Conto de Natal – A epopeia da emigração portuguesa

Joaquim Tenreira Martins - Orelha - Pedaços de Fronteira - Capeia Arraiana

Um verdadeiro Conto de Natal – A epopeia da emigração portuguesa. Era uma vez um país à beira do mar plantado onde vivia um povo trabalhador, bondoso e inteligente. Havia uns que eram detentores de uma grande riqueza, mas a maioria das pessoas eram pobres e com famílias numerosas.

Natividade de Georges La Tour - Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

Natividade de Georges La Tour

Este povo foi sempre muito corajoso. Quis viver um destino independente do país vizinho.
Nele nasceram homens visionários que o levaram a empreender feitos gloriosos que ficaram na história por terem dado novos mundos ao mundo.
Outras vicissitudes atravessou ainda este povo: depois de um período de glória, conheceu momentos menos felizes, tais como, um período de perda de soberania, uma invasão de tropas estrangeiras, uma guerra civil e sucessivas mudanças de regime e de orientações políticas.
O povo dotado de grande coragem e imaginação tentou sempre resolver os problemas ele próprio como um adulto, e por várias vezes ao longo da sua história optou por emigrar para outras paragens, como o Brasil, Argentina, Estados Unidos da América, África do Sul, Venezuela… Muitos disseram para sempre adeus à pátria que os viu nascer.
Em meados do século passado, após uma acentuada pobreza e uma incompreensível guerra colonial, o povo partiu em debandada por essa Europa fora para preencher a falta de mão-de-obra que tinha sido dizimada na segunda guerra mundial e fixou-se em terras de França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e também em outros países de além-mar.
O povo, após um longo período de obscurantismo político, acordou numa manhã de Abril para saborear a vida em democracia, na esperança de se tornar mais próspero e com uma mais igualitária distribuição da riqueza produzida no nosso país. Mas era ignorar o apetite insaciável da natureza humana que não se cansa de acumular indevida e ilegalmente bens que poderiam pertencer a todos, muitas vezes com a conivência política.
Ultimamente, até a juventude que estaria normalmente destinada a dirigir um dia este povo tem emigrado para outras terras, e já não se identifica com o tradicional conceito de emigração. São filhos da classe alta e média. Tiveram outro percurso. No entanto, foram também forçados a emigrar pelas mesmas razões que em épocas anteriores.
Não há qualquer dúvida de que a emigração favoreceu também o desenvolvimento do nosso país, pois muitos, de pobres que eram antes de emigrar, tornaram-se remediados e alguns, a quem a roda da fortuna sorriu, afirmaram-se bons empreendedores, quer nos países da emigração quer em Portugal.
Para muitos a emigração foi um verdadeiro Conto de Natal: fugiram da miséria, puderam dar uma boa educação aos filhos, construíram a casa de que nunca teriam imaginado.
É verdade que, ao emigrar, nos privámos do sol, do nosso mar, da família, e que as saudades do torrão natalício nos leva a olhar todos os anos, nesta quadra festiva, para o presépio ou para a árvore de natal com os olhos de quem muito sofreu para aqui chegar, identificando-nos com um ou outro dos personagens que ali colocamos para nos sentirmos menos sós nestes momentos que tanto nos enternecem e nos comunicam o nostálgico encanto de voltarmos a ser crianças.

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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins (joatemar@gmail.com)

4 Responses to Conto de Natal – A epopeia da emigração portuguesa

  1. Bonita crónica caro conterrâeo e amigo, que sinto particularmente pois alguns dos meus familiares mais próximos também embarcaram na vaga de emigração portuguesa para a Europa… Feliz Natal e Próspero 2018 para ti e família.

    • Joaquim Tenreira Martins diz:

      Caro amigo e conterrâneo. Tens sempre uma palavra amiga e apropriada. E com a tua sabedoria e posição social até tem mais autoridade. Também para ti e para os teus Um Feliz Natal, com muitas felicidades para ti e para os teus para 2018. E até ao Bucho!

  2. João Duarte diz:

    Gostaria que o sr. Amaro Monteiro, um cronista natural do concelho, lesse este artigo. É que este artigo fala que existia miséria e existia mesmo. O sr. Amaro Monteiro diz que não. Diz o sr. Amaro que metade dos que emigraram deveriam ter ficado por cá, a trabalhar na terra, já que não precisavam de emigrar. O que, efectivamente, faz falta no concelho é um Museu ou um Núcleo Museológico sobre a Emigração e o Contrabando, onde se conte a verdadeira saga que foi a dos emigrantes dos anos 60 do século passado, perseguidos pela PIDE. Convém que esse Museu não esqueça que a PIDE (ao contrário do que, agora, é moda apregoar) perseguia os emigrantes. Infelizmente a memória vai-se perdendo e , hoje, até já os pides levantam a cabeça.

  3. Aurora Martins Madaleno diz:

    Gostei de ler esta epopeia em bonito texto de um português que nunca esqueceu a sua terra. Parabéns pela força da vida, pela amizade e pelo exemplo que muitos podem seguir.
    Votos de felizes festas natalícias.
    Abraço
    Aurora Madaleno

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