As nossas terras por José Leite de Vasconcelos (1)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

O maior etnógrafo e antropólogo português, José Leite de Vasconcelos, falecido em 1941, percorreu o País de uma ponta à outra. Produziu uma obra científica sem rival, em que sobressaem os numerosos volumes da Etnografia Portuguesa, em cujo terceiro volume descreve as nossas terras da Raia e de Riba Côa. Como nem todos os nossos leitores terão acesso a essa obra, ousamos transcrever aqui os principais parágrafos respeitantes à Raia sabugalense e às gentes de Riba Côa, constituída pelas terras situadas na margem direita do Côa e sitas nos concelhos do Sabugal, Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo. (Parte 1 de 2.)

Etnografia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos - Pinharanda Gomes - Capeia Arraiana

Etnografia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos

Terra Fria
«… Região que, ao norte da região do Campo, compreende os concelhos de Sabugal, Manteigas, Guarda e Pinhel.
Os habitantes chamam-se serranos. Também ouvi chamar, por extensão, quadrazenhos aos almocreves que vão do Sabugal negociar para longe (quadrazenhos são mais propriamente os habitantes de Quadrazais» (Abaixo é o Campo).»

(José Leite de Vasconcelhos, De Terra em Terra. Excursões arqueológico-etnográficas através de Portugal, Vol. I, 1927, pág. 157.)

A Raia
«Na Raia distingue-se: Raia Alta (do Sabugal até ao Douro, com Almeida); Raia Baixa (todo o concelho de Figueira de Castelo Rodrigo).»
Sinónimo de Raia é a expressão Riba Côa, ou, como se lê no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: «Riba de Côa, é a região da Transcudani, povo da antiguidade de que falei nas Religiões da Lusitânia (II, 74, etc.).»
(José Leite de Vasconcelos, De Terra em Terra, Vol. I, 1927, pág. 227.)

Riba-de-Côa, Riba-Côa ou Cima Côa
Território que fica na margem direita do rio Côa, entre o rio e a fronteira hespanhola, desde a vila do Sabugal, ao Sul, até o concelho de V.N. de FozCôa, ao Norte.
Conquistado aos Arabes por Fernando II de Lião (1157-1188), permaneceu algum tempo no domínio d’este reino, até que em 1296 D. Denis de Portugal se apossou violentamente d’ele, sendo-lhe porém confirmada a posse no ano seguinte pelo tratado de Alcanices. Ao mesmo território pertenciam não só os conventos de S. Julião do Pereiro, Ordem Militar de Cister e de Santa Maria de Aguiar, igualmente de Cister, mas monastica, que naturalmente ficaram sendo nossos, senão também, com muitas outras terras, os antigos concelhos de Castelo Bom, Alfaiates, Castelo Rodrigo e Castelo Melhor, que se regulavam, na vida social, por códigos locais de Direito consuetudinário, cuja colecção, muito importante, e de que algum proveito se tirará na presente obra, recebeu da nossa historiografia o nome de Costumes de Riba-Côa.
O território de Riba-Côa, por causa da sua aquisição tardia, foi considerado a princípio comarca (província) independente do resto da Beira, como consta do que se disse supra, pp. 17-18, e do que diz G. Barros relativamente a 1463 e 1472. Ainda em 1531-1532 distingue Rui Fernandes em Beira e Riba-Côa e em 1561 escreve Gaspar Barreiros: «Toda a terra da Beira, Riba de Côa, e parte de Tralosmontes.»
Das relações de Riba-Côa com o chamado Bispado Novo, encorporado no de Lamego, e que depois fez parte do de Pinhel, vid. a presente obra, II, 484-485.
Antes de passarmos a definir melhor a área actual do nosso território, respiguemos em textos antigos ou antiquados, algumas alusões a ela: igrejas de Riba-de-Côa em 1312; Sabugal, Riba de Côa, em 1395, arcediagado em 1505: d’além de rriba de Coa no Cancioneiro Geral. O Cadastro das Povoações, de 1527, coloca em Riba-de-Côa, além dos quatro concelhos mencionados acima, e do Sabugal, mencionado agora: Almeida, Vilar Maior, Reigada, Cinco Vilas e Almendra (hoje freguesia) e a respeito d’esta última esclarece: «Aqui em Almendra… se acabou a comarca de Riba de Côa.»
No século XVII fez F. Brandão, cronista de Alcobaça, descrição sumária (geográfico-histórica) de Riba de Côa, enumerando lugares, que já conhecemos e indicando produções, de que adiante se falará.
O Pe. Carvalho (séc. XVII-XVIII) consagra algumas linhas á mesma comarca, bem como Bluteau, que nada adianta ao que deixámos especificado. O Pe. Luis Cardoso, em 1747, ora diz Riba-Côa, ora Cima-Côa, e dá como da região Almofala (hoje freguesia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo), lugar que até aqui ainda não nos apareceu.
D. Joaquim de Azevedo, na Hist. Eccles. de Lamego (escrita entre 1731 e 1786), e publicada no Porto em 1878, descrevendo as freguesias que compunham o bispado de Lamego, que ele subdivide em distritos – entre eles o de Riba-Côa – trata d’este com algum desenvolvimento, pois enumera alfabeticamente sessenta freguesias numa lista que Pinho Leal reproduz sem citar a fonte.

(José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, Vol. III, ed. facsimilada, INCM, 1995, páginas 282 a 286 e 312-313. Omitimos as notas de rodapé da obra em vista.)

(Final da parte 1 de 2)

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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

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