Lambarices de infância

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Quase no Natal vieram-me à memória alguns dos «mimos» doces, e não só, da minha infância. E, curiosamente, as primeiras lembranças são do dia 1 de Novembro e não são doces, para além da doçura do carinho humano dos mais velhos.

Farófias (Espumas) e Rabanadas - Capeia Arraiana

Farófias (Espumas) e Rabanadas

Falo do «pão estendido» que os padrinhos davam aos afilhados neste dia, que ainda hoje se vende, mas que para quem ainda guarda o sabor antigo é melhor nem provar.
Mas falo também do «magusto» feito à lareira pelo meu avô, castanhas que nunca comi iguais, pois eram assadas pelo melhor avô do mundo…
A segunda lembrança prende-se com o pequeno-almoço do dia da matança em casa dos meus avós, sobretudo da «bolacha da matança» que era mandada fazer na padaria do sr. Pires.
Do Natal, propriamente dito, recordo as «filhoses» cuja massa era preparada logo de manhã, ficando à beira do lume, a «tender» até ao fim do dia. Era um dia importante lá em casa, pois que durante a fritura a cozinha era fechada aos homens, para ficarem boas… Da última massa eram feitos dois bonecos, coisa que nunca vi fazer por ser homem, um para mim e outro para a minha irmã.
No Natal não podiam também faltar as «fritas» da minha mãe, nome porque eram conhecidas as rabanadas. Manjar divino, sobretudo nos dias seguintes, envoltas numa calda de açúcar espessa e negra.
Mas há outras «gulodices» que não me saem da cabeça e do palato:
Lembro as «espumas», nome dado às farófias, boiando num leite-creme de lei, que não a mistela com que hoje se servem nos restaurantes deste país.
E que dizer da «Bola Parda» esse hino a uma das especiarias mais apetitosas introduzidas pelos portugueses na Europa, a canela.
Se ainda estiver aberta, a Pastelaria Luena do meu grande amigo Luís, faz uns queques de bola parda genuínos que são de comer e chorar por mais.
E que me diriam agora de uns «esquecidos» ainda quentes a saírem do forno?
E termino, por hoje com outro hino aos sabores de infância, as «papas de carolo» de talhada, isto é, bem consistentes para se poder cortar à talhada e comer regadas com leite e açúcar amarelo.
Não, não posso acabar sem lembrar a «manteiga» que a minha mãe fazia. Com a minha irmã íamos a casa dos pais da Dália no Largo do Castelo buscar o leite direto da vaca que, depois de fervido, dava uma nata grossa que a minha mãe guardava e dela fazia uma manteiga como não há outra. Muitas vezes barrei o pão centeio negro que a minha avó fazia com aquela manteiga, que ficava ainda melhor com um pouco de açúcar amarelo por cima!…
Já não contenho a saliva dentro da boca…

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ps. Sai esta crónica nas vésperas do Natal. A todos os que me leem, o desejo de um Natal feliz em família.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

2 Responses to Lambarices de infância

  1. Joaquim Tenreira Martins diz:

    Ramiro, já me desfizeste a boca em água e me lembraste as mesmas iguarias que lá em casa se faziam. Esqueceste-te talvez do que é que te davam os teus familiares de Vale de Espinho, as minhas amigas Gina e Rita. Abraço, Boas Festas e até breve.

  2. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    Caro Quim
    Um dia conto as minhas aventuras em Vale de Espinha dessas minhas muito saudosas tias

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