Quando meu pai era vivo…

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

…Felizmente, pelo Natal, o madeiro à praça aquecia todos os que a ele se chegassem, já que o espírito do madeiro era aquecer o Menino que nascera no frio. E até dava para levar umas brasas para casa para aquecer a casa…

A lenha é fundamental para atenuar o frio dos rigorosos Invernos na Beira Alta - Capeia Arraiana

A lenha é fundamental para atenuar o frio dos rigorosos Invernos na Beira Alta

A falta de um pai, que a tudo acorre e tudo providencia, fazia a saudade de um certo rapaz da zona do Fundo, o qual desabafava com um amigo: – Quando meu pai era vivo, era tudo p’a trás. Agora que morreu, é tudo p’à frente. – Mas isso é bom! – respondeu-lhe o amigo. – Sim, mas era só no lume! – comentou o rapaz. Percebeu então o amigo que a vida corria mal em casa do rapaz, já que não havia lenha para se aquecerem desde que o pai morrera, a ponto de se chegarem todos para cima do pequeno lume lá em casa.
É que, para ter lenha, era preciso ter malhadas onde, cortados os carvalhos, se lhes iam arrancar as raízes, as cepas, com um enxadão, as quais seriam destarroadas por mulheres. Era, pois, necessário, para além da malhada, ter bom corpo para puxar ao pesado enxadão e ter um burro para as acarretar, na falta de carro de vacas. Dinheiro para pagar estes serviços também não abundava.
A quem não tinha malhada e não tinha dinheiro para comprar lenha só restava andar a apanhar uns galhos pelos caminhos ou roubar algum pinheiro ou carvalho, ficando tal acto sujeito às respectivas sanções.
Só assim percebemos o lamento do rapaz que perdera o pai.
Felizmente, pelo Natal, o madeiro à praça aquecia todos os que a ele se chegassem, já que o espírito do madeiro era aquecer o Menino que nascera no frio. E até dava para levar umas brasas para casa para aquecer a casa. Passado este tempo, só a receita atrás enunciada.

NotasP’a -para.
Destarroar -Tirar a terra das cepas.
Madeiro -grande fogueira que se faz no adro da igreja em vésperas de Natal.
Malhada -mata de carvalhos.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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