Casteleiro – Bonitas expressões populares

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Boas Festas Para Nós Todos! Por ser Natal, dou comigo a lembrar os tempos de puto e muitas das expressões usadas na aldeia atraem-me e dominam-me. Ainda hoje, sábado, por estar nevoeiro de manhã, cá em casa dissemos este ditado aldeão: «De manhã nevoeiro, à tarde soalheiro.» E não é que foi mesmo assim?

Lar de Idosos do Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Lar de Idosos do Casteleiro

Mas não se diz assim em todo o País… Aqui no sítio onde estou, quando eu disse a um vizinho como era este ditado popular, fui logo esclarecido de outra fórmula para o mesmo raciocínio meteorológico:
– De manhã nevoeiro; à tarde calmeiro.
À parte as pronúncias regionais, a ideia e a certeza do Povo é exactamente a mesma…
Esta crónica é uma homenagem aos nossos mais velhos.

O Natal é um dia asselanado

Não há como o ambiente de aldeia para a criação de expressões e modos de falar específicos. Hoje trago-lhe mais umas dúzias de palavras e expressões que soam ou pelo menos soavam nas ruas da aldeia quando eram mais habitadas.
Algumas, o leitor já as conhecerá, mas tenho a certeza de que hoje o vou apanhar de surpresa nalgumas esquinas.
Por acaso, já alguma vez ouviu esta expressão: «Não batas mais no ceguinho»? Pois bem, isso, na minha terra, quer dizer que a pessoa que fala tem razão, mas que já está a exagerar na reclamação dessa razão.
Já ouviu dizer: «Hoje é um dia asselanado»? Sabe de onde vem? De solene. É um dia assolenado ou seja: bastante solene – apenas isso: uma pequena corruptela de pronúncia… mas até parece outra coisa mais distante do vernáculo.
Já ouviu a palavra «pernão»? Sabe o que significa? Aplica-se quando as coisas deviam estar aos pares mas por alguma razão só aparece uma: essa é «pernão».
Já lhe disseram para não fazer tanta cerimónia? Percebeu? Isso quer dizer que alguém quer oferecer-lhe uma coisa, uma fruta, uma fatia de melancia e você a dizer que não, que não. Aí diz-se:
– Vá lá, aceite. Não faça cerimónia.
Ou então quando alguém não se faz rogado e aceita a fatia da melancia (eu sou assim), dizem que a pessoa não faz cerimónia nenhuma.
E quando alguém barafusta muito mas lhe passa logo, diz-se que é de «repentes» mas que lhe dá com força mas lhe passa logo.

Um dia de capar cães…

Voltemos ao linguajar do dia-a-dia no Casteleiro.
Uma tronga é uma pessoa desarrumada e trapalhona, sem cabeça organizada.
– Aquilo é um bacalhau sueco.
Leia: é uma tronga e mal comportada, de má resposta e tudo.
Labrusco é sujo. Mas o tempo neste inverno tem estado muitas vezes labrusco, também.
Quando um tipo é atado, meio enrascado e fica atrapalhado sempre que é preciso fazer alguma coisa, diz-se assim:
– Aquilo, em tendo qualquer coisa que fazer, é logo uma serra!…
Moranhêro é esta atmosfera meio húmida e pouco chuvosa que tem estado em alguns destes dias:
– Ó rapaz’s, está cá um moranhêro!
Quando uma comida está muito boa, diz-se que está de estalo ou que está de trás da orelha.
Mas se está um daqueles dias maus a sério, com vento e chuva etc., então a frase mais apropriada é outra mais forte:
– Está cá um dia de capar cães…
E esta?
– Isto é que vão aqui uns lavarintos!
Lavarinto é muito que fazer e uma grande azáfama, com muitos pratos e alguidares ou seja lá o que for.
Os preparativos das filhós na noite de Natal são uns lavarintos valentes.
Sabem o que era um «salazar», no meu tempo de jovem adulto, julgo que depois de Salazar ter desaparecido? Era simplesmente o «rapa» que se usa para arrebanhar a farinha já amassada que ia ficando no alguidar, quando se estavam a fazer os bolos.
Dizem-me que se dizia isso por malandrice – e acredito.
Mais uma, só: alguém que quando faz qualquer coisa ou dá algo a uma pessoa nunca mais se cala que fez ou que deu, diz-se assim:
– Aquele, em fazendo alguma coisa, está sempre a arrefartar…

Burro das Beiras - José Carlos  Mendes - Capeia Arraiana

Burro das Beiras

O burro e o assobio

Quando nascemos numa aldeia, os modos de falar das nossas gentes entram-nos no sangue desde que nascemos e vão tomando conta do nosso sangue e do nosso cérebro sem darmos sequer por isso. Ou seja: não somos capazes de explicar a totalidade dos significados profundos de cada gesto, de cada som gutural, de cada nasalação – mas sabemos com rigor o que significa. Posso não conseguir explicar tudo o que significa uma palavra – mas sinto-a dentro do cérebro. E, quando tento pôr isso em palavras, dá-me raiva, mesmo raiva, porque nunca me parece que já consegui fazer-me entender.
Mas neste subtítulo vou-me vingar: vou explicar tudo até ao fim.
A expressão em causa é engraçada:
– Eu não preciso que me assobiem para beber água.
Começo por recordar a quem sabe e explicar a quem não sabe que dantes, quando ainda havia muitos burros na aldeia, os donos tinham o hábito de lhes assobiar para que eles bebessem a água, junto do pio ou do balde onde estava o precioso líquido. E, na verdade, isso resultava: o burrinho começava devagarinho e, a pouco e pouco, vai de beber tudo.
Agora a ligação da frase do assobio aos burros e o que isso significa.
Quando a pessoa diz que não precisa que lhe assobiem, na prática está a dizer que não é burro. Ou seja: que não é estúpido e bem entende o que querem dizer ou o que andam a fazer nas suas costas…
Mas por que é que se pensa que os burros são estúpidos? Essa é outra história e muito longa. Resumindo: burro vem de uma palavra latina que significa ruivo, vermelho, porque a pele dos asnos era meio arruivada lá pelos locais onde os romanos encontraram os primeiros animais de carga e tracção que acabaram por trazer para a Península e não só, claro. Ora a cor das capas dos dicionários era vermelha também… e então diz-se que se eles precisavam de estudar é porque eram estúpidos… Isto não tem pés nem cabeça, mas as lendas contam-se por esses caminhos ínvios… Nem sequer tem lógica. Mas os povos assumiram que os burros são burros – quem sou eu para contrariar? Só posso dizer que sei que não são nada estúpidos. E isso, que é a minha opinião, eu garanto que não muda. O burro é, isso sim, um animal com muita personalidade. E não faz tudo o que lhe mandam logo à primeira. Por isso, a malta desatou a achar quer isso é estupidez. Acho que foi assim que se criou o mito. Sei lá.

Jesus na Corte de Herodes - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Jesus na Corte de Herodes

Religião e sabedoria de vida

A linguagem religiosa é muito desviada para a vida real, também, como é natural.
Deixo-lhe aí alguns exemplos simples:
– Para baixo, todos os santos ajudam. Para cima, é só um e é coxo.
– Tenho de aguentar esta cruz…
– Isto é o inferno em vida.
– Aquela ganhou o céu em vida.
– Isto é um calvário.
– É o purgatório em vida.
– Aquilo é que é um Rei Herodes ou: aquilo ali é um Herodes.

Quando se chama Judas a alguém, isso quer dizer que é traidor.
Quando se diz que é um Lázaro, quer-se dizer que a pessoa sofre muito – fisicamente, como o Lázaro da Bíblia.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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