branco, entre outros lugares, no sitio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para uma só vez em cada ano — di-lo o povo — na noite de São João, saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e que só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real.
E como os fetos abundam próximo, e como a vida é difícil para todos os que a ganham com o suor do seu rosto, muitos, de geração em geração, têm subido, encosta acima, até ao cume da Serra, a estender pelo chão lenços e toalhas, na ânsia de acertar com a planta que deixará cair o precioso fruto.
E, usando e empregando superstições várias, chamando mesmo a cruz em seu auxilio (alguns têm atado às quatro pontas dos lenços moedas de cruzado) muitos, todos lá têm ido e de lá têm vindo sem tesouros, desiludidos, e, mais do que desiludidos, amedrontados e confundidos!
É que, ao cair da meia noite, sempre e inalteravelmente, ruge formidável tempestade que ameaça subverter a própria terra! É que, àquela hora e naquele local, os trovões são tantos e de tal ordem que o mais animoso sucumbe! E assim, através das gerações, todos os que têm pretendido quebrar o encanto, recolher as riquezas e libertar as eternas e lindas sacrificadas, têm, na fuga, achado demasiado comprido, na noite de São João, o caminho da Serra! E por isso, lá entre penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes, enormes riquezas».

Serra d'Opa - Capeia Arraiana

Serra d’Opa

A lenda que me contavam

Cai bem, em época natalícia (ainda estamos nas festas – certo?), cai bem, dizia, trazer aqui um mito que nos encantava a meninice. Muita gente «sabe» que ali há moiros. Mas a história que se conta não é a mesma em todas as aldeias dos arredores. Cada terra tem a sua lenda. Neste caso, sei, por exemplo, que na Moita se fala de um moiro encantado Não tem tanta graça, temos de concordar.
A lenda que me contavam era outra, com muita piada, mas, sobretudo, com muito «suspense» à mistura. Era contada em voz baixa aos miúdos de cinco, seis anos, com os olhos muito arregalados, todos a imaginar as cenas lá longe (era tão longe), bem lá no cimo da Serra d’Opa (aí uns 600 metros de altitude, imaginem…).

Serra d'Opa - Capeia Arraiana

Serra d’Opa

Então a história era assim:

– Há muitos anos, quando ainda havia moiros, antes de eles fugirem, ficaram lá em cima três moiras. Jovens e muito bonitas. As moiras vestiam sempre vestidos brancos. Eram três e não havia lá mais ninguém. E sabes onde é que elas estavam? Dentro de um barroco muito grande que lá há.
– As três moiras nunca podiam sair de dia. Nem podiam ver a luz do Sol. Só podiam sair do barroco encantado de noite e só quando havia luar. E todas as noites à meia-noite elas saíam, vestidas de branco e vinham cá fora pôr a roupa a corar à luz da Lua. E a dançar. Elas todas as noites dançavam as danças dos moiros lá em cima, ao pé do barroco. E quem as queria ver tinha de ir de dia lá para cima e ficar lá escondido e depois, à meia-noite, espreitar. Mas nunca lá foi ninguém, porque as moiras eram encantadas e se alguém as visse desfaziam-se logo no ar. E ainda hoje estão à espera do moiro que fugiu da guerra que cá havia e que ficou de cá voltar para as vir buscar.

…Imaginam a pequenada a ouvir tal história de encantar?
Eu nunca me fartava de que ma repetissem noite após noite.
E bem me lembro das tantas vezes em que antes da meia-noite vinha à janela espreitar lá para cima a ver se via as moiras encantadas e a dançar ao luar.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta