As nossas terras por José Leite de Vasconcelos (2)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

O maior etnógrafo e antropólogo português, José Leite de Vasconcelos, falecido em 1941, percorreu o País de uma ponta à outra. Produziu uma obra científica sem rival, em que sobressaem os numerosos volumes da Etnografia Portuguesa, em cujo terceiro volume descreve as nossas terras da Raia e de Riba Côa. Como nem todos os nossos leitores terão acesso a essa obra, ousamos transcrever aqui os principais parágrafos respeitantes à Raia sabugalense e às gentes de Riba Côa, constituída pelas terras situadas na margem direita do Côa e sitas nos concelhos do Sabugal, Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo. (Parte 2 de 2.)

Etnografia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos - Pinharanda Gomes - Capeia Arraiana

Etnografia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos

Nos tempos actuais…
Deixem-se de parte várias corografias do primeiro quartel do séc. XIX e passe-se aos tempos actuais.
Em 1906 ocupou-se do assunto o Dr. Joaquim Manuel Correia, no artigo do Archeologo […] pessoa a todos os respeitos muito autorizada, como natural da sub-região, isto é, da vila do Sabugal. E aqui se transcreve o que ele disse:
«Há no território de Riba-Côa muitas povoações, sendo as principais: Sabugal, Alfaiates, Vilar Maior, Castelo Bom, Castelo Rodrigo, Castelo Melhor e Almeida. Mencionaremos ainda as freguesias seguintes: Aldeia do Bispo, Aldeia da Ponte, Aldeia da Ribeira, Aldeia Velha, Badamalos, Bismula, Ruivoz, Ruvina, Rebolosa, Nave, Soito, Vale das Éguas, Vila Boa, Rendo, Quadrazaes, Vale de Espinho, Foios, Forcalhos, Lageosa e Pousafoles, todas pertencentes hoje ao concelho do Sabugal.
Além d’estas seguiam-se: Algodres, Almendra, Almofala, Cinco Vilas, Colmeal, Escalhão, Freixeda do Torrão, Junça, Rio Sêco, Vale de Afonsinho, Vale de la Mula, Vermiosa, Vilar de Amargo, Vilar Formoso, Vilar Torpim, Reigada, Luzelos, Malhada Sorda, Malpartida, Mata de Lobos, Nave de Haver, Nava Redonda, Naves, Penha de Aguia, Poço Velho, Quintans de Pero Martins, Vale de Coelha e Escarigo.»
A extensão do território – umas 15 léguas de comprimento e 4 de largura – a constituição geológica e variedades de clima permitem exercerem-se nele muitas culturas agrárias, desde a do centeiro e outros cereais (em maior ou menor quantidade) á preparação de vinho generoso, e á plantação de boas árvores fruteiras, macieira, pereira, figueira, predominando esta no Norte e a macieira no Sul. Relativamente ao trabalho< dos cereais canta-se na província... Eu hei-de ir a Cima-Côa
A segar e a atar pão;
Hei-de levar comigo
Prenda do meu coração…

…o que deixa ver que entram nesse trabalho homens e mulheres.

Os Cimacoenses dedicam-se quer, e sobretudo, á lavoura, como vimos, quer concomitantemente á criação de gados (ovino, caprino, bovino, suíno, etc.). Como indústria, fabricam, por exemplo, queijo, que antes das falsificações que hoje se lhe introduzem, passava por saborosíssimo e se conhecia em toda a parte por Queijo de Cima-Côa.

Sabugal
Pertence quasi todo á Terra Fria, e há freguesias, por exemplo, Sortelha, que pertencem segundo os sítios, ás duas Terras.
A maior parte das pessoas consideram sinónimos Sabugal e Terra Fria; isso se faz, por exemplo, num número da Gazeta do Sabugal (de 28 de Junho de 1926, na página Agrícola). Quadrazais é o nome de uma freguesia do Sabugal a cujos habitantes se chama Quadrazenhos, que se dedicam ao mister de negociantes de azeite, sabão, etc., e ao de almocreves, fazendo muito contrabando, e usando entre si especial gíria, quando andam fora da terra (possuo d’ela alguns espécimes).
Tenho ouvido por longe dizer Quadrazenhos no sentido de «habitantes da Terra Fria»; pars pro tota.

As produções da Terra Quente e da Terra Fria correspondem ás que vimos em Trás-os-Montes, nas Terras de iguais nomes: ali, muito azeite, uvas, doces, amendoas, figos, laranjas, e ás vezes mel; aqui, cereais, feijão, batatas e castanhas.
Pois que a sub-região do Campo abunda de laranjas e escasseia de batatas, emquanto na Terra Fria acontece o contrário. Os respectivos lavradores permutam geralmente uns generos pelos outros, em vez de os venderem. Eis aqui um comércio de carácter primitivo, análogo ao de que se falou supra, como existente no Vale (Trás-os-Montes).
Cantigas populares que celebram as duas Terras:

Eu hei-de ir à Terra Fria
Por toda esta semana;
Hei-d’empregar o meu brio
Na mais bonita Arraiana.

Cachopas da Terra Fria,
Que fazeis ao que ganhais?
Tragueis o amor descalço,
Nem uns sapatos lhe dais!

As moças da Terra Fria
Já não sabem maçar linho,
Sabem ir à cantareira
Ver se o pichorro tem vinho.

Cachopas da Terra Fria
Que vindes fazer à Quente?
– Vimos por ganhar dinheiro
Não vimos por ver a gente!

As cantigas números 1, 2 e 4 ouvi-as na Sortelha em 1933; a 3.ª ouvi-a em Penamacor e deram-me versões de Penagarcia e Alpedrinha.
(José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, Vol. III, ed. facsimilada, INCM, 1995, páginas 282 a 286 e 312-313. Omitimos as notas de rodapé da obra em vista.)
(Final da parte 2 de 2)

:: ::
«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

Deixar uma resposta