Casteleiro – Crónica número 334

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Esta é a minha crónica número 334 sobre a minha aldeia. Comecei a 11 de Fevereiro de 2011. Uma por mês, mais ou menos até Julho. Depois, a partir daí, uma por semana: já são quase sete anos a acompanhar semanalmente a minha terra. Tem sido uma delícia rever tudo desde 1950 até hoje…

Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Casteleiro

O Casteleiro é uma aldeia igualzinha a todas as outras. Tem as mesmas histórias ou parecidas. Tem as mesmas pessoas ou semelhantes. Mas para nós tem uma coisa que mais nenhuma tem, de certeza: é a terra mais linda e mais encantadora do mundo.
Está tudo dito.
O resto são histórias.
E estórias – que adoro recordar e repetir até que alguém as leia.
É o caso do que vou contar hoje.
Tem a ver com a nossa igreja. Leia, que vai gostar.

Igreja do Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Igreja do Casteleiro

Sabia que esta igreja hoje podia estar noutro local?

Devia estar-se aí pelos anos 80 ou 90 do século XIX: digamos por volta de 1880 ou 1890. O nosso caro amigo Daniel Machado afirma que foi em 1890 que foi construída a igreja no local onde está hoje, no seu magnífico livro de etnografia popular a que deu o título simples de «Casteleiro» e que agora amavelmente me ofereceu com dedicatória simpática que agradeço.
Pois bem: admitamos: estava-se em 1890.
Soube nestas férias que haveria então no Casteleiro – como em todo o País – dois partidos principais, ambos monárquicos ainda (já começava a aparecer lá para Lisboa o Partido Republicano, mas aqui ainda era cedo): um mais conservador e outro mais modernaço. Para a altura, claro. E cada um tinha o seu chefe, como era hábito no País.
Os dois chefes, «como mandavam as normas», nem se podiam ver.
As famílias chegavam a insultar-se de quintal para quintal, lá atrás.
E as famílias vizinhas a apreciar tudo.
Isso passava-se, digamos, das traseiras do actual Centro para as traseiras da casa que depois foi do Sr. Manuelzinho Fortuna.
Mas o pior eram as relações políticas e não só entre os chefes políticos e os seus apoiantes. Como em cada localidade do resto do País, nesses idos de 1880/1890, esses dois «chefes de partido» eram pessoas das mais influentes da aldeia.
Tanto quanto me contam, havia na altura no Casteleiro, como no resto do País, muita luta entre os partidos.
Ora o que é que isto tem a ver com a igreja?
Tem tudo e já veremos porquê.
É que ambos os partidos – ou melhor, os seus chefes – queriam oferecer terreno para a construção de uma igreja, uma vez que a igreja matriz da época (a capela do Reduto, dedicada ao Espírito Santo) era já muito pequenina.
Mas há mais.
Acresce que, no local onde hoje está a igreja matriz ou igreja paroquial, estava ainda o cemitério e uma capela.
Ora uma lei liberal de 1834 tinha proibido os enterramentos dentro das localidades.
Por isso, colocava-se à data um duplo problema: construir uma igreja matriz maior e transferir o cemitério para fora da aldeia.
O cemitério foi então criado no local onde hoje está e os corpos trasladados.

Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Casteleiro

O local que era para ser mas não foi… de construção da nova Igreja Matriz

Mas… e a nova igreja? O que é que as lutas entre os partidos têm a ver com a nova igreja?
Pois conta-se na nossa tradição oral que a coisa foi assim: o chefe do partido conservador ofereceu para a nova Igreja um terreno junto do cemitério da época, mesmo no sítio onde agora está de facto a Igreja Matriz; e o chefe do outro partido terá adiantado outra oferta de terreno: queria que a igreja fosse construída no terreno a que chamamos «Miranda» (cá em cima, onde depois foi instalada e onde ainda se encontra a cabina eléctrica, à beira estrada).
A minha fonte diz que o povo foi a votos e que ganhou o local lá de baixo.
Eu não acredito que houvesse uma verdadeira votação de braço no ar em pleno final do século XIX.
O que deve ter acontecido é que a maioria das pessoas, o pároco e os seus mais próximos seriam também mais próximos do partido mais conservador e assim se terá decidido construir a igreja ao lado do sítio onde estava o cemitério da época (que julgo que ficaria lá atrás, no adro de acesso ao Coro).
…E assim ficámos com a Igreja Matriz do Casteleiro naquele local mais antigo e mais histórico onde está hoje.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

2 Responses to Casteleiro – Crónica número 334

  1. Daniel Machado diz:

    Amigo José Carlos Mendes
    Diz sobre a Igreja do Casteleiro que eu afirmo: “…que foi em 1890 que foi construída a igreja no local onde está hoje, no deu magnífico livro de etnografia popular a que deu o título simples de «Casteleiro»…”.
    Já em tempos, esclareci o meu amigo que a Igreja do Casteleiro supõe-se que foi construída entre 1690 a 1699 e não como diz em 1890.
    A data de 1880 diz respeito à construção da Casa das Almas.
    Para melhor esclarecimento, aconselho-o a ler, de novo, nas páginas 150 e 151 do meu livro, com o título “Memórias, Usos e Costumes dum Povo – Casteleiro, e não de simplesmente “Casteleiro”.
    Um abraço,
    Daniel Machado

  2. Josecarlos Mendes diz:

    Obrigado, Daniel, pelos esclarecimentos.
    Bom Natal, com um abraço.
    JCM

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